Diário de Notícias -
21 Jul
08
Serenamente no centro do furacão
João César das Neves
Na próxima sexta-feira passa o 40.º aniversário de
um dos documentos mais controversos e gestos mais
corajosos do nosso tempo. A 25 de Julho de 1968 o
Papa Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae
sobre a regulação da natalidade. Dois meses após o
Maio de 68 e três anos depois do Concílio Vaticano
II, a sociedade e a Igreja encontravam-se em grande
turbulência. Vivia-se a revolução sexual, com a
pílula contraceptiva transformando os costumes.
Papa João XXIII nomeara em 1963 a Comissão para o
Estudo dos Problemas da População, da Família e da
Natalidade, com teólogos e leigos, para lidar com
estas questões.
O memorando final, de Junho de 1966, mostrava a
Comissão dividida sobre a permissão do uso da pílula
pelos casais católicos, com a maioria a favor. O
Papa, após dois anos de reflexão, determinou na
encíclica a posição da Igreja.
O que fez foi reafirmar a doutrina cristã.
Analisando cuidadosamente o diálogo de amor dos
esposos, a paternidade responsável e os "dois
significados do acto conjugal: o significado unitivo
e o significado procriador" (12), afirma que "quem
reflectir bem, deverá reconhecer que um acto de amor
recíproco, que prejudique a disponibilidade para
transmitir a vida que Deus Criador de todas as
coisas nele inseriu segundo leis particulares, está
em contradição com o desígnio constitutivo do
casamento e com a vontade do Autor da vida humana.
(...) Pelo contrário, usufruir do dom do amor
conjugal, respeitando as leis do processo
generativo, significa reconhecer-se não árbitros das
fontes da vida humana, mas tão-somente
administradores dos desígnios estabelecidos pelo
Criador" (13).
O Papa estava bem consciente da controvérsia que
iria gerar. "A doutrina da Igreja sobre a regulação
dos nascimentos, que promulga a lei divina,
parecerá, aos olhos de muitos, de difícil, ou mesmo
de impossível actuação (...) Mas, para quem
reflectir bem, não poderá deixar de aparecer como
evidente que tais esforços são nobilitantes para o
homem e benéficos para a comunidade humana" (20).
Acima de tudo afirma a certeza que "a Igreja não foi
a autora dessa lei e não pode portanto ser árbitra
da mesma; mas somente depositária e intérprete, sem
nunca poder declarar lícito aquilo que o não é, pela
sua íntima e imutável oposição ao verdadeiro bem
comum do homem" (18).
Após 40 anos, pode ajuizar-se com rigor a posição
então tomada. Ao contrário das previsões da época,
não se verificou a debandada dos cristãos e a
derrocada da Igreja. É verdade que muitos casais
praticantes não seguem este ponto da doutrina, como
ao longo dos séculos milhões de católicos disseram
mentiras, faltaram à missa ou desviaram fundos. O
pecado dos homens não invalida a verdade da Fé. Deve
dizer-se que estes anos confirmaram bem essa verdade
e a ponderada decisão de Paulo VI.
A clarividência de um grande Papa previu "as
consequências dos métodos da regulação artificial da
natalidade".
Sobretudo "o caminho amplo e fácil que tais métodos
abririam à infïdelidade conjugal e à degradação da
moralidade (...) perder o respeito pela mulher e,
sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e
psicológico dela, chegue a considerá-la como simples
instrumento de prazer egoísta (...) a arma perigosa
que se viria a pôr nas mãos de autoridades públicas,
pouco preocupadas com exigências morais". (17).
A profecia realizou-se. Em nome da modernidade
caiu-se na pornografia em massa, na promoção do
aborto, divórcio, deboche e perversão, no descalabro
da educação, solidariedade e castidade, no horror da
traição, solidão, depressão, suicídio.
A sociedade ocidental, no meio da prosperidade,
debate-se com terríveis problemas, da sida ao
insucesso escolar e à decadência populacional, que
advêm desta suposta revolução sexual.
Na época muitos achavam que estava em causa apenas
uma questão menor de simples liberdade e prazer. Mas
preparava-se o mais brutal e esmagador ataque à
família e à vida da história do mundo. Este texto
colocou serenamente a Igreja no centro da questão
decisiva da nossa era.