Diário de Notícias - 13 Jul 05
O início de uma nova era
Nuno Crato
Pre. Soc. Port. Matemática
Os
exames do 9º ano, realizados depois de tantas controvérsias,
marcam o fim de uma época. Pela primeira vez em décadas, os
alunos não terminam o ensino obrigatório sem um exame nacional.
Esse facto é, só por si, positivo. Os resultados do exame,
contudo, são altamente preocupantes. Uma percentagem assustadora
de alunos não conseguiu um resultado mínimo numa prova que não
era particularmente difícil.
Não estamos espantados com os resultados, nem deveríamos estar
depois dos estudos TIMMS e PISA. Quem o deveria estar, mas
certamente não o reconhece, por pura cegueira ideológica, são os
teóricos da educação que durante anos andaram a negar a
evidência. E a evidência é que uma série de políticas
desastrosas conduziram o ensino português a uma crise profunda.
Os resultados dos exames mostram que eles se tornaram
imprescindíveis para alinhar a progressão dos alunos por
objectivos e níveis de exigência claramente definidos. A
discrepância entre as notas com que os alunos foram a exame e as
que neles obtiveram só reforça a necessidade de manter e
aperfeiçoar um sistema de avaliação externo às escolas.
Apenas um exame no final do ensino obrigatório parece demasiado
arriscado. É necessário um outro momento de avaliação, no fim do
primeiro ciclo, ou no fim do segundo. Seria bom que os alunos
desde cedo se habituassem à ideia de que há barreiras a
ultrapassar e que essas barreiras são ultrapassáveis com estudo
e esforço. Fazer exames, contudo, não basta. O essencial é que
se consiga melhorar o ensino e que muito mais jovens aprendam as
matérias essenciais, preparando-se para a vida. O problema só se
resolve com esforço em várias frentes formação de professores,
melhoria dos programas, avaliação e aperfeiçoamento dos manuais
escolares.
A formação e contratação inicial dos professores é um dos
problemas essenciais. Hoje, essa formação é muito assimétrica.
Há Escolas Superiores de Educação em que os futuros professores
apenas têm uma cadeira semestral de matemática e há escolas onde
têm seis. A agravar o problema, a entrada na carreira docente é
feita apenas com base na nota final de curso, o que coloca
pressão sobre as escolas para inflacionarem as notas. Um exame
de entrada na profissão resolveria grande parte do problema.
Outro aspecto essencial a corrigir é a indefinição sobre os
programas do Ensino Básico, criada pelo documento "Competências
Essenciais", de 2001, que pretendeu substituir os conteúdos por
competências gerais e abstractas. Os resultados estão à vista.