Público -
19 Jul
08
Carinhos do Estado
Francisco Teixeira da Mota
Atente-se que o Governo não embarca em radicalismos
e não implanta comités de defesa do socialismo nos
bairros
Tem sido este Governo do Partido Socialista
injustamente acusado de não tomar medidas de
governação que honrem o nome que ostenta. E, no
entanto, nada mais falso: o Governo continua
decidido a edificar o socialismo nesta nossa terra,
nomeadamente reforçando o Estado sempre que pode.
Vai-o fazendo com cautelas, para que a direita não
desconfie e não ponha em causa a sua actuação.
Os exemplos são inúmeros, mas o mais recente e sobre
o qual vale a pena debruçarmo-nos é o da implantação
de um chip obrigatório em todos os veículos
automóveis. Independentemente de qualquer utilidade
de tal chip, desde já a sua criação é louvável pelo
carácter uniformizador que traz em si: somos todos
iguais, todos os donos de automóveis terão
obrigatoriamente de transportar consigo uma
"caixinha governamental", um carinho do Estado.
Mas parece que o mesmo chip, para além de ser bom em
si mesmo, traz também inúmeras vantagens para o
Estado, o que, naturalmente, quer dizer para todos
nós. Diria mesmo mais, para cada um de nós.
Segundo foi divulgado na comunicação social, o chip
vai conter "informação sobre o seguro e inspecção da
viatura e ainda serve para pagar portagens" ou, de
forma mais contundente, segundo o secretário de
Estado das Obras Públicas, vai ser "um instrumento
fundamental para o incremento da segurança
rodoviária e, consequentemente, para a diminuição da
sinistralidade automóvel".
Vozes mal intencionadas já começaram, na habitual
política de bota-abaixo, a questionar as vantagens
desta importante medida, não descortinando como se
vai diminuir a sinistralidade e insinuando que os
chips visam essencialmente assegurar o pagamento das
portagens nas Scut que, segundo parece, não permitem
a colocação das portagens habituais nas
auto-estradas.
Nada mais falso, podemos nós assegurar com toda a
certeza. Na verdade, o mesmo secretário de Estado já
explicou que o chamado DEM (dispositivo electrónico
de matrícula) servirá também para a cobrança de
portagens, "embora não tenha sido criado com esse
objectivo". Ficamos, assim, descansados.
Ficamos, ainda, mais descansados, com as explicações
dadas pelo mesmo governante quanto aos riscos de
invasão de privacidade resultantes desta medida e o
eventual reforço do Big Brother: "O objectivo é o
aumento da segurança rodoviária, pelo acréscimo de
fiscalização. Fiscalizar veículos e não pessoas".
Claro que as más-línguas, os eternos insatisfeitos,
são capazes de começar a dizer que as suas viaturas
não circulam sozinhas e que quem as conduz são eles
próprios, proprietários, pelo que a alegada
fiscalização das viaturas redunda directamente numa
fiscalização deles próprios. Ora, quanto a este
aspecto, só há que responder, como muitas pessoas
lúcidas já o fizeram, com uma expressão cheia de
sabedoria: "Quem não deve não teme!"
Os condutores cumpridores, com o seguro em dia, a
inspecção realizada, as portagens pagas, as multas
inexistentes e a vida íntima sem mácula só se podem
congratular com esta medida de fiscalização
electrónica. A sistemática defesa da privacidade não
será, certamente, alheia a interesses inconfessados...
Mas, atente-se que o Governo não embarca em
radicalismos como seria a implantação de comités de
defesa do socialismo nos bairros. Não, longe disso.
O que se pretende agora é um controlo móvel da
mobilidade dos cidadãos, isto numa óptica de
segurança rodoviária. E, mais tarde, se vierem a ser
necessários, poder-se-á pensar em comités de defesa
do bem-estar, em que postos móveis equipados com
mecanismos de leitura dos chips implantados nos
automóveis poderão dar conselhos aos automobilistas,
convidá-los a relaxarem, lembrarem-lhe a necessidade
de pagar mais uma qualquer taxa, quiçá adverti-lo de
que têm pisado o risco em termos de velocidade. Tudo
na maior das civilidades, numa verdadeira parceria
Estado-cidadão.
Pessoas quezilentas e amargas já questionaram, por
exemplo, o facto de a proposta governamental não
identificar as entidades que irão ter acesso a esses
dados. Ora, como é evidente, as entidades que terão
acesso são aquelas para quem for útil a informação
em causa e, como é igualmente evidente, sendo
entidades estatais, tal acesso só poderá ser para o
nosso bem. Para quê levantar problemas onde não os
há?
Parece que a CNPD (Comissão Nacional de Protecção de
Dados) terá também levantado algumas objecções à
criação e implantação deste sistema, nomeadamente
apontando a necessidade de serem criadas garantias e
salvaguardas de defesa dos direitos dos cidadãos.
Assim, segundo parece, a CNPD não quer que o sistema
permita em qualquer momento saber onde está cada
viatura, nem que os dados recolhidos com o sistema
possam ser utilizados em processos criminais.
Louváveis propósitos mas irrelevantes. No que
concerne ao permanente controlo das nossas vidas,
embora tudo indique que o sistema que se pretende
montar seja com base na RFID (Radio Frequency
Identification) que só permite a leitura dos dados
contidos no chip a curta distância, a verdade é que
tudo dependerá do número de antenas que serão
implantadas pelo país fora. Quanto maior o número,
maior o controlo. E, nesse aspecto, não tememos a
concorrência...
Esperemos, assim, que Governo e oposição, irmanados
no desejo de nos fazerem bem, aprovem rapidamente
esta medida, cujo carácter socialista é bem realçado
no facto de o Governo, embora tudo esteja ainda a
ser estudado, já tenha uma certeza: o chip custa 10
euros e os cidadãos é que têm de o pagar. Tal como
na China socialista, em que os condenados à morte já
sabem que têm de pagar o custo da bala que os vai
matar. Advogado