Diário de Notícias - 26 de Junho
Passar das palavras à acção
Oliveira Martins anunciou criação de "task force" no
colóquio promovido pelo PS, mas o Governo não foi poupado a
críticas
Paula Lobo
O objectivo do colóquio "Audiovisual, que estratégia?",
ontem organizado na Assembleia da República pelo grupo parlamentar do
PS, foi conduzir o debate para o campo político e, como garantiu
Francisco Assis, provocar "efeitos no plano prático". Mas o
tom geral das intervenções da plateia foi de cepticismo. Com muitas
críticas ao Governo, pela falta de acção neste domínio.
Defendendo uma "lógica integrada da política governativa"
e o aperfeiçoamento dos mecanismos de regulação "com sanções
mais adequadas", o ministro da Presidência, Guilherme d'Oliveira
Martins, começou por anunciar a criação de uma "task force entre
o Instituto da Comunicação Social e o Instituto das Telecomunicações
de Portugal para identificação dos objectivos e dos problemas da
iniciativa "Convergência e Regulação"".
A constituição, em breve, de "um grupo de personalidades"
para conceber um "documento estratégico sobre o tema" - cujos
resultados, afirmaria à Lusa, estarão disponíveis no final deste ano
e terão reflexos constitucionais - e a "elaboração do livro
branco sobre "Convergência e Regulação" para debate
público", a decorrer este ano, foram outras medidas adiantadas
pelo ministro.
Curiosamente, nem o ministro da Cultura, José Sasportes, nem Ferro
Rodrigues, o ministro que tutela as telecomunicações, estiveram
presentes no colóquio, que juntou o Secretário de Estado da
Comunicação Social, actuais e antigos administradores da RTP, membros
da Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS), ex-ministros,
deputados, produtores e representantes de associações de espectadores.
Depois de um aceso debate sobre o serviço público de televisão, o
colóquio prosseguiria com a discussão de "Formas de Regulação
para o Audiovisual".
António Reis, vice-presidente da bancada do PS, considerou então
necessário o "ordenamento do território audiovisual" e a
aplicação de um "mínimo ético comum" a todos os canais, a
partir do quadro legal já existente.
O deputado, que considerou a auto-regulação um "mito",
criticou a AACS por se "lançar nesta via" e a RTP por
participar nas reuniões com os operadores privados, sinal de que
"reconhece que está sujeita à lógica concorrencial das
audiências". O papel da AACS foi então discutido, com António
Reis a defender uma maior intervenção do organismo, e alterações
legais no que respeita a prazos e valores das sanções, e Artur
Portela, da AACS, a argumentar que a ideia foi promover a co-regulação
e que se está a fazer da AACS um "bode expiatório".
A proibição ou não da contra-programação, as insuficiências dos
cadernos de encargos para licenciamento das televisões privadas, a
falta de orientação do Governo em matéria audiovisual, o espectro
radioeléctrico como bem de serviço público, a pulverização das
responsabilidades por vários organismos (criando dificuldades à
aplicação da Lei), a composição da AACS e a sua transformação numa
entidade que abrangesse as telecomunicações foram outros pontos em
debate.
Para o final ficou a discussão sobre "Que Fontes de
Financiamento para a Produção Televisiva Nacional?", moderado por
José Saraiva, deputado do PS. O realizador António Pedro Vasconcelos e
o produtor Nuno Artur Silva (ambos da Plataforma para o Audiovisual)
defenderam uma política integrada de multiplicação de fontes de
financiamento e diversificação dos centros de decisão, que passaria
por uma rede de obrigações financeiras (revertendo para a produção),
aplicável aos distribuidores de cinema e aos operadores de cabo e
Televisão Digital Terrestre.