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A culpa
Pedro Strecht
Naqueles que têm uma evolução saudável, a culpa organiza-se precocemente na
vida infantil e assenta numa estrutura de autocensura regulatória que é fulcral
na relação, pois pressupõe que logo os mais novos comecem a interiorizar o
impacto dos seus actos nos outros Impávidos, assistimos ao
desfilar de pessoas e de situações em que a mínima capacidade de
culpa parece ausente dos seus pensamentos e actos. Falamos de
crianças e adolescentes que crescem num modelo psíquico em que a
culpa parece ausente ou muito rarefeita na relação com eles
próprios e, sobretudo, com quem ou com aquilo que os cerca. Mas
falamos ainda mais de muitos, muitos adultos que assim
funcionam, servindo de (mau) exemplo aos mais novos, que tudo
absorvem e constantemente se modelam segundo os padrões daqueles
que vão conhecendo ao longo do seu tempo de crescimento.
É a criança sem interiorização de uma noção de regras e limites
que, gratuitamente, agride a sua professora, e são cada vez mais
esses casos, conforme os números recentes demonstram, ao ritmo
de pelo menos um episódio em intervalo de poucos minutos. Ou a
outra que desafia e destrói, sem qualquer ideia do impacto dos
seus actos nos outros e da gravidade dos mesmos, sem qualquer
remorso aparente. Ou o adolescente com evolução marginal ou
delinquente que rouba e não repõe, isto é, não executa qualquer
esboço de reparação, excepto quando a isso é obrigado da pior
maneira, como quando tem que ser detido, seja em centro
educativo, seja em estabelecimento prisional (e os dados sobre a
expressão e o impacto deste tipo de criminalidade são
completamente expressivos: já nos esquecemos do "arrastão" da
praia de Carcavelos?). Ou, como outro exemplo, aquela rapariga
que engravida sem qualquer desejo ou planeamento, para de
seguida abandonar a sua criança ao azar da vida.
Mas é também o adulto que, ao não controlar o seu comportamento
agressivo ou omnipotente, causa acidentes graves de automóvel,
uma fortíssima causa de mortalidade e morbilidade na nossa
população. Ou o que agride física ou verbalmente a mulher diante
dos filhos e passa incólume sobre o impacto disso mesmo na vida
dos que supostamente ama, e veja-se do que fala quem trabalha
nessa área. Ou o que abusa sexualmente de uma criança e ainda a
acusa por disso ser culpada ou a persegue como mentirosa ou
perversa, como se tornou fácil de observar em tristes aspectos
da nossa realidade recente. Ou, por último, aquele que à margem
da gravidade dos seus crimes se apresenta de cara lavada e
sorriso nos dentes, como se nada tivesse acontecido, ou então,
como se tudo fosse obra das nossas próprias mentes, levando
muitos a questionarem-se, porque vítimas deste processo maciço e
repetido de projecções patológicas, se acaso são eles próprios
que estarão enganados ou se andarão a perceber mal tudo o que
acontece à sua volta. Como escreveu Eduardo Prado Coelho em
recente artigo, comentando factos que todos presenciamos
ultimamente, em que "assumem-se as razões mais explícitas numa
transparência que é o máximo do descaramento. Como se todos
fossem Michael Jackson", (e isto) "é um desaparecimento do
sentido da culpa. Eis uma mutação importante no domínio da
história das mentalidades".
A organização de um sentimento de culpa é algo muito específico
da espécie humana e caracteriza um dos seus aspectos mais
evoluídos, algo que emocionalmente corresponde a uma construção
mental de determinado nível de funcionamento mental. Naqueles
que têm uma evolução saudável, a culpa organiza-se precocemente
na vida infantil e assenta numa estrutura de autocensura
regulatória que é fulcral na relação, pois pressupõe que logo os
mais novos comecem a interiorizar o impacto dos seus actos nos
outros, quer através de uma identificação empática, quer por uma
capacidade de reparação desses mesmos actos. São exemplos
simples os casos dos mais pequenos que não querem pisar um
carreiro de formigas porque "Coitadinhas, são tão pequeninas...
Devem ir a caminho de casa, para irem ver os pais delas...", ou
o da criança que oferece algo a outra que sente que
anteriormente magoou.
Claro que um sentimento de culpa vivido de forma excessiva ou
desadequada está na origem de mal-estar ou mesmo de doença
emocional. Mas, nos casos de que falamos, nem de perto nem de
longe é isso que se passa. Antes pelo contrário, o que existe é
uma total ausência de culpa, logo uma enorme falha de capacidade
de preocupação em que o indivíduo normalmente sente e aceita um
sentido de responsabilidade. A criança ou o adolescente que
cresce assim será sempre alguém que não está bem e que espalha
essa problemática de uma forma especialmente marcante para os
outros, uma vez que o sofrimento ou a patologia nem se quer fica
confinado ao próprio: sem sentido de culpa, o problema nunca
será nosso. Será sempre de um outro, nas várias formas que o
pensamento ou a comunicação pode englobar: é alguém que não
gosta de nós, que nos quer mal, que nos persegue, ou então, a
existir, o problema é sempre daquele, foi ele que falhou, não
quis saber, não entendeu. Com o adulto, passa-se exactamente o
mesmo, com a agravante de a fixação e rigidez nestes modelos de
funcionamento ser muito mais intensa e intocável, ao contrário
da plasticidade e maleabilidade dos mais novos. Triste e
complexa forma de ser, pois para ela a capacidade de auxílio e
mudança é extremamente limitada, não sendo difícil transpor-se o
limite da impossibilidade de intervenção.
Hoje como nunca, na forma como nos organizamos nas sociedades
mais evoluídas, este padrão de ser e agir é cada vez mais visto
e sentido em muitos que conhecemos ou com os quais nos cruzamos
no dia-a-dia. O confronto com esta visão pode, primeiro, causar
perplexidade, estranheza. Depois, segue-se a confusão, o receio
e, sobretudo, a impotência. A seguir, soma-se o risco da
desilusão, da fuga, do desespero. Senão, vejamos: não aumenta o
número daqueles que não sente nenhum apelo para votar, ou os que
deixaram progressivamente de acreditar (seja em que for), os que
temem deixar sair à rua os filhos, os que se sentem ameaçados na
exposição da sua intimidade, os que ficam boquiabertos com
atitudes de outros, os que a pouco e pouco foram desligando os
canais de televisão, os que desejam fugir do país e procurar,
noutros lugares, outras realidades ou vivências?
Pois é. Crescer emocionalmente saudável não é tarefa fácil. E há
aspectos que, se cedo adquiridos, podem marcar a diferença para
o lado melhor. Só que para tal aconteça é preciso sentir que o
mundo não somos só nós, que tudo quanto fazemos tem repercussão
nos que temos por mais próximos e que vulgarmente amamos (ou
deveríamos amar) e que sobre o negativo dos nossos actos existe
ainda uma coisa que se chama remorso e, por último, capacidade
de reparação. Sem nenhuma noção de culpa, ninguém ama
verdadeiramente mais nada a não ser a si próprio e, mesmo aí,
não cessa de se destruir e de destruir o que mais importante
haveria em si e nos outros. Mas com ela nasce a possibilidade de
cuidar, de tentar fazer melhor, de respeitar e querer ajudar os
mais fracos, ou os esquecidos ou os diminuídos, porque a empatia
existe e, com ela, o respeito, a verdade, a vida, o amor.
Porque, como rematava Prado Coelho, "o estilo contagia". Não
podíamos estar mais de acordo. Pedopsiquiatra
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