Público - 26 Jul 05

 

O lugar dos avós

Pedro Strecht

Dos avós tem-se hoje em dia uma ideia de maior presença e interacção na vida dos mais novos. Para muitos adultos, esse momento é mesmo atingido, nem que seja pela primeira vez, entre os 55 e os 65 anos, ou seja, numa fase de vida ainda profissionalmente activa

Celebrou-se a 26 de Julho, mais um Dia Mundial dos Avós, data que merece cada vez mais uma importante reflexão, não fosse o papel dos avós algo de muito significativo para as crianças e adolescentes dos nossos dias, embora essa relevância seja muitas vezes esquecida ou mesmo pouco valorizada.
A forma como as civilizações ocidentais evoluíram, ao longo dos últimos anos, trouxe modificações significativas nas estruturas familiares e nas suas dinâmicas relacionais, de que se podem destacar, entre outras, as seguintes:
- uma muito maior dificuldade dos pais em gerir o seu tempo, isto é, em terem tempo de presença significativo para estarem activamente presentes na vida dos filhos;
- uma igual complexidade da gestão de um espaço físico que permita ou favoreça a relação, como as distâncias a vencer nas grandes cidades são um grande sinal (raros são os que moram perto de alguém que conheçam ou com quem fomentem laços de real amizade, quanto mais os que conseguem viver perto dos seus familiares);
- a hercúlea tarefa de muitas mães e mulheres em conciliarem a sua actividade profissional (são raras as que hoje em dia não trabalham ou que ficam exclusivamente em casa a cuidar de filhos) com a maternal, sendo que a muitas lhes é exigido uma ginástica mental verdadeiramente impressionante;
- a crescente taxa de separações e divórcios, com o aumento significativo da construção de novas relações posteriores, quer de pais, quer de mães, a que não são alheios o nascimento de novos filhos de cada uma das partes do anterior casal;
- o desejo de cada vez mais se desejar o melhor para os filhos, investindo neles (também em cada vez menor número) de uma forma quase que por vezes semelhante a um investimento económico (de que é bom exemplo a projecção de expectativas de sucesso, ligadas às prestações escolares);
- a atitude muito paradoxal entre o acesso a uma informação cada vez mais detalhada sobre o que, teoricamente, se pode ou deve fazer para se oferecer o melhor para os mais novos e a perda de uma capacidade intuitiva para simplesmente estar e agir conforme o que cada um interiorizou em modelos de relação anteriores.
Todas estas mudanças não são boas nem más a priori; são simplesmente o que temos e sobre isso nem sequer interessa tomar posição sobre se "dantes é que era bom", ou "ainda há muito para construir no futuro". Claro que as sociedades mudam, e sobre isso, sim, é que acrescentaríamos o adjectivo de "felizmente" (porque mudança também quer dizer vida e crescimento), logo, os contextos em que crescem as nossas crianças e adolescentes, também.
Mas, por outro lado, da parte dos avós, a realidade actual também mudou imenso. Dos avós tem-se hoje em dia uma ideia de maior presença e interacção na vida dos mais novos. Para muitos adultos, esse momento é mesmo atingido, nem que seja pela primeira vez, entre os 55 e os 65 anos, ou seja, numa fase de vida ainda profissionalmente activa. Muitos avós de agora não são mais pessoas de muita idade, frágeis ou desfasados de algumas realidades dos seus netos. Não. Muitos são pessoas que ainda trabalham, incluindo as avós, alguns também já se separaram e sobretudo, são homens e mulheres cada vez mais solicitados para ajudar os seus filhos pais na tarefa de educar os seus netos. Essa é uma mudança radical e muito significativa dos últimos anos. Seja por qualquer uma das razões acima apontadas, a sua presença efectiva é um pilar para muitas famílias, independentemente do meio sociocultural de onde provenham.
Aliás, para muitas crianças e adolescentes que tiveram evoluções negativas, marcados pelo abandono ou negligência parental (de que são exemplo as milhares de crianças institucionalizadas e outras que, não o sendo, são de risco do ponto de vista psicossocial, como todos os "órfãos de pais vivos" que tantos conhecem de histórias do dia-a-dia), os avós são não só quem ficou como o único suporte viável para a sustentabilidade daquele rapaz ou rapariga, o último laço familiar a que tantas vezes se agarram como quem não deseja largar aquela bóia ou ilha para a vida psíquica. E aí, novamente, falamos de avós sozinhos, amargurados pelos filhos com os quais não puderam ou não conseguiram fazer melhor, que agora pagam uma espécie de factura com a geração mais nova, para a qual acabam por transferir toda uma gama de sentimentos e pensamentos, desde os que vão das tentativas de reparação (movidas pela culpa) do tipo "farei por este neto o que não fiz pelo filho", aos projectivos de partes negativas como "esta vai-se desgraçar como a sua mãe..."
Para outros netos, os avós são os que vão buscar ao jardim-de-infância ou à escola, os que muitas vezes a pagam, ou que os transportam para a panóplia de actividades que tantas vezes enchem as suas pequenas vidas (desde as explicações, à música, ao desporto...), os que oferecem a casa para os receber nos longos finais de tarde enquanto os pais não chegam dos seus infindáveis horários de trabalho (ou enquanto se deslocam, engarrafados nas filas de transportes), os que se disponibilizam para cuidar deles, quando os pais precisam dos seus pequenos refúgios, como uma ida ao cinema ou um jantar fora, ou ainda os que funcionam como pilar de segurança quando as famílias de base dão tantas voltas e reviravoltas que tudo fica demasiado confuso ou sem referências para ser possível de viver com o mínimo de sanidade mental.
Por isso, um Dia dos Avós vem sempre a propósito, como forma de reflexão para esse grande sustento emocional e afectivo da vida dos mais novos. Acresce que, à partida, os avós ganharam substancial experiência de vida, o que, em muitos casos, claro está, lhes permite ter mais sabedoria e estar mais seguros em questões da educação dos netos, isto porque a tarefa da parentalidade também é algo que se aprende e a que o passar do tempo pode trazer mais confiança. Do lado dos netos, também o respeito e a diferença da distância emocional comparativamente aos pais pode ser muito rica para o seu crescimento psíquico.
Mas a reflexão mais importante a fazer é a da necessidade de uma melhor comunicação entre os mais velhos e os mais novos. Hoje, uma das maiores necessidades de quem é pai ou mãe é o desejo de perceber ou saber coisas para agir de uma forma adequada junto dos seus filhos, e há muito do que se pode chamar elementar bom senso que jamais virá nos livros. Mais: diz respeito a um conhecimento que só se atinge através daquilo que a vida nos ensina e o tempo ajuda a formar.
Como muitos pais e netos, também gozei de uma forte presença emocional de avôs e avós. Hoje, que já não falo com eles, sei como estão bem presentes num diálogo que aparece e prossegue vida fora, muitas vezes quando menos se espera. Pedopsiquiatra

 

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