Jornal de Negócios -
24 Jul
08
O TGV, as estradas, as obras públicas
Pedro Santos Guerreiro
Das duas uma: ou não "está tudo na Net", ou não
"está tudo estudado". Basta ir lá, e nós fomos, para
ver que esses dois anátemas que o Governo tem usado
para extinguir a crítica e menorizar a dúvida não se
cumprem.
Mas esse é apenas um dos aspectos, dos menos
importantes, de toda a discussão sobre os grandes
projectos de obras públicas, uma gritaria de surdos
fútil ou inútil entre a demagogia dos políticos e o
silêncio comprometido ou moralmente superior dos
técnicos. A conversa resume-se a frases lampejantes
como "não há dinheiro", "são os privados que pagam",
"antes uma central nuclear" ou a inevitável "o
melhor é estudar mais".
O País está cheio de engenheiros que conduzem táxis,
passam a ferro, vendem seguros e escrevem jornais.
Perante essa concentração de treinadores de bancada,
seria, por exemplo, impensável fazer às portas de
Lisboa o túnel que foi adjudicado para o Marão, uma
obra caríssima e com um enorme risco de construção
que pode até afectar as Águas do Marão. Ao pé disto,
o polémico túnel do Marquês em Lisboa é como uma
minhoca ao lado de uma cascavel. Se fosse na
Capital, caía o Carmo e a Trindade. Como é para lá
do Marão, afecta os que lá estão.
O Negócios e a Antena 1 passaram os últimos dias a
ir à Net, a pedir informação ao Governo, a
confrontar fontes e a investigar as contas do TGV e
do pacote de estradas. E a primeira conclusão é que
nem um nem o outro são, por si só, rentáveis. Seria
preciso que todos os 8,3 milhões de portugueses que
têm mais de 14 anos fossem a Madrid para pagar os
custos de operação (de operação!) do TGV que une as
capitais ibéricas. Mas será esta a única discussão
que queremos fazer sobre as obras públicas, a do
debate financeiro? Evidentemente que não. Foi por
causa da obsessão "tem de se pagar a si mesma" que a
virtuosa Expo 98 degenerou no ladrilhado Parque das
Nações.
Todos são santos e pecadores na tese financeira. Do
PSD, que analisa o tema num microscópio, ao Governo,
que adiciona variáveis na equação para tornar
"sustentável" o que é "inviável". E, assim, o que
factura menos do que custa a manter passa a ter
"lucro", porque reduz CO2 e acidentes nas estradas,
e provoca uma prosperidade económica tal que o
Estado passa a cobrar mais impostos. Com contas
destas, nada deixará de ser feito...
Num país já tão coberto de alcatrão, as estradas têm
aquilo que os economistas chamam de "utilidade
marginal decrescente": estes novos quilómetros geram
menos bem-estar do que geraram os quilómetros
anteriores. No TGV, a alteração é radical: o País
vai mudar. Vai ser preciso encomendar novos mapas de
distância-tempo (em que o que separa as cidades são
minutos em vez de quilómetros). Évora ficará tão
perto de Lisboa como Cascais. Coimbra será arrabalde
do Porto. É uma mudança profunda, num País que está
todo a desaguar na foz do Tejo.
Devemos falar de dinheiro, de quanto custa, de como
se paga e de quem vai pagar. É isso que encontra nas
próximas páginas. Mas a discussão só é completa se
começarmos também a falar dos buracos negros da CP,
do Metro de Lisboa, do Metro do Porto, quanto custam
por ano, como são geridos, por que são formas de
esconder dívida pública.
O País não vai recuperar o dinheiro investido nestas
obras. O Governo tem a obrigação de deixar isso
claro e, depois, de explicar porque ainda assim as
faz. É para isso que se elegem políticos, em vez de
analistas financeiros, para tratar do País. A
economia não é apenas finanças.