Público - 22 de Junho

Andam a Gozar com o Pagode

Por EDUARDO CINTRA TORRES

Na terça-feira a TVI enchouriçou Bora Lá Marina no intervalo dos Olhos de Água (na segunda fora o Super Pai, ontem o Tic Tac Milionário). No mesmo dia, na SIC, o Bar da TV "Adulto" - novo e extraordinário conceito! - mostrava os rapazes da "casa" fazendo um concurso do melhor rabo a ser escolhido pelas moças da "casa".

Enquanto isso, a RTP prepara The Mole, que diz não ser um "reality show", apesar de outros operadores que o apresentam, como a ABC norte-americana, fazerem gala de o anunciar precisamente como "reality show". Questão de retórica: apresentado num canal do Estado, The Mole deixa de ser um o que é, "reality show".

Na mesma terça-feira, os três operadores de TV reuniram-se com a Alta Autoridade para tentar definir o que se entende por "reality show", numa difícil caminhada intelectual a caminho da auto-regulação.

O ambiente da reunião e as declarações à imprensa pareciam os tempos difíceis das negociações americano-soviéticas para o controlo de armamentos: primeiro era preciso definir o que era uma arma nuclear de "médio alcance", só depois se negociavam os números.

Estas negociações tipo SALT 2 vão durar anos. Primeiro definem o que é "reality show", depois o que é contraprogramação, depois auto-regulação, depois... passam à discussão dos temas. Entretanto, mostram Big Brother 3, Confiança Cega, Ilha da Tentação, The Mole; e, se quiserem, cometem todos os atropelos às regras da sã convivência de empresas em competição, em prejuízo dos espectadores e das normas legais e de civismo.

Eu acho que este processo negocial da Alta Autoridade e dos operadores de TV é gozar com o pagode. Governo e parlamento deixaram de ter autoridade democrática para fazer aplicar as regras da actividade televisiva.

Limitam-se a fingir preocupação numa roda-viva de declarações, não de actos.

E se os operadores de TV estivessem interessados em fazer auto-regulação não precisavam de uma "negociação" mediada pela Alta Autoridade. Faziam-na e pronto. Aquilo é só conversa para entreter. Aquela "negociação" é que é um verdadeiro "reality show". E só terá a "audiência" que a imprensa lhe quiser dar.

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