Difícil é pará-los!
Graça Franco
Cá em casa há umas palavrinhas mágicas que fazem a secção
dos "sub-10" desligar os comandos de game-boys e
play-stations e perfilar-se à porta, em passo de corrida.
Nenhum apelo do estilo: Vamos passear? Ao jardim? À praia?
Ao cinema? Comer um gelado? É tão mobilizador. Além disso, é
o único programa infantil que conquistou, por mérito
próprio, o Óscar do não arrependimento materno. Ou seja, o
único que consegue acabar sem que eu antes vocifere, contra
mim própria, mil vezes, renegando a minha tendência
pró-activa de estragar irremediavelmente todas as tardes de
sossego. Difícil é só convencer os participantes de que
chegou a hora de acabar. Haverá sempre "uma experiência" que
ainda fica para a próxima e serve de pretexto para o
regresso. Chama-se Pavilhão do Conhecimento. Faz hoje seis
anos de existência. Parabéns!
É um pequeno microcosmo de excelência de divulgação
científica, um sítio onde recuperamos a auto-estima nacional
e nos sentimos modernos e civilizados. Para mim funciona
como recordatória do conselho shakesperiano que o professor
Freitas divulgou recentemente na sua versão portuguesa
lapaliciano-política: "nunca digas nunca!". Andei eu a
bradar, anos a fio, contra o absurdo da Expo para me render
à sua megalomania cada vez que passo a porta daquele
pavilhão e me sento à mesa do gigante para saber o que
sente, todos os dias, à mesa do jantar, o meu filho de três
anos. Lembro aqui o pavilhão e deixo o meu arrependido
"obrigado" aos autores da ideia e aos que a levam
criativamente por diante. Isto porque estava ainda a gozar a
última visita quando li, no PÚBLICO de ontem, que só pelo
aluguer do espaço o Estado paga anualmente o absurdo de 2,5
milhões. Pior: parece que estará obrigado a pagar esse
aluguer por mais de duas décadas e só depois entrará na
posse do edifício (um daqueles que me alegram a vistam mas
Pulido Valente nota apenas pela "sua arquitectura
extravagante"!). Em tempo de vacas magrasm pode sempre
passar pela ideia de uma cabecinha pensadora fechar-lhe as
portas para poupar este dinheirão. É verdadeiro
esbanjamento? É um absurdo? Pode conseguir-se o mesmo muito
mais barato? Acredito que sim. Mas antes que lhe decretem a
morte antecipada sem cuidarem de encontrar alternativa para
lhe mudar o poiso e lhe preservar o interior, deixo aqui um
apelo: façam o favor de não começar por ali! Acreditem que
ainda há dinheiro bastante mais mal gasto. Comecem, por
exemplo, por controlar os desaforos despesistas da Galp e
companhia. Estes milhões, ao menos, servem para combater e
prevenir o insucesso escolar e isso é muito mais urgente e
prioritário do que qualquer infra-estrutura de transportes.
O trabalho está feito. Basta não desfazer!
Agora que estou de malas aviadas para ir viver os meus
próximos anos nos arredores do Porto, evito criteriosamente
qualquer comparação com o TGV. Não vá, daqui a uns anos,
desembarcar numa nova Campanhã, tão feliz por ter poupado
meia horinha no trajecto, que me veja capaz de dar graças
também pelo desvario despesista do eng. Sócrates. Never say...
Quem sabe ainda recupero do estado de choque em que me
colocaram as contas do prof. Luís Cabral na entrevista ao
Diga lá Excelência, publicada nesta edição. Os seus números
dizem-me que, só cá em casa, o contributo para o TGV vai ser
números redondos, de dez mil e quinhentos euros. É caso para
dizer, não se consegue uma ponte aérea mais baratinha? E
depois de pagar este balúrdio ainda terão a lata de nos
cobrar bilhetes?
Mas voltando ao pavilhão. Sábado passei lá mais uma tarde e,
como sempre, acabei a aprender um sem-número de coisas
divertidas. Fez-me lembrar as visitas pela mão do meu pai ao
velho LNEC para aprender a formação das marés e assistir à
simulação de sismos em pontes e edifícios. Desta vez, e logo
à entrada, estava uma banquinha com o cenário de uma vulgar
casa de banho. Por detrás, uma "cientista" espreitava pronta
a responder a todas as perguntas possíveis. Sem o ar enjoado
típico dos "monitores" dos espaços de pretensa animação
cultural. Aproveitava para colocar questões tão básicas
como: porque é que nos ensaboamos? Será que a água molha
sempre? Lembrem-se das gabardinas! Evita vergonhas! Um fio
de lã lançado à água afunda ou flutua? E um clip (deixe,
prudentemente, que seja apenas o pequeno a errar!). Haverá
forma de afogar um clip "flutuante" lançando uma simples
gota de detergente na sua improvisada piscina? Em três
tempos ficamos a saber tudo sobre a existência e
características da "tensão superficial da água" e seremos
capazes de perceber por que é que as bolas de sabão não são
cubos. Saberemos tudo sobre o papel do detergente na "fuga"
e na "captura" do azeite.
Chegados aqui, estão criadas as condições para passar à
explicação de papel e lápis. Os mais curiosos tê-la-ão de
forma absolutamente natural, mostrando-lhes que é mais fácil
entender uma ideia se lhe associarmos uma simples
representação gráfica. Já pensaram que a estrutura molecular
pode ser interessante? Já imaginaram moléculas com uma
cabecinha "hidrofílica" e uma cauda "hidrofóbica"? Não se
assustem com os palavrões, porque as nossas criancinhas
memorizam com uma facilidade espantosa 500 nomes diferentes
para outros tantos piões e congéneres e são capazes de os
distinguir conforme as propriedades ou formas associadas. E,
já agora, saberão o nome a dar àquele monte de espuma que
lhes vai arrastando a sujidade no banho? Será que a mistela
de sujidade e gordura é verdadeira "micela"?
Se vierem a Lisboa, passem por lá. Se não tem crianças,
peçam-nas emprestadas. Levem os netos, os filhos dos amigos,
dos vizinhos. Hoje é gratuito. Armem-se em "bons" para
disfarçar o desejo de regresso à infância e acabem, como eu,
a reconhecer que talvez a vossa vocação tivesse sido a de
seguir ciências se elas vos tivessem sido apresentadas de
forma divertida. Isto para não falar da fantástica Sala das
Matemáticas! Aprendam probabilidades com um jogo de dados,
divirtam-se a mudar de lugar uma série de círculos
empilhados. Falhem imenso, digam asneiras. Não desistam!
Se levarem crianças de idades diferentes preparem-se apenas
para um segundo desafio: o dom da ubiquidade é fundamental
durante todo o tempo de visita. Está o mais pequeno a dar
saltos na lua vencendo a gravidade, e já o seguinte reclama
que se contemple a sua experiência de faquir e o mais velho
exige felicitações porque todos os volumes couberam num
caixote de madeira gigante, premiando um esforço de boa
ordenação espacial.
Quando um iniciar a escalada do homem-aranha, outro vai
exigir-lhe que dê uma saltada à sala ao lado, para constatar
como um baixo-relevo ameaça, de repente, persegui-lo com o
olhar. Não acabou de ver a condução de um carro de rodas
quadradas e já quererão outros testar os dotes de cineastas.
Vai ver que, por magia, a mola que está ao alcance da sua
mão desaparece quando tentar agarrá-la. Ajude a lançar o
balão de ar quente. Haverá um sem- número de outras
experiências numa correria desenfreada.
Confesso mesmo que gostava de dar um saltinho ao centro de
ciência de Helsínquia (que penso ser o modelo inspirador do
pavilhão), não para fazer o confronto dos equipamentos (por
cá serão iguais ou superiores!), mas para avaliar o
comportamento das crianças indígenas na sua relação com os
vários aparelhos. Por cá são muito raros os que conseguem
levar um desafio até ao fim.
Durante toda a tarde foram pouquíssimas as crianças que vi
aplicadas à solução dos respectivos problemas. A maior parte
nem sequer conseguia esperar pela leitura que os pais
tentavam fazer dos pequenos placards explicativos de cada
experiência. Marçal Grilo bem nos avisava: difícil é
sentá-los! Eu acrescento, mesmo de pé, difícil é conseguir
tê-los uns segundinhos parados!