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Ecclesia - 5 de Junho
Uma sociedade com justiça e paz
António Bagão Félix
A justiça não é apenas uma miragem abstracta ou um objectivo contabilístico, como a paz não é, tão só, a ausência de guerra.
Temos que ser mais exigentes perante o quadro que se nos depara.
Só haverá paz com mais justiça concreta. Só haverá justiça autêntica com uma verdadeira paz.
Paz de cada um e de todos com Deus, consigo mesmo, com os outros e com a Criação.
O novo século lança-nos na busca de novos caminhos para alcançar mais paz e melhor justiça.
A globalização essa palavra-motor e ícone de certa modernidade vai-nos conduzir para mais equilíbrios ou resvalará para uma certa mundialização de miséria humana?
Como disse o Santo Padre é preciso também edificar a globalização na solidariedade, o que exige a própria globalização da solidariedade.
Só a solidariedade, como ponte entre a liberdade e a responsabilidade, pode dar sentido humanista ao mercado e limitar os estragos do individualismo, do egoísmo e de algumas formas de competição predatória.
Só há justiça e paz duradouras se o progresso for aliado fiel da vida, da família, da valorização espiritual, da promoção dos valores da dignidade e do carácter.
Haverá que inverter o sinal dos últimos anos de uma progressão material - benéfica, sem dúvida mas com sinais preocupantes de uma regressão ou empobrecimento moral e espiritual.
Justiça e paz na base da miragem do efémero, do circunstancial, da exclusiva exaltação do material, do novo absolutismo do relativo, não podem ser sustentáveis.
A construção permanente da justiça e paz exige que estes ideais de bem sejam ancorados no amor social, no reencontro das virtudes, na harmonia das gerações, na personalização das relações.
O grande adversário da justiça e da paz, no princípio deste século é, entre tantos, a indiferença.
À indiferença só se pode responder com esperança e comprometimento.
Os católicos têm esse inesgotável dever, alimentado pela Fé, de contribuir para um mundo melhor.
Fazendo-o sem medos de falsos panfletários da secularização, com coragem e frontalidade, unidos em nome do essencial, despertos para com o sofrimento da guerra, da violência, da morte, da injustiça, autênticos na cidade, construtores e doadores sociais contrapondo o anúncio à denúncia.
Frutificando o exemplo de João Paulo II na sua busca incessante de compreensão, de respeito pela diferença religiosa e de promoção não negociável dos direitos e deveres dos homens, das sociedades e das Nações.
A opção preferencial pelos pobres e pelos últimos e a primazia da caridade como formas de dar e ser estando-se em fé, constituem um património da doutrina da Igreja através da Vida e Palavra de Jesus.
O novo século será, porventura, aquele em que mais teremos que saber responder aos novos desafios da paz e da justiça através de um caminho espiritual, ao mesmo tempo reforçado por uma Igreja concreta, dentro da vida e fonte de melhor vida.
Mais paz e melhor justiça dizendo Cristo por outras parábolas, lema do Dia das Comunicações Sociais deste ano. Acrescentaria, por outras parábolas... num mundo de parabólicas e de toda a parafernália tecnológica.
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