Público - 1
2 Jul 05
"Era difícil, os estudantes de 5 ficaram pelo 3"
Tiago e Vítor estão a chegar à escola. "Eu gostava de Engenharia Agronómica" -
comenta um deles, enquanto o outro vai debitando hipóteses como "engenharia de
máquinas, civil..." A conversa é alimentada até chegarem à janela onde estão as
classificações do final do 9º ano. Agora, o importante é ver se passaram e se as
notas dos exames, feitos pela primeira vez, tiveram alguma influência nos seus
resultados.
Na escola básica de 2º e 3º ciclo de Marvila, Lisboa, logo de manhã, os alunos
iam ontem aparecendo a conta-gotas. "Amanhã é um dia melhor, eles vêm para fazer
as matrículas e aproveitam e vêem também as notas", aponta o porteiro, António,
com muitos anos de experiência. Desde as sete da manhã que as notas estão
afixadas numa das janelas da escola, mas às 9h00 ainda poucos por ali passaram.
Nádia e Joana são das primeiras a chegar. As notícias não são boas para a
primeira. "Tinha de ter 4 [na escala de 1 a 5 valores] no exame de Português
para conseguir a positiva", lamenta. Teve 2. E não conseguiu passar do 1 a
Matemática. "Aquele exame era bué de estúpido, não achaste?", atira para a
amiga.
Joana, aluna de quatros, concorda: teve 2 valores no exame. "O que vale é que
não desci o meu 4 a Matemática, senão a minha mãe matava-me. Mas o exame era
difícil, os alunos de 5 ficaram pelo 3." A prova tem um peso de 25 por cento na
nota final do 9.ºano.
Nádia já estava à espera do chumbo, mas confessa que ainda teve algumas
esperanças, sobretudo a Língua Portuguesa. Para ela, os resultados dos exames
eram fundamentais. Confusa, olha para as pautas e com a ponta do dedo percorre a
linha do seu nome, onde está escrita a sentença: "Não aprovada".
A amiga conforta-a: "Chumbaram todos os que precisavam de ter 70 por cento nos
exames e não tiveram..." Nádia conforma-se. "Anda, vamos comprar os papéis das
matrículas."
De caderno A5 enrolado na mão, Diogo dirige-se à janela onde estão afixadas as
notas. Abre o caderno, faz alguns rabiscos e observa as classificações,
comparando-as com as de alguns colegas. "Era o que estava à espera", informa,
embora a nota do exame de Matemática o tenha surpreendido - teve 3, mas as
expectativas eram maiores, admite.
Cristiana define-se como uma "aluna razoável" e foi até à escola confirmar o que
já sabia: "Passei." A jovem de 15 anos aproveita para ver "quem não chumbou".
Confessa que ficou espantada com as notas de Matemática. A ela o exame também
correu mal, "pensava que ia ter 1 valor", mas conseguiu 2, o que lhe fez manter
a média positiva.
Para os alunos não é fácil identificar as notas dos exames, entre as
classificações de todas as outras disciplinas. "Onde é que está essa merda?! Não
dá para ver nada", queixa-se Vítor, 15 anos, que, embora tenha tido 2 no exame
de Matemática, manteve o 5 de classificação final.
À saída da escola, Tiago e Vítor voltam à conversa sobre as áreas da engenharia
por que podem optar quando concluírem o secundário. Só interrompem para censurar
as notas dos colegas no exame de Matemática. "Só uns e 2..." Bárbara Wong