Público - 25 de Junho

Os Primeiros Dados do Censo

Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

Os primeiros dados do Censos 2001 fornecem algumas indicações curiosas sobre o que mudou Portugal nos últimos dez anos. Boa parte dessas indicações não são geradoras de qualquer entusiasmo - antes devem suscitar novas reflexões sobre o modelo de desenvolvimento do país.

Vejamos alguns desses dados:

- a população portuguesa cresceu 4,6 por cento, mas quase todo esse crescimento ficou a dever-se à imigração. O Censo confirma até que ponto nos estamos a tornar num país de imigrantes e mostra, ao mesmo tempo, que o saldo natural entre nascimentos e mortes se reduziu à mais ínfima expressão.

Como a percentagem de idosos continuou a aumentar - e nada indica que essa tendência se modifique -, o Censo torna claro que o pagamento das reformas futuras estará cada vez mais dependente do trabalho de imigrantes. Há poucos sinais de que o país esteja preparado para isso.

- manteve-se a tendência para a desertificação do interior e a acumulação de pessoas numa faixa litoral que vai de Setúbal e Braga. Esse crescimento populacional atingiu valores demenciais em concelhos como os de Sintra e Sesimbra, na Grande Lisboa, e Maia, no Grande Porto, o que mostra que a tendência para a suburbanização da vida de milhares de cidadãos, com o que isso implica de perda de qualidade de vida, não se inverteu, antes se acentuou. Até porque, no mesmo período, a cidade de Lisboa perdeu dez a 20 por cento da sua população residente. Esperemos que a próxima campanha autárquica fale deste que é, seguramente, um dos maiores problemas da cidade.

- houve concelhos do interior, espalhados por todo o país, que perderam um quinto da sua população, perdas que só marginalmente foram compensadas pelo crescimento de algumas cidades médias desse mesmo interior. Por este caminho, daqui por uns anos, entre o litoral e Espanha só haverá deserto.

- o tamanho médio das famílias diminuiu; aumentou fortemente o número dos que vivem sózinhos; diminuiu o número das famílias com várias gerações a viver no mesmo lar; essas quebras são maiores em regiões como a de Lisboa.

Quer isto dizer que aumentou a solidão, que se deslassaram muitos dos laços familiares que constituíam a primeira célula da sociedade. Isto ajuda a explicar porque há idosos abandonados, ou permite prever que, sem o apoio da família que vão perdendo, os membros isolados da nossa sociedade dependerão cada vez mais dos serviços públicos nos momentos de aflição. Não é por acaso que parece haver alguma coincidência entre as zonas onde é menor o tamanhomédio das famílias e maior a taxa de suicídios.

- num ponto somos campeões: a construir casas. Temos os centros urbanos a cair e as periferias a explodir. Somos, nas opções privadas, como o Estado:gostamos de coroar o progresso com o betão. Não é por acaso que temos poderosas empresas de construção e tão débeis indústrias.

E isto, por enquanto, são só os preliminares. Pelo que mostram percebemos que, estando em média muito mais ricos do que há dez anos, se calhar não temos motivos para estar muito mais felizes - é que, apesar dos bens materiais, não estamos viver com mais qualidade. 

[anterior]