Público - 8 de Junho

Inquérito

1. Quando as pessoas colocam a intimidade sob a vigilância das câmaras, estão a fazer uso legítimo da sua liberdade e do seu direito de escolha?

2. Acha que a guerra de audiências entre televisões está a determinar a evolução dos valores sociais?

Helena Sousa, docente do curso de Comunicação Social da Universidade do Minho

1. O direito à intimidade é inalienável.

2. A evolução dos valores sociais não pode ser pensada de forma unidireccional. Lemos os conteúdos televisivos com tudo aquilo que somos, mas também somos o resultado de um processo de socialização de que a televisão é parte integrante. Sendo a televisão um elemento importante no processo de permanente reconstrução social, os seus conteúdos não podem ser olhados com indiferença. Uma sociedade vigilante, culta e inteligente tem que aprender a zelar pela qualidade dos seus conteúdos televisivos.

Víctor Cláudio, psicólogo - Membro do Comité Permanente de Ética da Federação Europeia das Associações dos Profissionais de Psicologia

1- Só podemos falar de real exercício da liberdade quando um cidadão pode conscientemente escolher a sua acção. As pessoas que se colocam na situação de deixar vigiar e publicitar a sua privacidade, com o objectivo de obterem visionamento social, estão conscientes da sua acção? Ou serão movidas pelo que lhes surge como a única forma possível para poderem usufruir daquilo que a própria sociedade as ensinou a invejar, o ser "famoso", e que de outra forma não o conseguiriam? Assim, vendendo a privacidade, abdicam de ser livres, mas os outros reconhecem-nas durante algum tempo e vêem-se ao espelho nas capas das revistas do efémero.

2- Qualquer estrutura social fornece ao sujeito referentes, valores e normas que se vão modificando com as transformações sociais. Quando as televisões, impondo-se como veículos de nova ditadura, atacam os valores básicos da pessoa - a sua dignidade e integridade - estamos a recuperar valores que julgávamos já enterrados, em que o ser humano era mercadoria que melhor se vendia, quanto mais habilidades mostrasse. Assim, a retoma destes valores que atacam os direitos básicos do cidadão está nos antípodas da evolução social.

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