Público - 20 de Junho
Televisões Tentam Definir "Reality Show"
Por MARIA LOPES
Participantes saíram da primeira reunião com a Alta Autoridade
com trabalho para casa
O que é um "reality show"? A questão atravessou ontem a
primeira reunião do grupo de trabalho composto pela Alta Autoridade
para a Comunicação Social (AACS) e pelas três televisões para
discutir um eventual acordo de auto-regulação de conteúdos.
Como se trata de um acordo específico para os "reality shows",
um dos objectivos da reunião de ontem, realizada à porta fechada, foi
conseguir uma definição consensual deste tipo de programa. Porque se
não há dúvidas quanto ao Big Brother e ao Bar da TV, a
classificação de programas como Ponto de Encontro ou Mulher não
Entra, por exemplo, é mais dúbia.
"Identificámos os pontos de consenso e os de
divergência", declarou no final Sebastião Lima Rego - a partir de
hoje o presidente em exercício da AACS. Um novo encontro ficou marcado
para dia 3 de Julho, no qual deverão já ser apresentadas propostas
para um protocolo.
Lima Rego não quis entrar em pormenores sobre a reunião porque o
grupo de trabalho acordara não divulgar o conteúdo da discussão, com
a justificação de que isso "poderia hipotecar as
negociações". No entanto, sem euforias, acabou por classificar o
encontro como "um passo importante. Só o futuro dirá se foi
positivo." E afirmou que o acordo "ou se fará em Julho ou
não se fará de todo. Não se vai prolongar a questão
indefinidamente."
Na reunião estiveram presentes José Garibaldi, Sebastião Lima Rego
e Fátima Resende, pela AACS, Henrique Garcia (subdirector de
programação) e Paulo Soares, da TVI, António Borga e José Fragoso
(subdirectores de programação e informação, respectivamente), da SIC,
e Carlos Fino (subdirector de informação) e João Filipe Barbosa, da
RTP.
De acordo com Lima Rego, até ao próximo encontro os participantes
irão estar em contacto para trocarem ideias e prepararem um esboço do
que poderá vir a ser o protocolo. A AACS vai elaborar uma primeira
versão, uma espécie de resumo do que se passou ontem, que irá
distribuir pelas emissoras, as quais deverão, antes de 3 de Julho,
fazer os respectivos comentários. "O ideal seria que do próximo
encontro saísse já um texto em condições de ser protocolado",
disse Lima Rego.
Mas a verdade é que as coisas poderão não ser tão fáceis pois
continuam a existir divergências entre a SIC e a TVI em relação a
horários e mesmo sobre a possibilidade de suspensão da transmissão
dos "reality shows" - que a estação de Carnaxide diz aceitar
se a sua concorrente também o fizer, mas a TVI recusa.
Os participantes falaram também sobre a motivação do público em
relação a este tipo de programas, e acerca das dificuldades em
delimitar o que se pode ou não exibir, decorrentes da interpretação
subjectiva do que a lei estipula como direitos fundamentais. Ou seja,
até que ponto a própria pessoa sabe como está a dispor dos seus
direitos à imagem, ao bom nome e reputação, à reserva da intimidade
da vida privada e familiar.
De acordo com Lima Rego, caso se chegue a um acordo e este tenha
êxito, "não é de excluir que se possa regular sobre outras
matérias, como a informação".