Público - 15 Jul 05

 

A culpa
Pedro Strecht

Naqueles que têm uma evolução saudável, a culpa organiza-se precocemente na vida infantil e assenta numa estrutura de autocensura regulatória que é fulcral na relação, pois pressupõe que logo os mais novos comecem a interiorizar o impacto dos seus actos nos outros

Impávidos, assistimos ao desfilar de pessoas e de situações em que a mínima capacidade de culpa parece ausente dos seus pensamentos e actos. Falamos de crianças e adolescentes que crescem num modelo psíquico em que a culpa parece ausente ou muito rarefeita na relação com eles próprios e, sobretudo, com quem ou com aquilo que os cerca. Mas falamos ainda mais de muitos, muitos adultos que assim funcionam, servindo de (mau) exemplo aos mais novos, que tudo absorvem e constantemente se modelam segundo os padrões daqueles que vão conhecendo ao longo do seu tempo de crescimento.
É a criança sem interiorização de uma noção de regras e limites que, gratuitamente, agride a sua professora, e são cada vez mais esses casos, conforme os números recentes demonstram, ao ritmo de pelo menos um episódio em intervalo de poucos minutos. Ou a outra que desafia e destrói, sem qualquer ideia do impacto dos seus actos nos outros e da gravidade dos mesmos, sem qualquer remorso aparente. Ou o adolescente com evolução marginal ou delinquente que rouba e não repõe, isto é, não executa qualquer esboço de reparação, excepto quando a isso é obrigado da pior maneira, como quando tem que ser detido, seja em centro educativo, seja em estabelecimento prisional (e os dados sobre a expressão e o impacto deste tipo de criminalidade são completamente expressivos: já nos esquecemos do "arrastão" da praia de Carcavelos?). Ou, como outro exemplo, aquela rapariga que engravida sem qualquer desejo ou planeamento, para de seguida abandonar a sua criança ao azar da vida.
Mas é também o adulto que, ao não controlar o seu comportamento agressivo ou omnipotente, causa acidentes graves de automóvel, uma fortíssima causa de mortalidade e morbilidade na nossa população. Ou o que agride física ou verbalmente a mulher diante dos filhos e passa incólume sobre o impacto disso mesmo na vida dos que supostamente ama, e veja-se do que fala quem trabalha nessa área. Ou o que abusa sexualmente de uma criança e ainda a acusa por disso ser culpada ou a persegue como mentirosa ou perversa, como se tornou fácil de observar em tristes aspectos da nossa realidade recente. Ou, por último, aquele que à margem da gravidade dos seus crimes se apresenta de cara lavada e sorriso nos dentes, como se nada tivesse acontecido, ou então, como se tudo fosse obra das nossas próprias mentes, levando muitos a questionarem-se, porque vítimas deste processo maciço e repetido de projecções patológicas, se acaso são eles próprios que estarão enganados ou se andarão a perceber mal tudo o que acontece à sua volta. Como escreveu Eduardo Prado Coelho em recente artigo, comentando factos que todos presenciamos ultimamente, em que "assumem-se as razões mais explícitas numa transparência que é o máximo do descaramento. Como se todos fossem Michael Jackson", (e isto) "é um desaparecimento do sentido da culpa. Eis uma mutação importante no domínio da história das mentalidades".
A organização de um sentimento de culpa é algo muito específico da espécie humana e caracteriza um dos seus aspectos mais evoluídos, algo que emocionalmente corresponde a uma construção mental de determinado nível de funcionamento mental. Naqueles que têm uma evolução saudável, a culpa organiza-se precocemente na vida infantil e assenta numa estrutura de autocensura regulatória que é fulcral na relação, pois pressupõe que logo os mais novos comecem a interiorizar o impacto dos seus actos nos outros, quer através de uma identificação empática, quer por uma capacidade de reparação desses mesmos actos. São exemplos simples os casos dos mais pequenos que não querem pisar um carreiro de formigas porque "Coitadinhas, são tão pequeninas... Devem ir a caminho de casa, para irem ver os pais delas...", ou o da criança que oferece algo a outra que sente que anteriormente magoou.
Claro que um sentimento de culpa vivido de forma excessiva ou desadequada está na origem de mal-estar ou mesmo de doença emocional. Mas, nos casos de que falamos, nem de perto nem de longe é isso que se passa. Antes pelo contrário, o que existe é uma total ausência de culpa, logo uma enorme falha de capacidade de preocupação em que o indivíduo normalmente sente e aceita um sentido de responsabilidade. A criança ou o adolescente que cresce assim será sempre alguém que não está bem e que espalha essa problemática de uma forma especialmente marcante para os outros, uma vez que o sofrimento ou a patologia nem se quer fica confinado ao próprio: sem sentido de culpa, o problema nunca será nosso. Será sempre de um outro, nas várias formas que o pensamento ou a comunicação pode englobar: é alguém que não gosta de nós, que nos quer mal, que nos persegue, ou então, a existir, o problema é sempre daquele, foi ele que falhou, não quis saber, não entendeu. Com o adulto, passa-se exactamente o mesmo, com a agravante de a fixação e rigidez nestes modelos de funcionamento ser muito mais intensa e intocável, ao contrário da plasticidade e maleabilidade dos mais novos. Triste e complexa forma de ser, pois para ela a capacidade de auxílio e mudança é extremamente limitada, não sendo difícil transpor-se o limite da impossibilidade de intervenção.
Hoje como nunca, na forma como nos organizamos nas sociedades mais evoluídas, este padrão de ser e agir é cada vez mais visto e sentido em muitos que conhecemos ou com os quais nos cruzamos no dia-a-dia. O confronto com esta visão pode, primeiro, causar perplexidade, estranheza. Depois, segue-se a confusão, o receio e, sobretudo, a impotência. A seguir, soma-se o risco da desilusão, da fuga, do desespero. Senão, vejamos: não aumenta o número daqueles que não sente nenhum apelo para votar, ou os que deixaram progressivamente de acreditar (seja em que for), os que temem deixar sair à rua os filhos, os que se sentem ameaçados na exposição da sua intimidade, os que ficam boquiabertos com atitudes de outros, os que a pouco e pouco foram desligando os canais de televisão, os que desejam fugir do país e procurar, noutros lugares, outras realidades ou vivências?
Pois é. Crescer emocionalmente saudável não é tarefa fácil. E há aspectos que, se cedo adquiridos, podem marcar a diferença para o lado melhor. Só que para tal aconteça é preciso sentir que o mundo não somos só nós, que tudo quanto fazemos tem repercussão nos que temos por mais próximos e que vulgarmente amamos (ou deveríamos amar) e que sobre o negativo dos nossos actos existe ainda uma coisa que se chama remorso e, por último, capacidade de reparação. Sem nenhuma noção de culpa, ninguém ama verdadeiramente mais nada a não ser a si próprio e, mesmo aí, não cessa de se destruir e de destruir o que mais importante haveria em si e nos outros. Mas com ela nasce a possibilidade de cuidar, de tentar fazer melhor, de respeitar e querer ajudar os mais fracos, ou os esquecidos ou os diminuídos, porque a empatia existe e, com ela, o respeito, a verdade, a vida, o amor. Porque, como rematava Prado Coelho, "o estilo contagia". Não podíamos estar mais de acordo. Pedopsiquiatra

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