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Público - 24 de Junho
Do Rigor e da Exigência no Ensino, em Nome da Qualidade
Por ADEMAR FERREIRA DOS SANTOS
Reside em duas cidades, conforme os dias da semana, para poder trabalhar em três universidades. É professor (catedrático), investigador, conselheiro científico e gestor. Fora das universidades, mantém ainda um consultório, onde atende apenas às segundas-feiras, assina uma coluna semanal de opinião, num diário muito influente; colabora regularmente numa estação de rádio de projecção nacional e presta assessoria na sua área de especialização a várias empresas. São raros os meses, no ano, em que não se desloca ao estrangeiro (em trabalho, naturalmente).
Apesar de dar aulas (de pós-graduação) em duas universidades, esgota a sua actividade docente em apenas duas manhãs por semana. Isto, claro, quando as demais actividades não o impedem de faltar às aulas, o que acontece com alguma frequência. Ainda assim, os alunos, em geral, adoram-no, porque (dizem) é "um tipo com muita piada" e "dá aulas muito divertidas" e não se revela excessivamente minucioso e exigente na apreciação dos trabalhos (os quais, de resto, como ele próprio tem o cuidado de informar, costuma "ler na oblíqua")
Nos últimos tempos, tem-se mostrado muito preocupado com o estado calamitoso da educação e do ensino em Portugal. Acha que os alunos, numa percentagem elevadíssima, saem do ensino básico e do ensino secundário muito mal preparados: são pouco criativos, não sabem pensar, não têm hábitos de estudo e de investigação, escrevem mal e falam pior.
Espírito científico, atirou-se desassombradamente à identificação e à denúncia das causas endógenas do problema.
E não precisou de se esforçar muito (bastou-lhe acertar a argúcia pelo catarro argumentativo de outras pitonisas mais rodadas) para descobrir que nas escolas inferiores sobra o facilitismo, enquanto minguam o rigor e a exigência. E explicou, com a indispensável objectividade, em que se traduz o tal facilitismo que corrói a qualidade das aprendizagens escolares.
Percebeu que os professores das escolas inferiores abdicaram de exercer a sua autoridade e tornaram-se cúmplices e agentes do clima geral de permissividade que o Ministério de Educação, nas duas últimas décadas, sob a maléfica influência das pedagogias libertárias, foi tentacularmente disseminando por todo o sistema de ensino (menos, felizmente, pelas universidades, graças à autonomia e ao apurado sentido de responsabilidade dos professores universitários).
Intuiu que a perda de autoridade e a concomitante desresponsabilização dos professores das escolas inferiores redundaram numa acelerada degradação dos padrões de desempenho profissional docente - os professores faltam muito e estão pouco motivados para a docência; os programas não são cumpridos; as aulas são mal preparadas e mal dadas; as avaliações não são rigorosas; as classificações são generosamente inflaccionadas.
E concluiu que uma tal degradação dos padrões de desempenho profissional docente só poderia ter o resultado que salta à vista de todos: os alunos habituaram-se a transitar de ano e de ciclo sem saber e sem esforço e passaram a desconsiderar e a desrespeitar os professores e tudo aquilo que eles simbolizam ou deveriam simbolizar. A indisciplina (remata numa formulação luminosa) "mergulhou as escolas inferiores no caos".
Ancorado, para efeitos de diagnóstico, nestes sólidos pressupostos, imaginou a terapêutica. E foi definitivo.
A avaliação dos alunos, dos professores e das escolas inferiores tem de ser fortemente reforçada e não pode mais continuar a cargo de um organismo dependente, em última e decisiva instância, do Ministério da Educação e dos seus aparelhos burocráticos.
Se o currículo e os programas do ensino básico e secundário são pensados e moldados a partir das universidades; se a formação inicial dos professores das escolas inferiores cabe naturalmente às escolas superiores; se todos os alunos das escolas inferiores aspiram a entrar um dia numa escola superior; se é na universidade que, em todos os domínios, se produz ou legitima a ciência que vale para o futuro - por que não confiar às escolas superiores a responsabilidade de criação e posterior monitorização de novos e mais rigorosos dispositivos e instrumentos de avaliação dos alunos, dos professores e das escolas inferiores?
E, dando o exemplo, disponibilizou-se imediatamente para integrar um grupo de trabalho interuniversitário que tivesse como missão preparar e lançar as bases fundadoras desse novo sistema de avaliação.
Infelizmente, quando foi contactado para o efeito, estava uma vez mais no estrangeiro e nem os seus assistentes souberam dizer quando voltaria.
Professor das escolas inferiores
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