O lugar dos avós
Pedro Strecht
Dos avós tem-se hoje em dia uma ideia de maior presença e
interacção na vida dos mais novos. Para muitos adultos, esse
momento é mesmo atingido, nem que seja pela primeira vez,
entre os 55 e os 65 anos, ou seja, numa fase de vida ainda
profissionalmente activa
Celebrou-se a 26 de Julho, mais um Dia
Mundial dos Avós, data que merece cada vez mais uma
importante reflexão, não fosse o papel dos avós algo de
muito significativo para as crianças e adolescentes dos
nossos dias, embora essa relevância seja muitas vezes
esquecida ou mesmo pouco valorizada.
A forma como as civilizações ocidentais evoluíram, ao longo
dos últimos anos, trouxe modificações significativas nas
estruturas familiares e nas suas dinâmicas relacionais, de
que se podem destacar, entre outras, as seguintes:
- uma muito maior dificuldade dos pais em gerir o seu tempo,
isto é, em terem tempo de presença significativo para
estarem activamente presentes na vida dos filhos;
- uma igual complexidade da gestão de um espaço físico que
permita ou favoreça a relação, como as distâncias a vencer
nas grandes cidades são um grande sinal (raros são os que
moram perto de alguém que conheçam ou com quem fomentem
laços de real amizade, quanto mais os que conseguem viver
perto dos seus familiares);
- a hercúlea tarefa de muitas mães e mulheres em conciliarem
a sua actividade profissional (são raras as que hoje em dia
não trabalham ou que ficam exclusivamente em casa a cuidar
de filhos) com a maternal, sendo que a muitas lhes é exigido
uma ginástica mental verdadeiramente impressionante;
- a crescente taxa de separações e divórcios, com o aumento
significativo da construção de novas relações posteriores,
quer de pais, quer de mães, a que não são alheios o
nascimento de novos filhos de cada uma das partes do
anterior casal;
- o desejo de cada vez mais se desejar o melhor para os
filhos, investindo neles (também em cada vez menor número)
de uma forma quase que por vezes semelhante a um
investimento económico (de que é bom exemplo a projecção de
expectativas de sucesso, ligadas às prestações escolares);
- a atitude muito paradoxal entre o acesso a uma informação
cada vez mais detalhada sobre o que, teoricamente, se pode
ou deve fazer para se oferecer o melhor para os mais novos e
a perda de uma capacidade intuitiva para simplesmente estar
e agir conforme o que cada um interiorizou em modelos de
relação anteriores.
Todas estas mudanças não são boas nem más a priori; são
simplesmente o que temos e sobre isso nem sequer interessa
tomar posição sobre se "dantes é que era bom", ou "ainda há
muito para construir no futuro". Claro que as sociedades
mudam, e sobre isso, sim, é que acrescentaríamos o adjectivo
de "felizmente" (porque mudança também quer dizer vida e
crescimento), logo, os contextos em que crescem as nossas
crianças e adolescentes, também.
Mas, por outro lado, da parte dos avós, a realidade actual
também mudou imenso. Dos avós tem-se hoje em dia uma ideia
de maior presença e interacção na vida dos mais novos. Para
muitos adultos, esse momento é mesmo atingido, nem que seja
pela primeira vez, entre os 55 e os 65 anos, ou seja, numa
fase de vida ainda profissionalmente activa. Muitos avós de
agora não são mais pessoas de muita idade, frágeis ou
desfasados de algumas realidades dos seus netos. Não. Muitos
são pessoas que ainda trabalham, incluindo as avós, alguns
também já se separaram e sobretudo, são homens e mulheres
cada vez mais solicitados para ajudar os seus filhos pais na
tarefa de educar os seus netos. Essa é uma mudança radical e
muito significativa dos últimos anos. Seja por qualquer uma
das razões acima apontadas, a sua presença efectiva é um
pilar para muitas famílias, independentemente do meio
sociocultural de onde provenham.
Aliás, para muitas crianças e adolescentes que tiveram
evoluções negativas, marcados pelo abandono ou negligência
parental (de que são exemplo as milhares de crianças
institucionalizadas e outras que, não o sendo, são de risco
do ponto de vista psicossocial, como todos os "órfãos de
pais vivos" que tantos conhecem de histórias do dia-a-dia),
os avós são não só quem ficou como o único suporte viável
para a sustentabilidade daquele rapaz ou rapariga, o último
laço familiar a que tantas vezes se agarram como quem não
deseja largar aquela bóia ou ilha para a vida psíquica. E
aí, novamente, falamos de avós sozinhos, amargurados pelos
filhos com os quais não puderam ou não conseguiram fazer
melhor, que agora pagam uma espécie de factura com a geração
mais nova, para a qual acabam por transferir toda uma gama
de sentimentos e pensamentos, desde os que vão das
tentativas de reparação (movidas pela culpa) do tipo "farei
por este neto o que não fiz pelo filho", aos projectivos de
partes negativas como "esta vai-se desgraçar como a sua
mãe..."
Para outros netos, os avós são os que vão buscar ao
jardim-de-infância ou à escola, os que muitas vezes a pagam,
ou que os transportam para a panóplia de actividades que
tantas vezes enchem as suas pequenas vidas (desde as
explicações, à música, ao desporto...), os que oferecem a
casa para os receber nos longos finais de tarde enquanto os
pais não chegam dos seus infindáveis horários de trabalho
(ou enquanto se deslocam, engarrafados nas filas de
transportes), os que se disponibilizam para cuidar deles,
quando os pais precisam dos seus pequenos refúgios, como uma
ida ao cinema ou um jantar fora, ou ainda os que funcionam
como pilar de segurança quando as famílias de base dão
tantas voltas e reviravoltas que tudo fica demasiado confuso
ou sem referências para ser possível de viver com o mínimo
de sanidade mental.
Por isso, um Dia dos Avós vem sempre a propósito, como forma
de reflexão para esse grande sustento emocional e afectivo
da vida dos mais novos. Acresce que, à partida, os avós
ganharam substancial experiência de vida, o que, em muitos
casos, claro está, lhes permite ter mais sabedoria e estar
mais seguros em questões da educação dos netos, isto porque
a tarefa da parentalidade também é algo que se aprende e a
que o passar do tempo pode trazer mais confiança. Do lado
dos netos, também o respeito e a diferença da distância
emocional comparativamente aos pais pode ser muito rica para
o seu crescimento psíquico.
Mas a reflexão mais importante a fazer é a da necessidade de
uma melhor comunicação entre os mais velhos e os mais novos.
Hoje, uma das maiores necessidades de quem é pai ou mãe é o
desejo de perceber ou saber coisas para agir de uma forma
adequada junto dos seus filhos, e há muito do que se pode
chamar elementar bom senso que jamais virá nos livros. Mais:
diz respeito a um conhecimento que só se atinge através
daquilo que a vida nos ensina e o tempo ajuda a formar.
Como muitos pais e netos, também gozei de uma forte presença
emocional de avôs e avós. Hoje, que já não falo com eles,
sei como estão bem presentes num diálogo que aparece e
prossegue vida fora, muitas vezes quando menos se espera.
Pedopsiquiatra