Diário de Notícias -
16 Jul 07
Último
japonês morre em 2800, último português não se sabe
Leonídio Paulo Ferreira
As portuguesas têm em média 1,36 filhos, mínimo
histórico. As japonesas 1,32. Para o país asiático,
as contas estão feitas: o último habitante morrerá
em 2800, calculou o Yomiuri, jornal para levar muito
a sério, com 130 anos de história e dez milhões de
exemplares cada manhã. Para Portugal, falta um
demógrafo fazer o exercício, mas o resultado só pode
ser igualmente assustador: um dia não haverá
ninguém.
Não vale a pena entrar já em pânico. Tal como os
japoneses, ainda temos séculos para inverter a
tendência. E se a primeira solução é óbvia (pelo
menos dois filhos por mulher), a segunda passa pela
importação de gente. De imigrantes. É o que está a
ser feito por todo o mundo rico, com diferentes
níveis de imaginação. O Japão, por exemplo, tenta
atrair os nissei, brasileiros de origem nipónica.
Portugal recebeu africanos, depois brasileiros e
ucranianos. A Alemanha em tempos foi buscar turcos.
A Grã-Bretanha, sobretudo indianos e paquistaneses.
E a França, que se destaca pela tradição de
acolhimento (até tem um presidente de apelido
húngaro), virou-se para as antigas colónias árabes,
esgotado que está o filão português, espanhol e
italiano.
Há lições a aprender com a experiência da França.
Está por fim a inverter-se o declínio demográfico,
pois cada mulher tem já em média mais de 2,1 filhos.
Resultado admirável, pois na UE só três países
atingem o patamar que renova as gerações. A este
ritmo, arrisca-se em 2050 a ultrapassar uma Alemanha
a minguar e a ter o povo mais numeroso da Europa
ocidental - como acontecia até aos tempos de
Napoleão. E é graças à fertilidade das comunidades
imigrantes que cresce. Por isso, cada vez mais
franceses respondem por nomes como Sarkozy, Zidane
ou Garcia (é o 13.º apelido mais comum, agradeçam a
espanhóis e portugueses).
Tal como os franceses, o caminho mais seguro para os
portugueses se salvarem da extinção (e, mais
urgente, garantirem descontos para a Segurança
Social) é somarem as soluções: mais filhos, sim, mas
também imigrantes. Só que integrar pessoas de
cultura diferente desafia qualquer país. Uma parte
da opinião pública sente-se incomodada. E os
discursos xenófobos tendem a aparecer, mesmo que
envergonhados. Mas para lidar com o inevitável
existem já dois modelos: a assimilação à francesa e
o multiculturalismo britânico. Basta escolher. Ou
então inventar um terceiro, com a experiência de 500
anos de mistura de sangues no Brasil, África e
Índia.
Quem achar que os imigrantes não são solução pode
sempre imitar uma boa ideia recente do espanhol
Zapatero e acreditar que basta oferecer 2500 euros
por criança para que as mulheres dupliquem de um dia
para o outro o número de filhos. Mas, se fosse só
uma questão de dinheiro, o Japão nunca teria de se
preocupar com 2800.