Diário de Notícias -
28 Jul
08
A lenta descida para a guerra
João César das Neves
Os jornais andam cheios com uma palavra que
julgávamos extinta: guerra! Após 1945, o Ocidente
prometeu acabar de vez com esse pesadelo e declarou
solenemente: "Nunca mais!" Houve vários conflitos
nos últimos 60 anos, mas em geral em zonas
longínquas e, apesar de tudo, sem ultrapassar os
limites locais.
Agora porém fala-se cada vez mais de confrontos e
embates com ramificações globais.
Os cínicos não se admiram destas ameaças porque
nunca acreditaram naquele voto piedoso. A guerra faz
parte da natureza humana, dizem. Mas o mundo mudou
muito neste campo. Graças ao progresso económico
temos hoje cinco importantes protecções contra uma
guerra global.
A primeira é essa lembrança da pior de todas as
guerras. Os avanços industriais aumentaram tanto a
capacidade devastadora que a ruína de 1939 a 1945
foi inacreditável. Ligada a esta está a segunda
protecção, porque o progresso continuou e o ser
humano tem hoje armas ainda mais medonhas.
Uma futura guerra pode ser final porque será
assombrada pelo fantasma da aniquilação planetária.
O progresso contribuiu também com uma protecção
subtil: deu ao mundo a certeza ou a esperança de
grande conforto e o desejo de o conservar. O globo
vive crescentemente numa sociedade de classe média,
comercial e financeira, onde a burguesia é
dominante. Ela foi sempre o estrato mais relutante
em combater porque, consumista e próspera, prefere a
diplomacia à birra...
As lutas nascem em geral de nobres ociosos ou
proletários desesperados.
As duas últimas razões são ideológicas, embora
ligadas a esta dinâmica. A cultura contemporânea
perdeu o culto da glória militar e a exaltação dos
combatentes. Se agora um governo desenvolvido, mesmo
americano, anunciasse uma conquista imperial, seria,
não aclamado como antes, mas desprezado pelos
eleitores. Por outro lado, a nossa crença nos
direitos humanos leva-nos a respeitar os outros
povos sem nos considerarmos superiores. Está
obsoleta a teoria, antes comum, do domínio sobre os
indígenas ignaros para bem deles e da civilização.
Estes cinco elementos revelam como a evolução
económica reduziu em muito o impacto agressivo de
alguns traços da natureza humana: a cobiça, inveja e
orgulho são hoje mais bem servidos pelo comércio que
pela conquista, gerando aquelas protecções. Mas
outros aspectos do nosso carácter contrastam com
estes e criam o recente surto militar.
O primeiro é o medo e desconfiança. O pavor gerado
pelo 11 de Setembro de 2001 gerou uma hostilidade
que ainda dura. A China e a Índia gerarão outros. A
segunda causa, principal origem de todas guerras, é
a busca da justiça. Os confrontos nascem em geral,
não dos maus, mas dos que se julgam bons atacando os
que consideram maus. Apesar de exaltarmos a
tolerância e os direitos, continuamos a acusar e
castigar os outros, agora não por origens étnicas
mas opções ideológicas. Por exemplo, o Ocidente diz
ter grande respeito pelos povos árabes, mas está
disponível para insultar Maomé e os seus dogmas
devido às posições muçulmanas acerca das mulheres,
liberdade e violência. Toleramos tudo menos o que
achamos intolerável. Como os nossos avós. Assim, o
próximo conflito mundial nascerá do medo e castigo.
Hoje tal cenário ainda parece longe, mas também em
1918 ninguém acreditava que 20 anos depois se
estaria de novo em guerra. Já se percorrem
paulatinamente as etapas que lá conduzem. Como em
séculos anteriores, pequenos passos de agressão,
insignificantes em si, descem patamares de onde já
não se sobe. No terrorismo cada nova crueldade é
marco a ultrapassar. Por razões inversas, a mesma
progressão se dá na civilização.
Após a libertação do Koweit em 1991 e a in- vasão
bondosa da Somália em 1992 foi mais fácil o
bombardeamento libertador do Kosovo de 1999. Isso
tornou admissível os ataques punitivos ao
Afeganistão em 2001 e Iraque em 2003. Que por sua
vez fazem plausível uma ameaça ao Irão hoje. Cada
assalto estabelece o nível de violência de onde se
parte na vez seguinte. Este caminho levou de
Bismarck a Guilherme II e daí a Hitler.