Diário de Notícias - 11 Jul 05

 

O único prazer da vida

João César das Neves

 

Viram de novo, nos olhos daquela criança, a coisa mais preciosa que tinham perdido o espanto infantil perante a realidade conhecida, o deslumbramento pueril em face do banal, a surpresa inocente diante do inesperado da rotina. A humanidade aprendeu que o único prazer da vida é a vida

Desde o longínquo século XXI que se sabia que tudo tinha de acabar assim. Ninguém se espantou quando a Humanidade, no topo da espiral do desenvolvimento e consumo, atingiu o pleno, a fartura, a satisfação. O supremo tédio.

O processo demorou mais que o previsto. A imaginação humana mostrou um poder e versatilidade inimaginados. Foi sempre sendo possível encontrar mais um gozo, descobrir novas necessidades, explorar cambiantes originais, retomar velhas delícias. O esgotamento, anunciado há tanto, tardou em verificar-se. Um dia, porém, foi preciso admitir o enjoo dominava totalmente a raça humana. Todos viviam no completo enfado.

A maravilha da técnica, que gerou o sucesso, foi a primeira a perder o maravilhoso. O fim da fome, pobreza, doenças e calamidades deu-se por volta do início do século XXII. A nutrição intravenosa desligou a refeição do alimento. A reciclagem genética permitiu o conforto multissecular. O ser humano controlava totalmente a sua natureza. A reprodução, mesmo em laboratório, acabou esquecida. A população mundial manteve-se estável, em número e identidade. Eram sempre as mesmas pessoas que viviam vidas sucessivamente regeneradas. A humanidade era constante, inalterável, segura.

Por essa altura desapareceram também a religião, arte, ciência e filosofia, consideradas antiquadas, actividades típicas das antigas "eras de agonia". O ser humano então entregou-se totalmente a si próprio. O prazer reinava sem limites. O resultado, como previram os antigos, foi a cegueira da mente e o embotar dos sentidos.

A primeira coisa a esgotar-se foi o sexo, que fora a primeira a suscitar obsessão total. A sociedade no século XXI deixara-se dominar pelo prazer venéreo. Sem o que chamava "tabus", usava a líbido para tudo, de vender sabonetes a ganhar eleições. Ao fascínio seguiu-se a fúria, a que se sucedeu o vício e a animalidade. As boçalidades e perversões que apimentavam a luxúria acabaram como única razão do prazer. Tudo terminou, como seria de esperar, na apatia.

Entretanto as outras delícias esbanjavam-se lentamente, da comida à adrenalina, da droga à fama. Os temperos ultrapassavam a sensibilidade do palato; os filmes buscavam obsessivamente assombros inatingíveis, as "montanhas russas" prolongaram-se por quilómetros. Tudo era já visto, já experimentado, já saturado. A fartura era a regra. A surpresa, a ausente. O mundo todo conheceu o sofrimento de sultão indolente, incapaz de encontrar novos prazeres para satisfazer os caprichos.

A última coisa a perder o sabor foi a liberdade. Mas também ela acabou por ceder à inexorável força do esgotamento. A "realidade virtual absoluta" selou o aborrecimento. O mundo sofria de enfartamento sem azia, de saturação sem náusea, de excesso sem emoção. Alguns até advogavam a guerra como o prazer desconhecido.

Então, inesperadamente, surgiu a solução. Num acaso fortuito e inexplicável nasceu uma menina. De repente, o mundo ligado pela globalnet viu algo que já esquecera uma criança. Por todos os cantos do planeta ressoou de novo o choro de um bebé. Os plurisseculares habitantes da velha Terra contemplaram, surpresos, coisas há muito esquecidas: inocência, candura, verdade. Foram descobrindo embasbacados o balbuciar sem sentido, o estralejar de um riso sem razão, o esbanjar do nada sem interesses. Desfaleceram perante a beleza incomparável de um bebé a dormir.

A fragilidade e dependência da criança trouxeram aos saciados um frémito insondado. O mundo compreendeu, atónito, o prazer de dar--se, a felicidade de ajudar, a excelência da caridade gratuita. A suprema plenitude do amor de-sinteressado. Souberam então que o único prazer da vida é entregá-la.

Mais importante de tudo, viram de novo, nos olhos daquela criança, a coisa mais preciosa que tinham perdido o espanto infantil perante a realidade conhecida, o deslumbramento pueril em face do banal, a surpresa inocente diante do inesperado da rotina. A Humanidade aprendeu que o único prazer da vida é a vida.

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