Público - 25 Jul 05

 

Difícil é pará-los!

Graça Franco

 

Cá em casa há umas palavrinhas mágicas que fazem a secção dos "sub-10" desligar os comandos de game-boys e play-stations e perfilar-se à porta, em passo de corrida. Nenhum apelo do estilo: Vamos passear? Ao jardim? À praia? Ao cinema? Comer um gelado? É tão mobilizador. Além disso, é o único programa infantil que conquistou, por mérito próprio, o Óscar do não arrependimento materno. Ou seja, o único que consegue acabar sem que eu antes vocifere, contra mim própria, mil vezes, renegando a minha tendência pró-activa de estragar irremediavelmente todas as tardes de sossego. Difícil é só convencer os participantes de que chegou a hora de acabar. Haverá sempre "uma experiência" que ainda fica para a próxima e serve de pretexto para o regresso. Chama-se Pavilhão do Conhecimento. Faz hoje seis anos de existência. Parabéns!
É um pequeno microcosmo de excelência de divulgação científica, um sítio onde recuperamos a auto-estima nacional e nos sentimos modernos e civilizados. Para mim funciona como recordatória do conselho shakesperiano que o professor Freitas divulgou recentemente na sua versão portuguesa lapaliciano-política: "nunca digas nunca!". Andei eu a bradar, anos a fio, contra o absurdo da Expo para me render à sua megalomania cada vez que passo a porta daquele pavilhão e me sento à mesa do gigante para saber o que sente, todos os dias, à mesa do jantar, o meu filho de três anos. Lembro aqui o pavilhão e deixo o meu arrependido "obrigado" aos autores da ideia e aos que a levam criativamente por diante. Isto porque estava ainda a gozar a última visita quando li, no PÚBLICO de ontem, que só pelo aluguer do espaço o Estado paga anualmente o absurdo de 2,5 milhões. Pior: parece que estará obrigado a pagar esse aluguer por mais de duas décadas e só depois entrará na posse do edifício (um daqueles que me alegram a vistam mas Pulido Valente nota apenas pela "sua arquitectura extravagante"!). Em tempo de vacas magrasm pode sempre passar pela ideia de uma cabecinha pensadora fechar-lhe as portas para poupar este dinheirão. É verdadeiro esbanjamento? É um absurdo? Pode conseguir-se o mesmo muito mais barato? Acredito que sim. Mas antes que lhe decretem a morte antecipada sem cuidarem de encontrar alternativa para lhe mudar o poiso e lhe preservar o interior, deixo aqui um apelo: façam o favor de não começar por ali! Acreditem que ainda há dinheiro bastante mais mal gasto. Comecem, por exemplo, por controlar os desaforos despesistas da Galp e companhia. Estes milhões, ao menos, servem para combater e prevenir o insucesso escolar e isso é muito mais urgente e prioritário do que qualquer infra-estrutura de transportes. O trabalho está feito. Basta não desfazer!
Agora que estou de malas aviadas para ir viver os meus próximos anos nos arredores do Porto, evito criteriosamente qualquer comparação com o TGV. Não vá, daqui a uns anos, desembarcar numa nova Campanhã, tão feliz por ter poupado meia horinha no trajecto, que me veja capaz de dar graças também pelo desvario despesista do eng. Sócrates. Never say... Quem sabe ainda recupero do estado de choque em que me colocaram as contas do prof. Luís Cabral na entrevista ao Diga lá Excelência, publicada nesta edição. Os seus números dizem-me que, só cá em casa, o contributo para o TGV vai ser números redondos, de dez mil e quinhentos euros. É caso para dizer, não se consegue uma ponte aérea mais baratinha? E depois de pagar este balúrdio ainda terão a lata de nos cobrar bilhetes?
Mas voltando ao pavilhão. Sábado passei lá mais uma tarde e, como sempre, acabei a aprender um sem-número de coisas divertidas. Fez-me lembrar as visitas pela mão do meu pai ao velho LNEC para aprender a formação das marés e assistir à simulação de sismos em pontes e edifícios. Desta vez, e logo à entrada, estava uma banquinha com o cenário de uma vulgar casa de banho. Por detrás, uma "cientista" espreitava pronta a responder a todas as perguntas possíveis. Sem o ar enjoado típico dos "monitores" dos espaços de pretensa animação cultural. Aproveitava para colocar questões tão básicas como: porque é que nos ensaboamos? Será que a água molha sempre? Lembrem-se das gabardinas! Evita vergonhas! Um fio de lã lançado à água afunda ou flutua? E um clip (deixe, prudentemente, que seja apenas o pequeno a errar!). Haverá forma de afogar um clip "flutuante" lançando uma simples gota de detergente na sua improvisada piscina? Em três tempos ficamos a saber tudo sobre a existência e características da "tensão superficial da água" e seremos capazes de perceber por que é que as bolas de sabão não são cubos. Saberemos tudo sobre o papel do detergente na "fuga" e na "captura" do azeite.
Chegados aqui, estão criadas as condições para passar à explicação de papel e lápis. Os mais curiosos tê-la-ão de forma absolutamente natural, mostrando-lhes que é mais fácil entender uma ideia se lhe associarmos uma simples representação gráfica. Já pensaram que a estrutura molecular pode ser interessante? Já imaginaram moléculas com uma cabecinha "hidrofílica" e uma cauda "hidrofóbica"? Não se assustem com os palavrões, porque as nossas criancinhas memorizam com uma facilidade espantosa 500 nomes diferentes para outros tantos piões e congéneres e são capazes de os distinguir conforme as propriedades ou formas associadas. E, já agora, saberão o nome a dar àquele monte de espuma que lhes vai arrastando a sujidade no banho? Será que a mistela de sujidade e gordura é verdadeira "micela"?
Se vierem a Lisboa, passem por lá. Se não tem crianças, peçam-nas emprestadas. Levem os netos, os filhos dos amigos, dos vizinhos. Hoje é gratuito. Armem-se em "bons" para disfarçar o desejo de regresso à infância e acabem, como eu, a reconhecer que talvez a vossa vocação tivesse sido a de seguir ciências se elas vos tivessem sido apresentadas de forma divertida. Isto para não falar da fantástica Sala das Matemáticas! Aprendam probabilidades com um jogo de dados, divirtam-se a mudar de lugar uma série de círculos empilhados. Falhem imenso, digam asneiras. Não desistam!
Se levarem crianças de idades diferentes preparem-se apenas para um segundo desafio: o dom da ubiquidade é fundamental durante todo o tempo de visita. Está o mais pequeno a dar saltos na lua vencendo a gravidade, e já o seguinte reclama que se contemple a sua experiência de faquir e o mais velho exige felicitações porque todos os volumes couberam num caixote de madeira gigante, premiando um esforço de boa ordenação espacial.
Quando um iniciar a escalada do homem-aranha, outro vai exigir-lhe que dê uma saltada à sala ao lado, para constatar como um baixo-relevo ameaça, de repente, persegui-lo com o olhar. Não acabou de ver a condução de um carro de rodas quadradas e já quererão outros testar os dotes de cineastas. Vai ver que, por magia, a mola que está ao alcance da sua mão desaparece quando tentar agarrá-la. Ajude a lançar o balão de ar quente. Haverá um sem- número de outras experiências numa correria desenfreada.
Confesso mesmo que gostava de dar um saltinho ao centro de ciência de Helsínquia (que penso ser o modelo inspirador do pavilhão), não para fazer o confronto dos equipamentos (por cá serão iguais ou superiores!), mas para avaliar o comportamento das crianças indígenas na sua relação com os vários aparelhos. Por cá são muito raros os que conseguem levar um desafio até ao fim.
Durante toda a tarde foram pouquíssimas as crianças que vi aplicadas à solução dos respectivos problemas. A maior parte nem sequer conseguia esperar pela leitura que os pais tentavam fazer dos pequenos placards explicativos de cada experiência. Marçal Grilo bem nos avisava: difícil é sentá-los! Eu acrescento, mesmo de pé, difícil é conseguir tê-los uns segundinhos parados!

 

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