Diário de Notícias -
22 Jul
08
Crédito ao consumo malparado aumenta 50%
Márcio Alves Candoso
Cobranças. Os portugueses estão cada vez mais a
deixar de cumprir as suas obrigações com o sistema
financeiro. O volume de crédito incobrável do
segmento de particulares ascendia, em Maio, a 2,59
mil milhões de euros, mais 17,3% que um ano atrás. O
crédito ao consumo é a situação pior
Os portugueses, cada vez mais endividados, estão a
deixar de pagar, em primeiro lugar, os créditos
pessoais e os empréstimos do carro. O malparado no
crédito ao consumo atingiu, em Maio, o valor recorde
de 633 milhões de euros, mais 211 milhões que um ano
antes, uma subida de 50%. Do total de crédito
concedido para fins pessoais, 4,2% era considerado
como de cobrança duvidosa. Os dados constam do
Boletim de Estatística do Banco de Portugal, ontem
divulgado.
Para Natália Nunes, responsável do Gabinete de Apoio
ao Sobreendividamento da Deco, os dados ontem
revelados pelo Banco de Portugal "não constituem
surpresa".
"Os pedidos de ajuda por parte das famílias
sobreendividadas têm aumentado significativamente
nos últimos tempos", diz aquela responsável, em
declarações ao DN. "Cerca de 90% das pessoas que vêm
pedir conselho à Deco estão já em processo de
incumprimento" em relação às prestações devidas por
empréstimos contraídos.
No global, contando os créditos para compra de casa
e outros, os empréstimos de cobrança duvidosa que o
sistema financeiro contratou com o segmento de
particulares ascendia a 2,59 mil milhões de euros,
no período em apreço, mais 17,3% que há um ano,
quando não ultrapassava 2,21 mil milhões de euros. A
percentagem de crédito de cobrança duvidosa em
relação ao global dos empréstimos subiu em Maio para
os 2%. Em Abril era de 1,9% e um ano antes estava
nos 1,8%.
Nos empréstimos à habitação - responsáveis por 104,2
mil milhões de euros, de um bolo global de 131,6 mil
milhões -, o malparado subiu 14,89%, bem longe dos
50% verificados no crédito ao consumo. Ao todo, as
famílias deviam aos bancos por empréstimos não pagos
destinados à compra de habitação própria 1,4 mil
milhões de euros, mais 182 milhões que em Maio de
2007. A taxa de incumprimento, no entanto,
manteve-se estável nos 1,3%, dado que também cresceu
o montante do capital emprestado.
Natália Nunes explica que a "principal razão aduzida
para deixar de pagar os empréstimos é a diminuição
do rendimento, decorrente do desemprego". No
entanto, muitas dessas famílias, segundo a análise
da Deco, "já estavam sobreendividadas antes da
situação de desemprego, existindo ainda ausência de
poupança", frisa. A descida dos salários reais, em
resultado do agravamento do custo de vida, e o forte
aumento das taxas de juro nos últimos meses piorou a
situação.
Esta especialista aconselha as pessoas em situação
de dificuldades com o crédito a "dirigirem-se às
instituições financeiras, que têm todo o interesse
em não deixar que os processos atinjam as vias
judiciais".