do "jornalismo
clássico", baseado num ideal de isenção informativa e de
crítica às instituições do poder. As empresas de família, inseridas
nessa cultura de imprensa (no plano mundial, o caso mais célebre e
celebrado é o do "Washington Post"), cederam lugar a grandes
conglomerados internacionais em que o capital financeiro e o sector das
telecomunicações são reis e senhores. A "cultura
profissional" dos gestores destas empresas revela-se, regra geral,
indiferente aos valores do jornalismo, reduzido a uma subcategoria do
território mais vasto dos "conteúdos".
É digna de registo a entrevista do presidente do Grupo Media
Capital, Miguel Paes do Amaral, à revista Meios (órgão das
associações patronais da imprensa), agora renovada sob a direcção de
Dinis de Abreu. Reveladoras de uma estratégia empresarial ambiciosa e
ousada, com uma aposta declarada, não só na televisão de "grande
público", mas em áreas como o ciberjornalismo e a informação
económica (com destaque para um caso de qualidade: o "Diário
Económico"), as declarações de Paes do Amaral denotam essa
visão do jornalismo e dos jornalistas enquanto componentes secundários
de um projecto industrial.
Jornalistas ou "produtores de conteúdos", no entender de
Paes do Amaral, "são a mesma coisa", embora admita que
"a expressão pode ser considerada pelos jornalistas tradicionais
como um pouco redutora, já que na sua actividade existe uma componente
de opinião e de experiência pessoal que torna o termo conteúdo
frio". Precisando melhor, explica que coexistirão dois tipos de
profissionais: "(...) haverá muitos produtores de conteúdos mas
teremos sempre espaço para as individualidades".
Isto significa, salvo erro, que, a par de uma reduzida
"elite" de jornalistas (as tais "individualidades"),
haverá uma multidão de profissionais da informação destituídos da
categoria de autor ("...os direitos de autor são das empresas que
pagam o ordenado das pessoas que produzem esses conteúdos...") e
reduzidos a uma condição que poderíamos denominar, parafraseando a
linguagem marxista, de "proletariado" da indústria mediática,
devidamente acompanhado de uma espécie de "exército de reserva
cultural", em situação de trabalho precário. Duzentos anos de
configuração de uma identidade de profissional, redundam, desta forma,
nesta situação de trabalhador inserido numa cadeia de produção e
nessa expressão, pobre e embrutecedora, de "produtores de
conteúdos", indicativa de estatuto menor e de emprego incerto.
A forma elegante e fria como o responsável pela Media Capital
explica porque motivo o grupo alienou "O Independente" -
referência histórica da direita pós-moderna - mostra que, nesta
lógica, os "capitais simbólicos" de pouco ou nada valem:
"(...) Em termos estratégicos (...) acrescentava pouco ao grupo.
Continua a ser um título importante e influente na Imprensa
portuguesa, mas aos nossos negócios acrescentava pouco."
Desta forma, o jornalismo transforma-se, cada vez mais, num género
minoritário. "A luta pela atenção aos "media" deve ser
compreendida também como uma competição entre o jornalismo e o
não-jornalismo", sustenta o investigador sueco Peter Dahlgren. Por
"jornalismo" o autor entende, neste caso, o "modelo
clássico", construído a par do liberalismo e da democracia
política, que se baseia na possibilidade de relatar de forma exacta e
imparcial uma "realidade que existe independentemente da sua
narração e é exterior às instituições do jornalismo". Nem
sempre jornais e jornalistas cumprem esse programa exigente, quiçá
utópico, mas actuam em seu nome, visam, na linguagem do senso comum,
"dizer as coisas tal como elas são".
Sustenta o responsável máximo do grupo Media Capital, abonando-se
no exemplo do outrora respeitabilíssimo "Times", hoje
propriedade de Rupert Murdoch, que "o futuro dos jornais
generalistas não está nas notícias, está nas histórias". Quem
já teve o privilégio de assistir ao telejornal da TVI, onde os
"eventos" do Big Brother se entrelaçam com relatos de
acontecimentos políticos e sociais, percebe logo o sentido da frase.
Os textos jornalísticos inserem-se frequentemente em enquadramentos
narrativos e, portanto, as grandes notícias correspondem, por via de
regra, a boas histórias. Mas, provavelmente, Paes do Amaral pretende
dizer que o negócio da comunicação se fará cada vez menos com
recurso à informação-jornalística e cada vez mais com a ajuda da
informação-entretenimento. De não-notícias se fará a prosperidade
da indústria. O não jornalismo tomará progressivamente conta dos
"media". E as histórias, a pouco e pouco, expulsarão as
notícias.