Público -
23 Jul 07
"Há um nítido apoio ao aborto a pedido"
Catarina Gomes
Mulheres que querem fazer um aborto têm que ser
atendidas em cinco dias, quando uma consulta de
ginecologia pode demorar meses
O Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, foi uma
das unidades onde a objecção de consciência foi a
100 por cento. O obstetra Vítor Neto é um dos cerca
de 20 médicos da unidade que se recusam a fazer
abortos até às dez semanas por opção da mulher.
Juntamente com um grupo de clínicos do Hospital de
São João, no Porto, escusaram-se também a assinar a
declaração de objecção de consciência fornecida por
uma portaria do Ministério da Saúde. Nela vem
escrito que os objectores tomam conhecimento: de que
estão proibidos de dar consultas prévias de
interrupção voluntária da gravidez (IVG), que têm
que encaminhar as mulheres para os serviços onde se
fazem abortos e que estão obrigados a prestar
cuidados a mulheres que correm risco decorrente de
aborto.
Ficou surpreendido com a taxa de objecção de
consciência bastante alta um pouco por todo o país?
Admira-me que não haja mais médicos que não sejam
objectores de consciência. Trata-se de uma mulher
saudável com uma gravidez saudável que pede um
aborto e à qual o médico não tem que indagar razões,
apenas cumprir. O que foi dito durante a campanha,
mesmo pelos elementos do sim, foi que não queriam as
mulheres na prisão e aqui estamos de acordo. Neste
momento há um nítido apoio ao aborto a pedido. Não
sei se disseram sim àquilo que a portaria veio
dizer.
A regulamentação da lei foi além da lei?
Tenho a certeza que foi muito além do que uma boa
parte das pessoas que votaram sim desejava, que
queriam que se seguissem padrões mais moderados. O
próprio Presidente da República fez propostas
razoáveis e não foi ouvido.
Está a falar por exemplo na proposta de ser mostrada
a ecografia do feto à mulher que vai abortar?
Eu pergunto se isso não é ser parcial, qualquer
mulher deve ser informada do que se passa, e isso
implica que saiba o que está dentro dela.
No Hospital São Francisco de Xavier recusaram-se
a assinar a declaração de objecção de consciência
fornecida por portaria do Ministério da Saúde.
Porquê?
Não posso admitir que alguém de fora me possa
proibir seja do que for como médico especialista.
Não posso admitir que partam do princípio que eu sou
mentor moral seja de quem for. Não posso admitir que
haja médicos que são a favor do aborto e possam
fazer estas consultas e que haja médicos em que isto
lhes seja proibido por portaria. Eu é que sei se
estou em condições de praticar determinado acto
médico. E é nesse aspecto também a minha objecção de
consciência.
Julga-se imparcial o suficiente para não
influenciar a mulher durante uma consulta de IVG?
Em 22 anos de trabalho lidei com mulheres que
abortaram e a esmagadora maioria continuaram minhas
utentes. Uma coisa é o aborto, outra coisa é a
mulher que aborta e esta merece todo o apoio.
Acha que há uma desconfiança em relação aos
médicos do não?
O não já lá vai, neste momento somos médicos.
Ninguém tem o direito de impingir as suas crenças
seja a quem for, nomeadamente no exercício da nossa
profissão.
Se uma mulher lhe perguntar se acha que deve
abortar, o que é lhe responde?
Se a mulher pergunta "O que é que eu devo fazer", eu
pergunto-lhe "O que pretende?" "Vamos analisar o que
faz com que tome essa decisão." A decisão final é da
própria. Agora se a mulher me perguntar: "O que é
que pensa do aborto?" Que é uma coisa má, muito mau,
uma coisa consensual para as pessoas da campanha do
sim e do não.
As consultas prévias ao aborto não são
imparciais?
Se lhe dizem que tem ao mesmo tempo duas
auto-estradas: a do aborto e do seguimento de
gravidez, com todas as facilidades que o caminho
pela auto-estrada tem, a mulher opta pela seguimento
de gravidez. Se lhe mostrarem uma auto-estrada, que
é o que estão a fazer neste momento, e um caminho de
buracos e pedras, essa mulher não é livre para
decidir, porque só tem um caminho.
Encaminha as mulheres que vêm ter consigo para os
serviços onde se fazem interrupções voluntárias da
gravidez?
Digo à senhora "Isso não é comigo", mas pode ir ao
guichet número tal.
Sente-se envolvido no processo, ao ter que fazer
este encaminhamento, como alguns dos seus colegas
objectores referiram?
De todo. Se alguém me faz essa pergunta, tenho
resposta. No limite posso ser parcial, mas não devo
porque sou um profissional sério.
Muitos médicos ficaram irritados com a
obrigatoriedade de terem que dizer que prestam
cuidados a uma mulher em risco que fez aborto...
Escrever-se uma coisa destas é gravíssimo. É próprio
de alguém que nunca fez medicina.
Como é que acha que as coisas estão a correr no
terreno?
Nós sabemos que o Sistema Nacional de Saúde tem
dificuldades financeiras, quem trabalha no sistema
sabe que tem ser moderado nos gastos, que antes de
prescrever dados meios complementares de
diagnóstico, os mais caros, tem que pensar três
vezes, tem que os justificar. Vivemos num sistema em
que uma mulher para ter consulta de ginecologia ou
de planeamento familiar pode demorar meses. Eu não
tenho vaga até ao final de 2007.
Existe lista de espera?
A consulta de ginecologia do São Francisco de Xavier
tem 1500 mulheres à espera. No sítio onde eu
trabalho, uma mulher tem dificuldade para ter
consultas por falta de médicos e dinheiro; ao mesmo
tempo, a quem quer abortar tem que lhe ser dada
resposta em cinco dias. A minha objecção tem a ver
com isto: em consciência não posso admitir que se dê
este facilitismo a pessoas que não estão doentes e
pessoas que necessitam de consulta não têm de longe
nem de perto a mesma resposta.
Mesmo casos graves?
Uma mulher que aparece com um tumor do ovário ou uma
lesão do colo do útero que precisa de ser
esclarecida pode ter que estar meses à espera. Eu
próprio pergunto por que é que não há
administradores objectores de consciência.
O sistema tem capacidade para dar consultas de
planeamento familiar 15 dias após o aborto, como
prevê a legislação?
Há sítios onde as mulheres têm que estar meses à
espera. Além do mais, eu pergunto se são
verdadeiramente consultas de planeamento familiar,
as que há são de contracepção. Distribuem-se
contraceptivos, não são consultas em que se tenha
condições, ambiente, em que o casal possa ir
conversar e depois fazer a sua opção.
Neste momento não há condições, nem há tempo, nem há
profissionais para fazer consultas de planeamento
familiar.
Existe neste momento o perigo de objectores de
consciência no sistema público poderem não sê-lo no
privado?
Claro que sim. É o que está presente no espírito de
uma portaria [do Ministério da Saúde] que diz que o
médico tem que ser obrigado a prestar assistência a
mulheres com problemas, e que proíbe o médico
objector de fazer consultas [de aborto]. Se a
portaria considera que há o perigo de haver médicos
que, ao verem uma mulher com um problema grave, não
lhe dão assistência devida por que é que nós não
havemos de pensar que há médicos que façam isso? Se
se põe por princípio que o médico não é eticamente
correcto, porque é que não há-de haver o perigo de o
médico não poder ser eticamente correcto noutras
circunstâncias?
Devia haver um registo nacional para médicos
objectores de consciência para evitar esse risco?
Sem dúvida nenhuma. A própria Ordem dos Médicos se
ofereceu para fazer isso. Então é porque considera
que é importante ser feito. Eu penso exactamente o
mesmo.