Diário de Notícias -
30 Jul 07
O sinistro sucesso da reforma decisiva
João César das Neves
Finalmente o Governo tem sucesso estrondoso numa das
suas reformas. E é logo na mais influente. A
realidade não tem sido benevolente para os
ministros, com dificuldades, bloqueios,
contestações, mas num tema o Executivo conseguiu os
seus propósitos: o INE acaba de publicar os números
da natalidade, revelando que no ano passado nasceram
cerca de 105 mil crianças, menos que em qualquer ano
anterior. Como grande parte desses são filhos de
imigrantes, os valores portugueses são bastante
inferiores.
O primeiro-ministro, modestamente, não reivindicou
para si os méritos deste resultado, mas não há
dúvida que se deve a uma estratégia longamente
meditada e coerentemente aplicada durante décadas
por vários governos. Não seria possível atingir
valores tão miseráveis de natalidade sem esta
intensa e persistente atitude política. Foi este
Executivo que fechou maternidades, liberalizou e
subsidia o aborto, impôs a educação sexual laxista.
Ele é o herdeiro dos que facilitaram o divórcio,
promoveram uniões de facto, promiscuidade,
homossexualidade. Os portugueses estão em vias de
extinção e José Sócrates pode gabar-se disso.
O valor agora revelado não é surpresa inesperada,
mas vem na sequência natural de uma linha já antiga.
Todos sabemos como a cultura progressista,
manifestada por intelectuais, leis, telenovelas e
programas educativos, se opõe à chamada "família
tradicional". No antigo regime obscurantista a
fertilidade portuguesa manteve altos valores, à
volta de três nascimentos por mulher, até ao início
da década de 70. Com a democracia e desenvolvimento
começou a tendência moderna de queda da fertilidade.
Aqui Portugal não só conseguiu a convergência com a
Europa, mas ultrapassou-a largamente. A nossa taxa
de fertilidade de 1,36 nascimentos por mulher é
bastante inferior à média da União Europeia (1,52),
por sua vez muito menor que o nível de reposição das
gerações de 2,1. Não se pode dizer que se trata de
uma fatalidade sistémica, porque em países próximos
os esforços atentos têm conseguido inverter a
trajectória. Trata-se mesmo de uma específica
estratégia nacional. O Governo português mostra
decididamente à Europa o caminho para a decadência
populacional.
Os detalhes dessa política estão claros no programa
do actual Governo. Aí, no capítulo VI, "Famílias.
Igualdade e Tolerância", as prioridades das "Novas
políticas para as famílias" são o "Combate à
violência doméstica", "Igualdade de género", "Uma
política de verdade para a interrupção voluntária da
gravidez" e "Política de não discriminação". A
questão da natalidade está omissa, como todos os
aspectos da família normal. Para o Governo, ela é só
um cóio de brutalidade e discriminação que o
despotismo iluminado dos burocratas deve corrigir.
O "sucesso" nesta reforma estrutural não é
secundário, mas um dos elementos mais centrais da
estratégia do Governo. Porque o nosso Executivo
precisa de afirmar a sua identidade, visto a
política económico-social ser tudo menos socialista.
Isso, aliás, é um ponto a seu favor, porque as
orientações económicas da sua doutrina há décadas
que se mostraram um desastre. Mas enquanto adopta
estratégias mercantilistas precisa de se expressar
politicamente noutros campos. Os socialistas, que há
décadas eram contra as empresas e mercados, agora
revelam a sua pureza ideológica planeando a família.
Perante os números, o Governo fingiu-se surpreendido
e incomodado, apressando-se a apresentar nova
reforma; desta vez umas improvisadas "medidas de
promoção da natalidade". Nos assuntos realmente
importantes encomenda estudos, cria comissões,
promove consultas públicas. Nestes temas "menores"
envereda pela forma boçal de prometer uns trocos,
que dão títulos nos jornais e em breve esquecerão a
questão.
Naturalmente, não será por uns meses de abono e uns
tempos de férias que alguém decidirá passar a ter
mais filhos. Assim se desviam as culpas e, em breve,
poderá continuar a estratégia de desmantelar a
família. Ao menos nessa reforma estrutural o Governo
até consegue o que quer.