Público - 8 de Junho

Medialogias

Histórias e Notícias

Por MÁRIO MESQUITA

A indústria dos "media" afasta-se cada vez mais das referências fundadoras do "jornalismo clássico", baseado num ideal de isenção informativa e de crítica às instituições do poder. As empresas de família, inseridas nessa cultura de imprensa (no plano mundial, o caso mais célebre e celebrado é o do "Washington Post"), cederam lugar a grandes conglomerados internacionais em que o capital financeiro e o sector das telecomunicações são reis e senhores. A "cultura profissional" dos gestores destas empresas revela-se, regra geral, indiferente aos valores do jornalismo, reduzido a uma subcategoria do território mais vasto dos "conteúdos".

É digna de registo a entrevista do presidente do Grupo Media Capital, Miguel Paes do Amaral, à revista Meios (órgão das associações patronais da imprensa), agora renovada sob a direcção de Dinis de Abreu. Reveladoras de uma estratégia empresarial ambiciosa e ousada, com uma aposta declarada, não só na televisão de "grande público", mas em áreas como o ciberjornalismo e a informação económica (com destaque para um caso de qualidade: o "Diário Económico"), as declarações de Paes do Amaral denotam essa visão do jornalismo e dos jornalistas enquanto componentes secundários de um projecto industrial.

Jornalistas ou "produtores de conteúdos", no entender de Paes do Amaral, "são a mesma coisa", embora admita que "a expressão pode ser considerada pelos jornalistas tradicionais como um pouco redutora, já que na sua actividade existe uma componente de opinião e de experiência pessoal que torna o termo conteúdo frio". Precisando melhor, explica que coexistirão dois tipos de profissionais: "(...) haverá muitos produtores de conteúdos mas teremos sempre espaço para as individualidades".

Isto significa, salvo erro, que, a par de uma reduzida "elite" de jornalistas (as tais "individualidades"), haverá uma multidão de profissionais da informação destituídos da categoria de autor ("...os direitos de autor são das empresas que pagam o ordenado das pessoas que produzem esses conteúdos...") e reduzidos a uma condição que poderíamos denominar, parafraseando a linguagem marxista, de "proletariado" da indústria mediática, devidamente acompanhado de uma espécie de "exército de reserva cultural", em situação de trabalho precário. Duzentos anos de configuração de uma identidade de profissional, redundam, desta forma, nesta situação de trabalhador inserido numa cadeia de produção e nessa expressão, pobre e embrutecedora, de "produtores de conteúdos", indicativa de estatuto menor e de emprego incerto.

A forma elegante e fria como o responsável pela Media Capital explica porque motivo o grupo alienou "O Independente" - referência histórica da direita pós-moderna - mostra que, nesta lógica, os "capitais simbólicos" de pouco ou nada valem: "(...) Em termos estratégicos (...) acrescentava pouco ao grupo.

Continua a ser um título importante e influente na Imprensa portuguesa, mas aos nossos negócios acrescentava pouco."

Desta forma, o jornalismo transforma-se, cada vez mais, num género minoritário. "A luta pela atenção aos "media" deve ser compreendida também como uma competição entre o jornalismo e o não-jornalismo", sustenta o investigador sueco Peter Dahlgren. Por "jornalismo" o autor entende, neste caso, o "modelo clássico", construído a par do liberalismo e da democracia política, que se baseia na possibilidade de relatar de forma exacta e imparcial uma "realidade que existe independentemente da sua narração e é exterior às instituições do jornalismo". Nem sempre jornais e jornalistas cumprem esse programa exigente, quiçá utópico, mas actuam em seu nome, visam, na linguagem do senso comum, "dizer as coisas tal como elas são".

Sustenta o responsável máximo do grupo Media Capital, abonando-se no exemplo do outrora respeitabilíssimo "Times", hoje propriedade de Rupert Murdoch, que "o futuro dos jornais generalistas não está nas notícias, está nas histórias". Quem já teve o privilégio de assistir ao telejornal da TVI, onde os "eventos" do Big Brother se entrelaçam com relatos de acontecimentos políticos e sociais, percebe logo o sentido da frase.

Os textos jornalísticos inserem-se frequentemente em enquadramentos narrativos e, portanto, as grandes notícias correspondem, por via de regra, a boas histórias. Mas, provavelmente, Paes do Amaral pretende dizer que o negócio da comunicação se fará cada vez menos com recurso à informação-jornalística e cada vez mais com a ajuda da informação-entretenimento. De não-notícias se fará a prosperidade da indústria. O não jornalismo tomará progressivamente conta dos "media". E as histórias, a pouco e pouco, expulsarão as notícias. 

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