Diário de Notícias -
12 Jul 07
Já tentou hoje?
Pedro Lomba
Ontem, Dia Mundial da População, ouvimos outra
campainha de alarme. Não há dia mundial de coisa
nenhuma que não termine com uma nota apocalíptica.
Mas, desta vez, o pessimismo é justificado. Os
números do Instituto Nacional de Estatística mostram
que os portugueses continuam a envelhecer. Aumentou
a população com mais de 80 anos. E decresceu a
população abaixo dos 30: menos 15% de jovens desde
1987. O nosso maior problema, como noutros pontos da
Europa, é a redução da natalidade. Em 2006, nasceram
menos 4100 crianças que no ano anterior. Somos um
dos países mais envelhecidos do mundo. Temos falta
de imensa coisa: recursos, mercado, massa crítica.
Percebemos agora que também temos falta de filhos.
Estamos em vias de extinção.
E porque é que nos faltam filhos? Antes de
prosseguir, mais alguns números. Diz o INE que, em
média, entre 1987 e 2006 as mulheres atrasaram três
anos a chegada do primeiro filho. A idade média para
começar a ter filhos era até há pouco tempo 26,8
anos. Em 2006, subiu para 29,9 anos. Isto significa
que os casais portugueses secundarizam completamente
a maternidade face a outras escolhas de vida. A cada
um os seus caminhos. Há uma mudança cultural em
curso: ter filhos tornou-se trabalho para trintões.
E toda a gente se fica por um ou dois rebentos.
Evitamos exageros. Quem não preserva histórias
heróicas de avós que tiveram os seus 14 filhos e
sobreviveram? Parece, no entanto, que sobreviveram
mal. E fica a pergunta: os portugueses não têm
filhos porquê?
O primeiro problema de uma pessoa aos 25 anos é
conseguir um mínimo de autonomia financeira que lhe
permita pagar os seus próprios prazeres e consumos.
As famílias garantem, pelo menos, protecção. Neste
país conservamos ao máximo o nosso estatuto de
infantilidade. Fazemos tudo mais tarde. Saímos de
casa tarde. Começamos a trabalhar tarde. E,
naturalmente, habituamo-nos tarde à disciplina e ao
crescimento que o trabalho exige. O trabalho apenas
nos dá uma ilusão de estabilidade. Com salários
baixos, carreiras rígidas, mérito mal recompensado e
nenhuma cultura de mobilidade, o português pensa que
a vida não é será diferente no próximo ano do que
foi neste. E vai adiando. Os filhos ficam para o
fim.
Já é difícil fazer reformas em Portugal. Os grandes
ignoram os pequenos. Os instalados perpetuam-se. As
elites reproduzem-se com outras elites. Os que estão
dentro tapam o caminho aos que estão fora. Mas a
nossa grave crise de natalidade ameaça dificultar
ainda mais a renovação do País. Tudo seria bem
melhor se os portugueses percebessem o que têm de
fazer em cada dia. Levantar cedo, pôr os filhos na
escola, trabalhar, encher o bucho, trabalhar outra
vez, regressar a casa a 60 km/hora, buscar os
filhos, ver televisão, dormir. No dia seguinte
repetir a dose.