Voz do Sado -
Jul
08
Conhecer o sentido da nossa vida
Pe. Rodrigo Lynce de Faria
Ele era muito despistado. Viajava há horas num
comboio submergido na leitura dum romance policial.
Estava de tal modo concentrado, que não apreciava a
magnífica paisagem que aparecia na sua janela. Num
determinado momento, passou o revisor. Com muita
delicadeza, chamou-o à realidade deste mundo e
pediu-lhe, por favor, que lhe mostrasse o bilhete.
Ele começou a procurá-lo em todos os bolsos. Não o
conseguia encontrar.
Os outros passageiros olhavam para a cena com uma
certa apreensão. Aquele cavalheiro, tão elegante no
modo de vestir, não aparentava nem remotamente estar
a viajar de graça. Ele parecia estar desorientado.
Fechou o livro sem lhe deixar uma marca. Suava por
todos os poros e tinha muitos, porque era
corpulento. O revisor ficou com pena. Era evidente
que aquele senhor não o estava a enganar. Tantas
vezes tinha lidado com situações dessas. Aquela era
diferente. «Não se preocupe. Quando encontrar o
bilhete, diga-me alguma coisa. Vou continuar o meu
trabalho. Não lhe farei pagar outra vez». «Não é
pagar outro bilhete que me preocupa. O que de
verdade me preocupa é que eu já não me lembro para
onde é que vou».
Uma pessoa não pode viajar sem saber antes para onde
é que se dirige. Tal afirmação é tão óbvia que
parece ridícula. No entanto, hoje em dia, vemos
muitas pessoas que viajam nesta vida sem saberem
muito bem para onde é que vão. A pergunta pelo
sentido da vida parece-lhes própria de pessoas mais
velhas. Própria de quem não soube aproveitar a
juventude vivendo-a intensamente. Uma pergunta
teórica, que não muda nada, e que nunca terá uma
resposta séria. Como as respostas não se podem
provar cientificamente, todas elas são válidas.
Logo, nenhuma pode considerar-se verdadeira. Logo, a
própria pergunta não tem muito sentido.
Quem viaja por esta vida sem um norte, acaba por
pensar que o que verdadeiramente tem sentido é viver
intensamente o momento presente. Conhecer a vida e
tudo aquilo que ela tem para nos dar. Acumular
experiências. Quanto mais experiências, melhor.
Dentro de pouco acaba-se o tempo e seria uma pena
sair deste mundo sem ter experimentado tudo. Seria
um verdadeiro fracasso. Um fracasso, além disso,
irremediável.
Existe algo mais importante do que conhecer
profundamente esta vida? Do que conhecer tudo o que
ela tem para nos dar? Sim. Existe. Conhecer o
sentido que ela tem. Que este conhecimento não seja
científico nem experimental, não significa que não
seja verdadeiro. E muito menos que nos seja inútil.
Este sentido só se pode descobrir com um pouco de
silêncio. E pode continuar a ignorar-se depois de
muitas experiências variadas. Nem sempre o
conhecimento que provém da experiência é o melhor.
Se assim fosse, como disse alguém de um modo ousado,
uma pessoa de má vida saberia melhor o que é o amor
humano do que qualquer pessoa casada. E não parece
que seja assim.