Correio da Manhã - 3 de Junho

GÉMEOS SÓ DEVEM SER IGUAIS À NASCENÇA

A duplicar, a triplicar ou até a quadruplicar, cada um dos gémeos é apenas igual a si próprio e assim deve ser tratado, para que possa desenvolver sem dramas uma identidade autónoma. Isso mesmo foi defendido pela psicóloga Carolina Carvalho, que intervinha sobre "A Educação dos Gémeos na Sociedade Actual" no âmbito do primeiro encontro nacional de 'múltiplos' que decorreu ontem, com ampla participação, no Centro Colombo, em Lisboa. "Logo nos primeiros anos é importante começar a falar com as crianças e a individualizá-las", tornou claro a psicóloga do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. "Falar com as duas crianças, não apenas com uma delas, e tratá-las pelos nomes", explicitou. Também com o objectivo de promover a autonomia importa envolvê-las em actividades diferenciadas, de acordo e a partir da observação dos gostos e capacidades de cada uma. Daí que o conselho vá no sentido de evitar a padronização - "o pôr igual, o trazer igual". É certo e sabido que os gémeos se escolhem automaticamente como companheiros de brincadeira, mas "precisam de outros", bem como de encontrar espaços e possessões individuais - os brinquedos podem ser partilhados mas deverão ser pedidos antes ao seu proprietário. Por outro lado, em festas de aniversário, não convém oferecer uma "prenda aos gémeos", mas sim uma a cada um deles. Segundo defendeu Carolina Carvalho, à medida que as crianças crescem, é preciso proporcionar-lhes cada vez mais autonomia e espaço para desenvolver a sua identidade própria. "É fundamental que os gémeos se considerem autónomos um em relação ao outro", notou, mesmo porque são frequentes as situações em que, logo à partida, um exerce dominância sobre o outro, mais submisso. Na escola, por exemplo, "devem estar em turmas separadas e isto aplica-se não só aos gémeos mas a qualquer irmão". De outra forma estarão "a comparar-se permanentemente com alguém de quem já se sentem muito próximos" e as escolhas vocacionais podem, em virtude das relações de dominância, ser condicionadas. 

Desdramatizar 

Durante a sua intervenção Carolina Carvalho respondeu a algumas das dúvidas mais frequentes dos pais, de resto antes enunciadas por Maria Lopes Cardoso, responsável do Grupo Gémeos, formado há cinco anos. "Ter gémeos não é grave mas é especial. É um fenómeno com muitas implicações físicas e médicas mas também ao nível da personalidade e identidade das crianças", dissera. "Para a mulher é estranho - quando sabe que vai ser mãe de múltiplos sente nervosismo, ansiedade, medo e incompetência mas também se sente especial", afirmara Maria Lopes Cardoso, ela própria mãe de gémeos, sublinhando a necessidade de apoio por parte do pai, da família e dos amigos. Depois sobrevêm as dúvidas sobre se as crianças devem ser vestidas de igual e ter nomes parecidos, sobre a organização das refeições e das saídas. "Os pais sentem 'fome' de informação", tornou claro aquela responsável, referindo-se, nomeadamente, às fases de entrada na adolescência, situações de conflito entre gémeos e adaptação a outros irmãos que possam existir. Entre os objectivos do grupo a que preside conta-se o de "desdramatizar ao máximo o que é ter gémeos e garantir que outros sobreviveram em circunstâncias idênticas". Este grupo dispõe-se a 'fazer a ponte' entre os que já passaram pela experiência e os que estão a vivê-la, por meio, por exemplo, da disponibilidade de carrinhos de bebé. No Colombo foi instalada uma tômbola, onde os casais depositavam indicações sobre os equipamentos que podiam emprestar por já não precisarem deles. 

Isabel Ramos
 

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