Público -
18 Jul 07
Médicos consideram "insultuosa" declaração de
objecção de consciência
Catarina Gomes
"Tenho conhecimento da minha obrigação de prestar
assistência às mulheres cuja saúde esteja em risco,
em situações decorrentes da in terrupção da
gravidez"; "Tenho conhecimento da minha obrigação de
encaminhar as grávidas que solicitem a interrupção
da gravidez para os serviços competentes, dentro dos
prazos legais." Estas são duas das frases da
discórdia. Há vários médicos que contestam a forma
como está escrita a declaração de objecção de
consciência que têm que assinar para não fazerem
abortos.
A obstetra Mariana Guimarães foi a primeira
subscritora de uma petição de 24 médicos do Hospital
de São João, no Porto, que contesta a forma como
está redigida a declaração, cujo modelo consta de
uma portaria do Ministério da Saúde de 21 de Junho.
Só quatro dos cerca de 50 ginecologistas do hospital
nortenho aceitaram fazer interrupção voluntária da
gravidez (IVG).
Os médicos objectores que contestam a formulação do
documento aceitaram assinar uma primeira declaração
de objecção genérica, mas recusaram-se a assinar uma
segunda mais específica e já nos termos previstos na
portaria, esclarece Mariana Guimarães. A questão foi
mesmo enviada para a comissão de ética do hospital
para pedido de parecer.
Mariana Guimarães afirma que assinar a declaração
prevista na portaria "iria contra a liberdade do
exercício da própria objecção". Refere-se à
obrigatoriedade de o médico objector ter que
encaminhar "as grávidas que solicitem a interrupção
da gravidez para os serviços competentes".
Quando à obrigatoriedade da prestação de socorro à
mulher que fez IVG, considera a formulação "ofensiva
para a dignidade da classe médica". Essa obrigação
está no juramento de Hipócrates.
O médico Gentil Martins, ex-presidente da Associação
Médica Mundial e da sua comissão de ética, condenava
ontem no PÚBLICO o facto de a lei "proibir os
médicos de fazerem consulta prévia, e o
acompanhamento durante o período de reflexão" e, por
outro, pretender "de forma contraditória,
injustificada e ilegal, obrigá-los a indicar quem
pratique o aborto". Gentil Martins defende que o
Governo altere a portaria que define os termos em
que deve ficar escrita a objecção de consciência,
"por considerar suficiente uma simples declaração,
sob compromisso de honra, dos médicos objectores de
consciência".
Foi esse o entendimento dos médicos do Hospital de
São Francisco de Xavier, em Lisboa, uma das unidades
onde todos os clínicos (cerca de 20) se declararam
objectores de consciência. Ginecologista na unidade,
Vítor Neto explica que os médicos não assinaram a
declaração nos termos previstos na portaria,
arranjaram uma redacção alternativa consensual entre
os clínicos. Nela se diz genericamente que são
objectores em relação "aos abortos a pedido".
Vítor Neto contesta o atestado de incompetência que
é passado aos médicos, quando são proibidos de fazer
consultas prévias. "Como médico especialista eu é
que, em consciência, sei se estou habilitado."
O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes,
considera a declaração "um insulto" e diz que já
vários médicos lhe ligaram a manifestar este
sentimento. Dizer ao médico que tem que prestar
cuidados médicos a uma mulher que fez IVG em
situação de urgência "é cretino".
"Há fundamentalistas em todas as profissões, mas
mesmo nos tempos em que o aborto tinha consequências
terríveis sempre foram prestados cuidados." Pedro
Nunes critica também a proibição de os médicos
participarem na consulta prévia. Na sua opinião, "os
médicos estão habituados a não serem tutores mentais
das pessoas". Defende que "qualquer médico [objector]
pode participar na consulta prévia, da mesma forma
que qualquer médico que não é objector pode
participar num programa de promoção da natalidade".