Diário de Notícias -
17 Jul
08
Tectos sem rede
Maria José Nogueira Pinto
Quando, já lá vão muitos anos, se discutiu o
Programa Especial de Realojamento, pediram-me para
fazer uma intervenção televisiva. Foi um momento
mediaticamente aflitivo, porque eu estava na 5 de
Outubro, sozinha num estúdio, o pivot estava no
Porto, ele ouvia- -me mas eu não o ouvia a ele. Como
estava no ar, decidi debitar a minha ladainha e,
assim que as câmaras deixaram de me filmar, tirei o
microfone e saí de fininho. Conto este episódio
apenas porque aquilo que então disse era
premonitório e mantém-se actual, como se vê por mais
este incidente no Bairro da Quinta da Fonte. Em
suma, um alerta para não repetirmos erros como "Chelas"
e olhar para os outros países, nomeadamente a
França, onde já então se implodiam os bidonvilles.
Mas nós, aqui, somos como aquelas crianças que
recebem um brinquedo sofisticado e, sem ler as
instruções, na excitação da novidade, carregam em
todos os botões ao mesmo tempo. O Programa e o muito
dinheiro comunitário que o acompanhava sugeria
apenas construção e mais construção de fogos
habitacionais. Sem que se fizesse a diferença entre
ter um tecto ou um sítio para viver. Para aqueles
destinatários (moradores de barracas, desalojados,
imigrantes) que tinham pouca ou nenhuma rede
familiar, social ou profissional, o que necessitavam
ia além de um simples tecto. Tinha, de facto, de ser
algo mais, um território onde pudessem refazer todos
esses laços indispensáveis à sociabilização e com o
qual viessem a construir um sentimento de pertença
colectiva, indispensável à integração. Com estes
objectivos percebe-se que a construção civil fosse
apenas um meio e não um fim. E mesmo esse foi ao
arrepio do bom senso com uma arquitectura
labiríntica.
Os serviços públicos, dominados por uma cartilha
social ultrapassada, transplantaram as pessoas
destruindo o reduzido habitat que possuíam. Um
movimento cego em que as famílias eram apenas um
número de processo a juntar, sem qualquer critério,
a outros números de processo. Em vez de dotar esse
território de "portas de entrada" na saúde, na
educação e na formação profissional, de estabelecer
políticas de empowerment que pudessem reconverter e
legalizar actividades económicas informais, de
reforçar a economia do bairro, estimular o comércio,
etc... a opção foi por baloiços, campos de jogos e
até piscinas, tudo suspenso sobre o nada e apenas
acrescentando alvos de vandalismo a uma desordem
que, sendo humana, é sempre estrutural e que foi
ignorada. Porquê?
Primeiro, a confusão conceptual que levou a
considerar unívocas e homogéneas categorias que o
não são: desalojados, imigrantes, ciganos, etc...
Segundo, a opção pelo princípio da concentração -
todos enfiados à força naqueles bairros - com o
efeito imediato da segregação espacial e a criação
de guetos. Terceiro, a burocratização do processo,
que não permitiu "trabalhar" os agregados,
preparando-os para algo que, mais do que uma mudança
de casa, era uma mudança de vida.
Como não temos dinheiro para implodir o PER,
restam-nos três caminhos: um é promover uma
cuidadosa e progressiva redistribuição, voluntária e
participada, desta população também pelos bairros
consolidados das cidades, quebrando os efeitos mais
nocivos da concentração e da segregação; outro é
separar o trigo do joio com operações policiais
exemplares que erradiquem os maus brancos, os maus
ciganos e os maus negros, do convívio com os bons
brancos, os bons ciganos e os bons negros, cujo
dia-a-dia enfreneziam; finalmente, trabalhar com as
populações, ouvindo e responsabilizando, criando uma
rede social forte que paulatinamente reorganize o
espaço e a comunidade através de interesses e
soluções comuns. Mas para isso é preciso muita
coragem e pouca correcção política. Infelizmente
para todos nós, é precisamente o inverso que costuma
suceder: não segreguem, não assustem, não noticiem!
É assim que os putativos "responsáveis" tratam estas
questões. Como se adormecidas se auto-exorcizassem e
faladas se tornassem insustentavelmente reais.