Água (na segunda fora o Super Pai, ontem
o Tic Tac Milionário). No mesmo dia, na SIC, o Bar da TV
"Adulto" - novo e extraordinário conceito! - mostrava os
rapazes da "casa" fazendo um concurso do melhor rabo a ser
escolhido pelas moças da "casa".
Enquanto isso, a RTP prepara The Mole, que diz não ser um "reality
show", apesar de outros operadores que o apresentam, como a ABC
norte-americana, fazerem gala de o anunciar precisamente como "reality
show". Questão de retórica: apresentado num canal do Estado, The
Mole deixa de ser um o que é, "reality show".
Na mesma terça-feira, os três operadores de TV reuniram-se com a
Alta Autoridade para tentar definir o que se entende por "reality
show", numa difícil caminhada intelectual a caminho da
auto-regulação.
O ambiente da reunião e as declarações à imprensa pareciam os
tempos difíceis das negociações americano-soviéticas para o controlo
de armamentos: primeiro era preciso definir o que era uma arma nuclear
de "médio alcance", só depois se negociavam os números.
Estas negociações tipo SALT 2 vão durar anos. Primeiro definem o
que é "reality show", depois o que é contraprogramação,
depois auto-regulação, depois... passam à discussão dos temas.
Entretanto, mostram Big Brother 3, Confiança Cega, Ilha da Tentação,
The Mole; e, se quiserem, cometem todos os atropelos às regras da sã
convivência de empresas em competição, em prejuízo dos espectadores
e das normas legais e de civismo.
Eu acho que este processo negocial da Alta Autoridade e dos
operadores de TV é gozar com o pagode. Governo e parlamento deixaram de
ter autoridade democrática para fazer aplicar as regras da actividade
televisiva.
Limitam-se a fingir preocupação numa roda-viva de declarações,
não de actos.
E se os operadores de TV estivessem interessados em fazer
auto-regulação não precisavam de uma "negociação" mediada
pela Alta Autoridade. Faziam-na e pronto. Aquilo é só conversa para
entreter. Aquela "negociação" é que é um verdadeiro "reality
show". E só terá a "audiência" que a imprensa lhe
quiser dar.