A
Família, esperança da Igreja e do mundo
. |
Carta Pastoral
da Conferência Episcopal Portuguesa
INTRODUÇÃO
1. Na sua busca de realização, o homem percorre múltiplos
caminhos. Entre eles, “o primeiro e mais importante é a
família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única
e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da
qual o ser humano não pode separar-se”(1).
Quando o homem chega a este mundo, é a família que o acolhe
e é nela que ele aprende a dar os primeiros passos; é na
família que ele encontra essa primeira teia de relações que
o vão ajudar a desenvolver todas as suas potencialidades
pessoais e sociais; é na família que ele toma consciência da
sua dignidade e que aprende os valores; é na família que ele
se descobre como ser chamado à comunhão e ao amor; é da
família que ele parte ao encontro da cidade e é à família
que ele regressa em busca da força da comunidade. A família
tem, portanto, um papel único e insubstituível na vida e na
realização do homem.
2. A missão da Igreja é acompanhar o homem ao longo dos
caminhos da sua existência terrena. Consciente de que o
matrimónio e a família constituem um dos bens mais preciosos
da humanidade, a Igreja sente o imperativo de propor “sem
cessar e fielmente a verdade do matrimónio e da família. É
uma necessidade que sente arder-lhe dentro, porque sabe que
um tal dever é qualificante para ela em virtude da missão
evangelizadora que lhe foi confiada pelo seu Esposo e
Senhor, e que hoje se apresenta com excepcional
premência”(2).
As importantes mudanças sociais registadas nos últimos anos
têm submetido a família a fortes tensões e provocado alguma
inquietação entre aqueles que se preocupam com a
estabilidade da realidade familiar. A cultura dominante
parece apostada em impor um conjunto de atitudes que
desfiguram e debilitam o matrimónio e a família.
Neste contexto, a Igreja propõe-se anunciar, com renovado
vigor, “aquilo que diz o Evangelho sobre o matrimónio e a
família, para individuar o seu significado e valor no
desígnio salvífico de Deus. É preciso, de modo particular,
reiterar que ambas as instituições são realidades que
derivam da vontade de Deus. Impõe-se redescobrir a verdade
da família, enquanto íntima comunhão de vida e de amor,
aberta à geração de novas pessoas; e também a sua dignidade
de «igreja doméstica» e a sua participação na missão da
Igreja e na vida da sociedade”(3).
3. Neste ano de 2004, comemora-se o 10º aniversário do Ano
Internacional da Família. Sublinhando essa efeméride,
internacionalmente celebrada, na sequência do Congresso da
Família, realizado para celebrar o 20º aniversário da
publicação da Exortação Apostólica Familiaris consortio, e
dando cumprimento a quanto prometemos na Carta Pastoral
Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum (4), nós, os
bispos portugueses, conscientes de que a família é o ponto
de partida para a realização da pessoa e para a humanização
da sociedade, queremos, uma vez mais, proclamar o Evangelho
do matrimónio e da família e lembrar a todos que a grande
missão da família é ser, na Igreja e no mundo, o rosto vivo
do Deus que ama.
I
A FAMÍLIA COMO REFERÊNCIA HUMANA FUNDAMENTAL
Dimensão natural e antropológica
4. O fenómeno humano surge como o ponto culminante de todo o
processo de criação. Feito “à imagem e semelhança” de Deus (Gn
1,26), o homem ocupa um lugar central no projecto divino
para o mundo e aparece, diante dos outros seres criados,
como um ícone do Criador. A sua missão consiste em continuar
a obra criadora de Deus e em testemunhar a realidade de
Deus. Desse modo, o homem contribui para a perfeição da
criação e revela-se como a fonte de sentido de toda a
evolução do universo.
Ser “imagem e semelhança” de um Deus que é amor e comunhão
pessoal significa que o homem é chamado a realizar a sua
existência no amor e a dar testemunho do amor. “O amor é,
portanto, a fundamental e original vocação do ser
humano”(5). Assim, é no amor que o homem se realiza, que a
sua existência se completa e adquire sentido pleno. O homem
é, portanto, um ser-em-relação, um ser para os outros. O
homem não pode viver sem amor: “não é bom que o homem esteja
só” (Gn 2,18). Ele “permanece para si próprio um ser
incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não
lhe for revelado o amor, se não se encontra com o amor, se o
não experimenta e o não torna algo de si próprio, se nele
não participa vivamente” (6).
A complementaridade hetero-sexual
5. A realidade do ser-em-relação manifesta-se, segundo a
revelação bíblica, na bipolaridade sexuada do homem e da
mulher (cf. Gn 1,27). Nessa perspectiva, o homem criado à
imagem e semelhança de Deus, é homem e mulher: dois
indivíduos, uma única realidade humana, chamados à unidade
que exprime e anuncia a vocação de unidade e harmonia do
próprio cosmos.
Esta unidade procurada e que se insere na busca progressiva
da perfeição da criação não é uma “fusão” na qual os dois
sujeitos perdem a sua identidade, mas é uma comunhão, onde
cada um mantendo a sua individualidade, a reconhece
continuamente na relação. No par humano, o ser humano
afirma-se como relacional, isto é, alguém que se descobre no
dom de si próprio e que se constrói na relação com o outro.
Sem anular o indivíduo, este torna-se pessoa, porque
encontra a sua verdade e a sua realização no amor
partilhado.
Esta unidade relacional do homem e da mulher é o núcleo
fundamental da vocação comunitária da humanidade e, por isso
mesmo, sua célula fundante e fundamental. Fonte de sentido
para toda a criação, esta unidade primordial alia a força da
natureza com o sentido que lhe vem do espírito, afirmando,
desde o início, a dimensão cultural e espiritual como
componente essencial de toda a comunidade humana. Com a
força da natureza, pode haver complementaridade física e
reprodução da espécie; mas só haverá comunidade de pessoas
com a dimensão cultural e espiritual, que vai encontrar uma
expressão decisiva na dimensão religiosa, ou seja, da
comunhão com Deus, que se reconhece como criador.
O matrimónio
6. Esta capacidade de amar e de ser amado tem a sua
expressão mais plena na união estável de um homem e de uma
mulher. A esta decisão chega-se, nesse processo de maturação
do amor, quando a pessoa se torna capaz de contrair um
compromisso de doação, de entrega e de fidelidade com outra
de um outro sexo. O matrimónio é o modo particular e
específico de realizar essa entrega que o amor esponsal
exige. Ao ligar-se um ao outro por um amor fiel, exclusivo e
indissolúvel, que os compromete para sempre, os esposos
tornam-se “uma só carne” (Gn 2,24). Essa união natural,
realizada com e por amor, aperfeiçoa-se e consolida-se dia a
dia a partir desse mesmo amor.
A aventura do matrimónio é, além disso, frutificante: a
família é “o santuário da vida” (7) e está ao serviço da
vida. A comunhão conjugal é uma união dinâmica, que se
prolonga na fecundidade. Está ordenada, por meio da
procriação, à edificação da comunidade familiar.
Os filhos, como fruto do amor, são, por sua vez, fonte do
amor. Eles dão sentido à vida dos cônjuges e tornam-se um
dom para os pais. Os filhos “não são um ‘acessório’ no
projecto de uma vida conjugal; são, antes, um ‘dom
preciosíssimo’ inscrito na própria estrutura da união
conjugal” (8).
A comunidade familiar
7. A comunhão conjugal, nascida do amor que o homem e a
mulher decidem partilhar um com o outro e que assumem
através de um compromisso estável, constitui o fundamento
sobre o qual se continua a edificar a mais ampla comunhão da
família: dos pais e dos filhos, dos irmãos e das irmãs entre
si, dos parentes e de outros familiares. Assim, “a família
torna-se um laboratório de humanização e de verdadeira
solidariedade” (9).
Tal comunhão radica-se nos laços naturais da carne e do
sangue, e desenvolve-se encontrando o seu aperfeiçoamento
propriamente humano na instauração e maturação dos laços
ainda mais profundos e ricos do espírito: o amor, que anima
as relações interpessoais dos diversos membros da família,
constitui a força interior que plasma e vivifica a comunhão
e a comunidade familiar.
A família cristã é, portanto, chamada a fazer a experiência
de uma comunhão nova e original, que confirma e aperfeiçoa a
comunhão natural e humana. “Todos os membros da família,
cada um segundo o dom que lhe é peculiar, possuem a graça e
a responsabilidade de construir, dia após dia, a comunhão de
pessoas, fazendo da família uma «escola de humanismo mais
completo e mais rico»: é o que vemos surgir com o cuidado e
o amor para com os mais pequenos, os doentes e os anciãos;
com o serviço reciproco de todos os dias; com a
comparticipação nos bens, nas alegrias e nos sofrimentos”
(10).
8. Um elemento fundamental para construir esta comunhão “é o
intercâmbio educativo entre pais e filhos, no qual cada um
deles dá e recebe. Mediante o amor, o respeito e a
obediência aos pais, os filhos dão o seu contributo
específico e insubstituível para a edificação de uma família
autenticamente humana e cristã. Isso ser-lhes-á facilitado,
se os pais exercerem a sua autoridade irrenunciável como um
«ministério» verdadeiro e pessoal, ou seja, como um serviço
ordenado ao bem humano e cristão dos filhos, destinado
particularmente a proporcionar-lhes uma liberdade
verdadeiramente responsável; e se os pais mantiverem viva a
consciência do «dom» que recebem continuamente dos filhos”
(11).
Valores constitutivos da família
9. A comunhão familiar só pode ser conservada e aperfeiçoada
através de um esforço quotidiano de todos os membros da
família. Exige, de facto, de todos e de cada um, a
generosidade, a disponibilidade para partilhar, a
compreensão, a tolerância, o perdão, a contínua abertura à
reconciliação, a solidariedade na ajuda mútua, a fidelidade
às pessoas e ao projecto comum, o respeito pela vida e pela
dignidade de cada elemento que integra a comunidade
familiar, a intimidade construída na ternura e na doação.
Servida por estes valores, a família desempenhará um papel
preponderante na realização das pessoas que a integram e na
humanização da sociedade.
II
LUZES E SOMBRAS DA FAMÍLIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
10. Mesmo num tempo de “crise de civilização”, como aparenta
ser o nosso, a família continua a ser a realidade base do
equilíbrio da sociedade e o principal foco da estabilidade e
da esperança. Nenhuma crise consegue ofuscar a beleza de
tantas famílias que, vivendo empenhadamente o mistério do
amor, apoiadas pela força sacramental do matrimónio,
constroem, no discernimento contínuo das circunstâncias
mutáveis, autênticas comunidades de vida e de amor,
alicerçadas na fidelidade, generosas no serviço à vida,
felizes na alegria que comunicam, verdadeiras “expressões
domésticas” do mistério da Igreja de Jesus Cristo.
Mas esta luz que emana de tantas famílias felizes e que
fundamentam a nossa esperança, não nos pode fazer ignorar os
problemas reais e os perigos que ameaçam a estabilidade das
famílias e levam, até, a perder de vista a verdade segura
sobre a sua natureza e missão. Mesmo que muitas famílias não
estejam em crise, a cultura contemporânea provocou uma crise
da instituição familiar. Analisaremos agora, aliás na
sequência do Congresso da Família, algumas das componentes
dessa crise.
Dificuldades resultantes da cultura ambiente
11. A época moderna trouxe ao homem a consciência da sua
individualidade. O homem descobriu-se como um ser único,
original, diferente, insubstituível, irrepetível e autónomo.
Este movimento foi positivo: levou à descoberta do valor
supremo e intrínseco de cada ser humano, à afirmação dos
direitos e da dignidade de cada pessoa, ao encontro com
alguns valores essenciais, como a liberdade, o pluralismo e
a responsabilidade.
No entanto, a descoberta da individualidade conduziu,
também, ao individualismo. “O individualismo supõe um uso da
liberdade pelo qual o sujeito faz o que quer, estabelecendo
ele mesmo «a verdade» do que gosta ou do que lhe é útil. Não
admite que outro «queira» ou exija algo dele em nome de uma
verdade objectiva. Não quer «dar» a outro baseando-se na
verdade; não quer converter-se numa entrega sincera. O
individualismo é, portanto, egocêntrico e egoísta” (12).
12. Fortemente marcada por essa dinâmica de egoísmo e de
egocentrismo, a cultura do nosso tempo apresenta sinais de
degradação preocupante quanto a alguns valores fundamentais.
É uma cultura do provisório, que dá prioridade ao que é
efémero sobre as realidades perenes com a marca da
eternidade: propõe que se viva ao sabor do imediato e do
momento, e subalterniza as opções definitivas, os valores
duradouros.
É uma cultura do prazer, que orienta para a satisfação
imediata e egoísta dos próprios anseios e desejos: ao
apresentar o amor e a sexualidade como objecto de consumo
imediato e descomprometido, banaliza e empobrece a concepção
da dimensão sexual humana e esconde ao homem o horizonte da
verdadeira felicidade.
É uma cultura do consumo e do bem-estar material: ao criar
ilusões e necessidades inúteis, ao seduzir os homens com o
brilho dos bens perecíveis, ao potenciar o reinado do «ter»
sobre o «ser», escraviza o homem e relativiza a busca da
identidade espiritual.
É uma cultura da facilidade, que ensina a evitar tudo o que
exige esforço, sofrimento e luta: produz pessoas incapazes
de lutar por objectivos exigentes e por realizar projectos
que exijam esforço, fidelidade, compromisso e sacrifício.
É uma cultura do indivíduo: ao sublinhar fortemente os
direitos e deveres do indivíduo, anula a dimensão de
comunhão e fere de morte a família como comunidade de vida e
de amor.
É uma cultura irresponsável, que relativiza os princípios
éticos: prepara leis destinadas a regular as “crises”, sem
se preocupar em atacar os comportamentos inadequados e em
educar para um projecto de valores verdadeiros.
É uma cultura de morte: desvaloriza de forma dramática a
vida humana e aceita, com leviandade, que lógicas
utilitaristas e materialistas se sobreponham aos direitos
das crianças não nascidas, dos débeis, dos doentes e das
pessoas idosas.
É uma cultura mediatizada: todos estes traços culturais
impõem-se, continuamente, às famílias, através da avalanche
dos meios de comunicação, alterando fortemente os ritmos
familiares e não deixando espaço para um discernimento sadio
da realidade familiar.
Dificuldades resultantes das estruturas sociais
13. O urbanismo - A expansão económica verificada nas duas
últimas décadas foi acompanhada por uma forte especulação
imobiliária que encareceu significativamente o preço da
habitação. A compra ou o aluguer da casa tornou-se um peso
enorme para a economia familiar, afectando sobretudo os
casais jovens. Aí reside, precisamente, uma das razões
fundamentais para o atraso na idade de contrair matrimónio e
para a redução ao mínimo do número de filhos, pois são
necessários, na maior parte dos casos, dois ordenados para
sustentar a economia familiar e o trabalho da mulher chega a
estar ameaçado no caso de ficar grávida. “A precária
situação económica, profissional e de habitação em que
muitos jovens se encontram ao casar dificulta-lhes a
adaptação ao novo modo de viver e a estabilização numa vida
de casados equilibrada, confiante e feliz. Muitas vezes os
jovens casam endividados, sem emprego seguro, sem casa
própria ou com habitação inadequada (...), vendo-se
compelidos a privações, horários desencontrados e
promiscuidades que se reflectem negativamente na sua vida de
casados e lhes tolhem as forças indispensáveis ao cultivo
dos valores mais altos” (13).
O aumento significativo do número de pessoas que se vêem
obrigadas a residir em locais demasiado afastados do local
de trabalho tem constituído, também, um factor negativo para
a vida familiar. A ‘periferização’ das famílias leva ao
aumento do tempo de deslocação entre a casa e o trabalho,
diminuindo o tempo disponível para o encontro familiar e
constituindo um obstáculo ao relacionamento, quer entre os
cônjuges, quer entre os pais e os filhos.
Verifica-se, por outro lado, uma forte tendência para a
redução do espaço oferecido, em muitas casas recentemente
construídas, o que dificulta a família ampla e a presença
das pessoas mais idosas na convivência do lar.
Finalmente, o crescimento das áreas urbanas tem sido feito,
em muitos casos, sem um projecto sustentado e que tenha em
conta o bem-estar das pessoas e das famílias. Vários núcleos
habitacionais têm sido implantados e crescem, “sem os
equipamentos sociais indispensáveis, como escolas, serviços
de saúde e locais de culto. Faltam, de igual modo, espaços
adequados ao correcto desenvolvimento da vida social: zonas
arborizadas e jardins, lugares para a prática do desporto e
ocupação dos tempos livres, recintos para actividades
culturais e associativas” (14). Instaladas em cidades de
betão onde falta “qualidade de vida”, torna-se difícil, para
as famílias crescerem numa atmosfera de equilíbrio, de
harmonia, de tranquilidade e de serenidade; e isso acaba por
ter, a curto prazo, custos incalculáveis no que diz respeito
à estabilidade familiar.
14. O desemprego - O desemprego e o trabalho precário
constituem, nos nossos dias, uma das mais sérias ameaças à
família. Ao trazerem instabilidade, insegurança e
desconfiança em relação ao futuro, destroem a harmonia, o
equilíbrio e a paz familiar. Atingindo, por vezes, as
dimensões de uma autêntica “calamidade social” (15), são uma
fonte de pobreza que fragiliza os indivíduos e as famílias.
Uma das suas consequências é a dificuldade em prover às
necessidades fundamentais, nomeadamente o acesso à
habitação, à educação, à cultura e à assistência na saúde.
Com frequência, o desemprego é responsável pelo
endividamento das famílias, provocando situações
verdadeiramente dramáticas de miséria e de dependência.
Outro dos efeitos do desemprego é impedir os indivíduos de
desenvolverem as suas capacidades e de as porem ao serviço
do bem comum. Afastados do mercado do trabalho, os
desempregados sentem a dolorosa sensação de não serem
reconhecidos nem úteis à sociedade. Muitas vezes, esta
situação degenera em fenómenos de violência, de
prostituição, de alcoolismo, de delinquência e de
desequilíbrio familiar.
Entre as pessoas dolorosamente atingidas pelo desemprego,
encontra-se um número significativo de jovens. A dificuldade
em aceder ao mercado de trabalho leva muitos jovens a
sentirem dificuldades para encontrar o seu espaço na
sociedade. A instabilidade daí decorrente é responsável,
muitas vezes, pelo adiamento do matrimónio e por
desequilíbrios diversos que afectam a unidade familiar.
15. A injustiça fiscal - O sistema fiscal vigente ignora a
centralidade da família na sociedade e apresenta-se, em
geral, desfavorável à promoção da família e dos valores
familiares.
O regime fiscal a que as famílias estão sujeitas desencoraja
a natalidade e penaliza, sobretudo, as famílias numerosas,
constituindo um incentivo a que os casais limitem, por
razões económicas, o número de filhos. A tributação fiscal,
não só não tem em conta, de um modo coerente, a família,
como chega a tributar mais gravosamente o cidadão enquanto
membro de uma família do que o seria fora dela.
Falta, na realidade, uma política que centre o sistema
fiscal na família e que privilegie o tratamento fiscal dos
rendimentos integrados num agregado familiar. Falta,
igualmente, uma política de incentivos às empresas que
desenvolvam uma política de apoio às famílias dos seus
trabalhadores, nomeadamente através de creches, infantários
e prestação de cuidados de saúde.
16. A pouca protecção dada à maternidade - A incorporação da
mulher no mercado de trabalho - umas vezes imposta pelas
necessidades da economia familiar, outras pela ideia de que
o valor e a dignidade da mulher se baseiam na sua profissão
remunerada - obriga a que, em muitos casos, ela trabalhe
todo o dia fora de casa. Na prática, isto pode significar,
para a mulher, a renúncia à maternidade ou, na melhor das
hipóteses, a redução ao mínimo do número de filhos. A fadiga
resultante da actividade laboral, a necessidade de ser
competitiva e a realização profissional tornam mais difícil
que a mulher possa dar aos filhos o cuidado, o amor, o
afecto e a atenção de que estes necessitam para se
desenvolverem de forma equilibrada. Tal realidade não
resulta, em muitos casos, da vontade da mulher, mas da
impossibilidade de conciliar objectivamente a sua dupla
condição de trabalhadora e de mãe.
As exigências da actividade laboral traduzem-se na redução
da comunicação familiar e na falta de tempo para a
convivência em casa. Dessa forma, debilita-se a força
interna das relações pessoais e degrada-se o papel educador
dos pais na sua relação pessoal com os filhos.
Fragilidades internas à própria família
17. Os abusos da liberdade individual - O individualismo
trouxe a corrupção do conceito e exercício da liberdade. A
liberdade pessoal aparece, frequentemente, como afirmação de
si próprio e dos interesses egoístas e não como capacidade
de se dar ao outro numa relação afectiva profunda e
definitiva. Numa sociedade em que o ideal de vida é a
independência, as relações conjugais e familiares são vistas
como uma pesada carga que rouba a liberdade e que é causa de
sofrimento e de infelicidade. Esta deformação do significado
da liberdade tem introduzido perturbações graves no seio da
vida familiar, quer na relação do casal, quer na relação
entre pais e filhos. A família torna-se, assim, um conjunto
de indivíduos com direitos e deveres regulados pela Lei, e
não uma comunidade de vida e amor, onde o exercício da
liberdade se traduz no dom de si próprio, na partilha, na
solidariedade e no serviço feito por amor.
18. As traições ao amor e à vida - Pelo compromisso
matrimonial, os cônjuges ligam-se um ao outro por um amor
fiel, exclusivo e indissolúvel que os compromete para sempre
numa vida de partilha, de doação recíproca e de entrega
total. Contudo, diversas situações vividas nas famílias
atentam contra este compromisso: o individualismo, a
infidelidade, a promiscuidade sexual, a mentira, a
incapacidade para se dar totalmente, a procura do próprio
prazer e dos próprios interesses por cima dos interesses
comuns, a ruptura do compromisso matrimonial. São traições
ao amor que fracturam e, muitas vezes, ferem de morte a
comunidade familiar. O divórcio aparece, neste contexto,
como uma das mais graves formas de traição ao amor.
O compromisso matrimonial supõe, por outro lado, um
compromisso com a vida. As manifestações de violência e de
desrespeito pela dignidade do outro - do cônjuge, dos
filhos, dos idosos, dos doentes, das pessoas portadoras de
deficiência - são traições à vida. O aborto provocado é, na
perspectiva do Magistério da Igreja, um crime contra a vida
“particularmente grave e abjurável” (16). Tudo aquilo que
nega a vocação da família a ser “santuário da vida” atenta
contra a verdade e a integridade da própria família.
19. A pobreza da dimensão espiritual e sobrenatural -
Seguindo o sentido geral da cultura do nosso tempo - onde o
divino deixou de ser um elemento significativo para a vida
diária dos homens - muitas famílias reduzem o seu horizonte
a uma perspectiva de bem-estar material e constroem a sua
existência à margem dos valores transcendentes. A
indiferença face a Deus e aos seus projectos, a falta de
tempo para a oração pessoal e familiar, a indisponibilidade
para a escuta e a reflexão da Palavra de Deus, a falta de
participação na vida sacramental e eclesial e a
insensibilidade face aos valores evangélicos traduzem-se no
empobrecimento da dimensão espiritual e sobrenatural.
20. Em geral, o não cultivo dos valores que são
constitutivos da família, ameaça a solidez da instituição
familiar e impede-a de concretizar no mundo a sua vocação de
sinal e instrumento do amor de Deus.
As famílias em situações especiais
21. As famílias em que pelo menos um dos cônjuges é
“recasado” - O divórcio é sempre uma crise extremamente
dolorosa. A separação provoca, quase sempre, nos cônjuges
sentimentos de fracasso e de perda; nos filhos, o divórcio
provoca, muitas vezes, sentimentos de raiva, de medo, de
abandono, de tristeza ou até de culpa.
Muitos divorciados caminham para um novo casamento; e o novo
enquadramento familiar ressente-se, frequentemente, do
quadro negativo que acompanhou a anterior separação de um ou
dos dois cônjuges. Tanto os ex-cônjuges como os filhos do
casal passam a ter que se adaptar a novas situações, desde
as rotinas do dia a dia a referências mais importantes, como
a transferência de escola ou de emprego, de residência, de
bairro, de cidade, ou mesmo de país. Além disso, na família
recasada os limites dos subsistemas familiares são mais
permeáveis, a autoridade paterna e materna é dividida com
outros membros da família: há uma maior complexidade na
constituição familiar - às vezes oito avós, irmãos,
meios-irmãos, filhos da mulher do pai, filhos do marido da
mãe. Esta complexidade das relações leva, em certos casos, a
dificuldades de enquadramento que afectam o desenvolvimento
emocional da criança e do adolescente. Tal situação arrasta
consigo, não raras vezes, problemas emocionais e
psico-somáticos, que se traduzem na dificuldade em lidar com
os “novos pais”, em agressividade, em fechamento, em
problemas de identificação familiar e social.
22. As famílias com filhos portadores de deficiência - O
problema dos cidadãos portadores de deficiência marca o dia
a dia de muitas famílias. Trata-se de uma questão que ainda
não encontrou uma resposta satisfatória por parte dos
poderes públicos. Os problemas começam, desde logo, no
acesso das crianças portadoras de deficiência às creches e
infantários onde, com frequência, não existem condições para
as receberem. Isto implica, nalguns casos, que um dos pais
tenha de renunciar ao seu emprego para assistir o filho
portador de deficiência nos primeiros anos de vida. Os
problemas continuam na escola regular, onde nem sempre
existem condições técnicas e humanas para assegurar ao
cidadão portador de deficiência uma integração/inclusão
efectiva. As instituições de ensino especial são escassas e
nem sempre conseguem dar uma resposta adequada aos desafios
que, a este nível, lhes são postos.
Sem acesso à educação e à formação de qualidade, os cidadãos
portadores de deficiência vêm-se impossibilitados de aceder
ao mercado normal de trabalho em condições de igualdade.
Assim, as pessoas portadoras de deficiência estão destinadas
a integrar indefinidamente o grupo dos desempregados ou dos
trabalhadores mal remunerados e vêem, assim, limitadas as
suas possibilidades de integração social, de realização
profissional e até de constituir família. Trata-se de uma
situação que onera a comunidade familiar e que constitui um
drama na vida de muitas das nossas famílias.
23. As famílias monoparentais - Nos últimos anos tem
aumentado significativamente o número de famílias
monoparentais. As razões que estão por detrás desta
realidade são de índole diversa - uma maternidade ou
paternidade solteira, o divórcio civil, a nulidade canónica
da união anterior, uma violação, ou outras; mas o facto
significa, em qualquer caso, uma deficiência no quadro
familiar. Desde logo, a falta da imagem do pai ou da mãe
como figura de referência pode constituir, para a educação
da criança, uma grave lacuna. Frequentemente, essa lacuna
tem consequências posteriores mais ou menos graves, quer ao
nível do equilibrado desenvolvimento pessoal, quer ao nível
do aproveitamento escolar e da formação em geral, quer ao
nível da capacidade de integração e de relação social.
Outros factores contribuem para onerar a situação da família
monoparental. Trata-se, em geral, de uma família com menos
recursos económicos e que, por isso, tem menos facilidade em
aceder aos bens essenciais, nomeadamente à educação, à saúde
e à cultura; o chefe de uma família monoparental tem, em
geral, maior dificuldade em inserir-se no mercado laboral
até porque, com frequência, é obrigado a ausentar-se do seu
posto de trabalho para cuidar do filho; o chefe de uma
família monoparental, pelo facto de ter de assumir sozinho
todas as tarefas dos pais, vive num clima de cansaço, de
tensão e de preocupações que acaba por afectar o equilíbrio
de toda a comunidade familiar.
24. A situação dos idosos - A evolução médico-científica, a
melhoria da higiene, da salubridade e das condições de vida
globais, provocaram o aumento da esperança de vida. Como
consequência, aumentou significativamente o número de
pessoas idosas na sociedade actual. Trata-se de uma questão
que, além do seu impacto óbvio nas estruturas sociais,
laborais e económicas, tem também consequências sérias na
comunidade familiar.
Muitos idosos, por vontade própria ou por exigência das
circunstâncias, vivem sozinhos, numa situação de especial
vulnerabilidade. Por vezes, essa realidade significa
pobreza, isolamento, solidão, esquecimento, tristeza e
desamparo, apesar do apoio e do acompanhamento das
instituições de solidariedade social públicas ou privadas. A
natural susceptibilidade a certas doenças, a maior
frequência de alterações degenerativas, a diminuição da
acuidade dos sentidos, a eventual incapacidade física ou
psíquica, tornam as pessoas e os casais que fazem parte
deste grupo etário especialmente débeis e necessitadas. As
suas carências económicas não lhes permitem, muitas vezes,
ter acesso a determinados bens de primeira necessidade -
nomeadamente aos cuidados de saúde - nem o aproveitamento do
tempo de lazer a que têm direito.
Muitos idosos estão, felizmente, integrados em comunidades
familiares mais alargadas, constituídas pelos seus
descendentes. Nesse contexto eles têm, normalmente, um papel
muito importante na consolidação da estrutura familiar. Para
os filhos e para os netos, eles dão testemunho do valor da
família e “são, por sua natureza, fonte de dádivas, tesouro
de experiências, conselheiros sábios e prudentes” (17). A
sua presença e a sua afectividade são particularmente
importantes no apoio, no acompanhamento e na transmissão de
valores às gerações mais jovens da comunidade familiar.
As necessidades particulares dos idosos dependentes - por
motivo de deficiência profunda, doença grave ou idade
avançada - constituem, contudo, uma realidade a que as
famílias nem sempre conseguem dar a resposta adequada. A
exiguidade e a falta de condições do espaço familiar, a
dificuldade - por parte dos filhos - em conciliarem a vida
profissional com o acompanhamento dos pais em situação de
dependência, constituem uma grave dificuldade experimentada
por muitas famílias.
25. As famílias deslocadas (os migrantes) - A realidade da
migração sente-se, entre nós, numa dupla direcção: por um
lado, nos milhares de portugueses que emigraram, procurando
noutros países melhores condições materiais; por outro, no
número daqueles que, mais recentemente, demandam Portugal
como pátria de acolhimento.
Nos últimos anos testemunhámos um fluxo migratório sem
precedentes. Muitas das pessoas envolvidas nessa corrente
migratória foram coagidas a deixar a sua terra, o seu
círculo familiar e as suas raízes sócio-culturais para
encontrar, num país de acolhimento, uma vida melhor, para
elas e para as suas famílias. Frequentemente, depois de uma
viagem cheia de dificuldades e privações, os imigrantes caem
nas mãos de redes de tráfico de pessoas e são explorados por
empregadores sem escrúpulos. Apesar da sua contribuição para
o desenvolvimento do país onde se estabelecem, nem sempre
encontram mecanismos legais que defendam os seus direitos e
são, muitas vezes, vítimas de actos de racismo e
discriminação. Num contexto sócio-cultural estranho e, por
vezes, adverso, o seu desenraizamento constitui um factor
acrescido de marginalização. A separação da família, além de
aumentar o seu sofrimento e solidão, enfraquece as relações
familiares e contribui para a desagregação da comunidade
familiar.
Nos casos em que é possível o reagrupamento familiar no país
de acolhimento, a família migrante enfrenta novos e difíceis
desafios. Para uma elevada percentagem de imigrantes e seus
filhos, as oportunidades de integração estão limitadas pela
sua dificuldade em dominar a língua do país que os acolheu,
pelo choque de culturas, pelo seu baixo poder económico,
pela discriminação e desvantagem no mercado de trabalho,
pela segregação residencial, pela escassa participação
política e sindical, pela dificuldade em aceder ao sistema
de saúde, à educação e à cultura, pelo desemprego e pelo
racismo. São, portanto, famílias especialmente vulneráveis à
agressão do meio e que têm, frequentemente, dificuldades em
encontrar o seu equilíbrio, o seu enquadramento e a sua
realização.
26. Temos consciência de que este quadro significa, para a
realidade familiar, um enorme desafio. Contudo, encaramos o
futuro com confiança e esperança, convictos de que as
famílias saberão encontrar o seu caminho, realizar as
necessárias adaptações, conservar os valores perenes e
continuar a desempenhar, com fidelidade, o seu papel e a sua
missão na Igreja e no mundo.
III
O ANÚNCIO DO EVANGELHO DO MATRIMÓNIO E DA FAMÍLIA
27. A Igreja tem em conta toda esta complexa e multifacetada
realidade familiar e não fecha os olhos “às dificuldades e
aos dramas que a experiência histórica concreta regista na
vida das famílias” (18). Sacramento de salvação no mundo e
no meio dos homens, a Igreja é chamada a dar testemunho do
amor materno e paterno de Deus, que se derrama sobre os
homens independentemente das suas dificuldades, crises,
fracassos e debilidades.
Tendo em conta que todas as pessoas, de um modo ou de outro,
pertencem a uma família, a Igreja quer manifestar a sua
solicitude e oferecer a sua ajuda “a quem, conhecendo já o
valor do matrimónio e da família, procura vivê-lo fielmente,
a quem, incerto e ansioso, anda à procura da verdade e a
quem está impedido de viver livremente o próprio projecto
familiar. Sustentando os primeiros, iluminando os segundos e
ajudando os outros, a Igreja oferece o seu serviço a cada
homem interessado nos caminhos do matrimónio e da família”
(19).
Na sua acção de ajuda fraterna às famílias, a Igreja
dirige-se a todas as comunidades familiares, crentes ou não
crentes. Através das suas instituições de apoio à família, a
Igreja manifesta, de forma concreta e sem discriminações, o
seu serviço à vida, o seu amor e a sua solicitude pela
família e por cada uma das pessoas que a integram.
Anunciar o Evangelho
28. Mas a solicitude da Igreja pela família manifesta-se, de
forma privilegiada, no anúncio do Evangelho.
O desígnio de Deus de dar vida e de chamar o homem à
comunhão da aliança manifestou-se, de forma plena, em Jesus
Cristo, o Filho Unigénito de Deus que se tornou pessoa «e
veio habitar no meio de nós» (Jo 1,14). Cumprindo o projecto
do Pai, Jesus fez da sua vida um dom de amor. Mostrou aos
homens, com palavras e com gestos, que a vida plena está na
comunhão com Deus e no dom de si próprio aos irmãos. A sua
morte na cruz e a sua ressurreição garantem-nos que a vida
em plenitude nasce do dom total, da entrega plena, da
comunhão com Deus e com os outros homens e mulheres. Ao
libertar o homem do egoísmo e da dureza do coração, Ele
tornou-o capaz de concretizar essa vocação ao amor que foi,
desde o princípio, inscrita por Deus no coração de cada
pessoa.
Da acção e do amor de Jesus nasce a Igreja, comunidade de
homens e mulheres que se identificam com Jesus, que aderem à
sua proposta de vida e que o seguem no caminho do amor e da
entrega. Animada pelo Espírito Santo, a comunidade eclesial
é uma família de irmãos, nascida do baptismo e alimentada da
eucaristia que, ao longo da sua peregrinação histórica pela
terra, vive e testemunha o amor, a comunhão e a
fraternidade. Corpo visível de Cristo no mundo, ela é
chamada a continuar na história a missão de Jesus: anunciar
o projecto de amor do Pai e apontar aos homens os caminhos
da vida definitiva.
Esse projecto de amor e de comunhão que a Igreja recebeu do
seu Senhor e que é chamada a anunciar a todos os homens e
mulheres, encontra no campo das relações familiares um
espaço privilegiado para se expressar, para crescer e para
se desenvolver. A família, comunhão de pessoas unidas por
laços de amor e de fraternidade, é a vivência doméstica
desse mistério de comunhão que é a Igreja. Por isso, o
Concílio Vaticano II chamou à família “Igreja doméstica”
(20).
Proclamar a novidade pascal do Sacramento do matrimónio
29. O ponto culminante da evangelização da família é a
revelação da dimensão sacramental do matrimónio, sinal do
amor esponsal de Cristo pela Igreja. Ao entregar a própria
vida ao outro, numa doação total, exclusiva e sem limites,
os esposos são sinal do amor do Esposo-Cristo, que “amou a
Igreja e se entregou a si mesmo por ela para santificá-la” (Ef
5,25-26). O amor humano inserido na história de amor que é o
plano de salvação de Deus, é testemunha de um amor maior que
o próprio homem, é imagem real do amor de Cristo pela
Igreja. O matrimónio torna-se, assim, “sacramento”, quer
dizer, realidade sagrada onde se manifesta a vida de Deus, e
sinal eficaz do amor de Deus presente na vida do mundo. Os
esposos são, pois, expressão da eterna aliança de Cristo com
a nova humanidade redimida. Esta aliança indestrutível da
qual vive a Igreja é um dom do Espírito e os esposos
vivem-na pela indissolubilidade do seu vínculo, que
manifesta como o dom de Deus é completamente irrevogável.
Já na revelação do Antigo Testamento o casamento é o sinal
da aliança de Deus com o Seu Povo e é na vivência dessa
relação de aliança que a família, realidade privilegiada de
toda a comunidade de Israel, encontra a força para o seu
aprofundamento, na fidelidade.
Para os cristãos, o sacramento do matrimónio, sinal concreto
das núpcias de Cristo com a Igreja, é a fonte de toda a luz
e de toda a graça que os esposos precisam para viver o
casamento como caminho de santidade, ou seja, de fidelidade
um ao outro e de amor a Cristo ressuscitado.
IV
A ESPIRITUALIDADE CONJUGAL COMO ESPIRITUALIDADE DE COMUNHÃO
Espiritualidade de comunhão
30. A verdadeira fonte da vida familiar é o amor de Cristo
que introduz a família na comunhão trinitária. Ao
contemplar, com os olhos do coração, o mistério da Trindade,
a família descobre a sua vocação essencial, que é a comunhão
com Deus e com os irmãos.
Faz parte da vida familiar o cuidado e fomento desse trato
pessoal e específico que permite uma comunhão de vida
explícita com Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. “É este o
múnus sacerdotal que a família cristã pode e deve exercer em
comunhão íntima com toda a Igreja, através das realidades
quotidianas da vida conjugal e familiar. Nesse sentido, a
família cristã é chamada a santificar-se e a santificar a
comunidade cristã e o mundo” (21).
A contemplação da Trindade, mistério de comunhão, deve levar
à comunhão com os irmãos, quer os que integram a comunidade
familiar, que os de fora. Isso significa “a capacidade de
sentir o irmão de fé na unidade do Corpo místico, isto é,
como «um que faz parte de mim», para saber partilhar as suas
alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios
e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma
verdadeira e profunda amizade. (...) É, ainda, a capacidade
de ver o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e
valorizá-lo como dom de Deus: um «dom para mim», como o é
para o irmão que directamente o recebeu. Por fim (...), é
saber criar espaço para o irmão, levando «os fardos uns dos
outros» (Ga 6,2)" (22).
Necessidade de tempo para a partilha da fé e para o
encontro familiar
31. Para que seja possível à família desenvolver a
espiritualidade da comunhão, é preciso prever tempos de
encontro e de partilha comunitária. A vida cristã não é
feita apenas de trabalhos, compromissos e tarefas. Nela tem
de haver, também, lugar para a contemplação agradecida do
amor de Deus, para a oração em comum, para a escuta e para a
partilha familiar da Palavra de Deus, para a celebração
familiar da fé: na partilha da fé, a família une-se e
descobre-se unida à volta da mesma vocação e do mesmo
Senhor.
A espiritualidade da comunhão desenvolve-se, ainda, nos
momentos de convívio familiar, de enriquecimento cultural,
de diálogo sereno, de partilha de conhecimentos e de
perspectivas, de procura comum dos caminhos e dos desafios
de Deus. No aprofundamento da relação familiar, a família
realiza, constrói e fortalece a sua vocação à comunhão.
A vivência do Domingo
32. O Domingo é um tempo privilegiado para a construção
familiar como realidade de comunhão. É o dia para, tal como
Deus perante a obra criada, lançar “um olhar repleto de
jubilosa complacência” (23) sobre o amor, a vida, a relação
e o trabalho realizado ao longo da semana. É um dia
“santificado” por Deus para o homem se lembrar que Deus é a
fonte da vida e do amor, que a Ele pertencem o universo e a
história, também o universo da família e a sua realidade
quotidiana de alegrias e sofrimentos. É o dia pascal, em que
celebrando a ressurreição de Cristo e o início da nova
criação, a vida e o amor se reconstroem, «fazendo novas
todas as coisas» (Ap 21,5).
Sendo o dia da Igreja, o Domingo é, também, o dia da
família, o dia da «Igreja doméstica», em que, à volta da
Eucaristia, são purificados e reforçados os laços do amor e
da unidade. Na escuta da Palavra e na participação no
sacrifício de Cristo na cruz, a família cristã identifica-se
mais com o amor esponsal de Cristo que deu a sua vida pela
Igreja, amor que é fonte do seu amor e do qual ela é sinal
no mundo.
O Domingo é, também, o dia do repouso, da alegria, da
celebração de aniversários, do convívio, do diálogo entre os
esposos e entre pais e filhos, da solidariedade (com os
parentes doentes, com os mais idosos, com as famílias em
dificuldades, com as famílias imigradas).
A celebração e a vivência do Domingo cristão será, pois,
para o casal e para a família, uma fonte de permanente
renovação do amor que impedirá o desgaste, o cansaço e o
desencanto a que poderá estar sujeita a vida conjugal e
familiar.
V
O CASAMENTO COMO VOCAÇÃO CRISTÃ
33. O matrimónio é uma vocação cristã. Todos os baptizados
são chamados à plenitude da vida cristã, à vida de filhos de
Deus. Enxertados em Cristo pelo baptismo, os cristãos
identificam-se com Cristo e procuram segui-lo no caminho do
amor e da entrega. É esse o caminho que conduz à santidade,
meta final da realização plena do homem.
Existem, no entanto, caminhos ou modos diversos de seguir
essa vocação à santidade. O matrimónio é um deles: assinala
aos casados o modo concreto como devem viver a vocação
cristã iniciada no baptismo.
Esta caminhada rumo à santidade, através da vivência do amor
matrimonial, não teria sentido, para os casais cristãos, se
não fosse feita em Igreja, pois é na Igreja que se manifesta
a plenitude da vida de Deus, caminho de santidade e de
realização do homem e da mulher.
Processo de discernimento
34. Como toda a vocação cristã, o matrimónio supõe um
discernimento, baseado não apenas na voz da natureza, mas na
perspectiva sobrenatural de quem escuta a voz do Senhor que
chama. A caminhada para o matrimónio parte do instinto -
inato e fundamental - que impele a pessoa para a plena
realização, através do amor. “O amor conjugal comporta uma
totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa -
chamamento do corpo e do instinto, força do sentimento e da
afectividade, aspiração do espírito e da vontade” (24). A
concretização desse anseio traduz-se no progressivo
amadurecimento de um projecto de amor e de comunhão, que
poderá desembocar num compromisso matrimonial.
O processo de discernimento e de amadurecimento do projecto
matrimonial supõe um longo caminho a percorrer. Ao longo
desse caminho, os candidatos ao matrimónio deverão contar
com a ajuda dos pais, dos educadores, da comunidade eclesial
e de toda a sociedade, no sentido de serem preparados para
assumir as responsabilidades que o matrimónio exige. A
comunidade eclesial, no cumprimento da sua missão
evangelizadora, estará presente ao longo de todas as etapas
que compõem esse caminho, ajudando o homem e a mulher a
descobrir o significado do matrimónio à luz do seu
compromisso baptismal, da sua fé em Cristo Senhor e na
Igreja.
Preparação remota
35. A preparação para o matrimónio começa com a infância e
inclui a adolescência. É nesse período que é infundida na
criança “a estima por todo o valor humano autêntico, quer
nas relações interpessoais, quer nas sociais, com tudo o que
significa para a formação do carácter, para o domínio e
recto uso das inclinações próprias, para o modo de
considerar e encontrar as pessoas do outro sexo” (25). É uma
etapa muito importante da educação humana e cristã que, por
isso, requer uma atenção especial. A educação ao matrimónio,
nessa fase, deve ser encarada como um processo gradual que
permita – na maturação da pessoa – ter como centro a vocação
ao amor e o reconhecimento do valor específico da
esponsalidade.
Os pais, como primeiros e principais educadores dos seus
filhos, têm o direito e o dever de os educar nesta dinâmica.
Para isso, é necessário que se esforcem no sentido de que o
seu lar seja um espaço de comunhão, de ternura, de respeito,
de fidelidade, de serviço desinteressado ao outro. Com o
exemplo e com a palavra, os pais procurarão que os filhos se
desenvolvam harmónica e progressivamente, de maneira que
cada um esteja na disposição de viver com fidelidade a
vocação recebida de Deus.
36. Esta missão dos pais deve ser complementada pelas outras
entidades que intervêm na tarefa educativa, nomeadamente a
escola e a comunidade paroquial. Toda a formação
catequética, ao revelar o sentido do baptismo e do
compromisso com Jesus Cristo, deve educar para o dom de si
próprio, para a entrega da própria vida, para a comunhão. A
catequese torna-se, assim, um espaço privilegiado de
descoberta da própria vocação ao amor. A perspectiva
matrimonial deve ser colocada, pela catequese, neste
enquadramento.
37. A juventude é, regra geral, o momento natural da eleição
de um estado, o momento em que o jovem se abre a um
horizonte mais amplo do que a sua família de origem e começa
a discernir e a amadurecer o seu próprio projecto de
realização. Nessa fase, podem aparecer itinerários de fé
explicitamente matrimoniais.
A formação espiritual e catequética dada ao jovem deverá ter
em conta essa realidade e, utilizando a linguagem e os
conteúdos apropriados, prepará-lo para assumir plenamente a
sua vocação, à luz do baptismo e do compromisso com Cristo.
Os catequistas, os animadores da pastoral juvenil e
vocacional e, em especial, os pastores deverão aproveitar os
meios e ocasiões de que dispõem para sublinhar e evidenciar
os pontos que contribuam para a preparação orientada a um
possível matrimónio: formação doutrinal no evangelho do amor
e da família, crescimento nas virtudes, espírito de
sacrifício e de doação, capacidade de comprometer-se,
progresso na vida de oração, etc. Também os movimentos, os
grupos e as demais associações paroquiais devem colaborar
nesta tarefa.
Formação próxima
38. O namoro e o noivado são uma etapa avançada na
construção do projecto matrimonial. Trata-se de uma fase em
que a pessoa já descobriu a sua vocação para o matrimónio e
coloca a concretização desse projecto num horizonte próximo.
A formação para o matrimónio, nesta fase, deve incluir um
«itinerário de fé» no qual, de maneira gradual e
progressiva, se prepare os jovens para assumir as
responsabilidades que deverão assumir no âmbito da vida
matrimonial. Tal «itinerário» formativo deverá prever uma
identificação cada vez mais plena da pessoa com Cristo e com
o compromisso baptismal; “o aprofundamento da fé pessoal, a
redescoberta do valor dos sacramentos e a experiência da
oração; a preparação específica para a vida a dois que,
apresentando o matrimónio como uma relação interpessoal do
homem e da mulher em contínuo desenvolvimento, estimule a
aprofundar os problemas da sexualidade conjugal e da
paternidade responsável, com os conhecimentos
médico-biológicos essenciais que lhe estão anexos, e os leve
à familiaridade com os métodos adequados de educação dos
filhos, favorecendo a aquisição dos elementos de base para
uma condução ordenada da família; a preparação para o
apostolado familiar, para a fraternidade e colaboração com
outras famílias, para a inserção activa nos grupos,
associações, movimentos e iniciativas que têm por finalidade
o bem humano e cristão da família” (26).
O resultado final deste período de preparação próxima deverá
ser “um claro conhecimento das notas essenciais do
matrimónio cristão: unidade, fidelidade, indissolubilidade,
fecundidade; a consciência de fé sobre a prioridade da Graça
sacramental, que associa os esposos, sujeitos e ministros do
sacramento, ao amor de Cristo Esposo da Igreja; a
disponibilidade em viver a missão própria das famílias no
campo educativo, social e eclesial” (27).
39. Neste percurso formativo, os jovens que se preparam para
o matrimónio deverão ser ajudados por toda a comunidade
cristã. Os casais comprometidos na vida eclesial poderão dar
testemunho da sua experiência matrimonial e dos valores
fundamentais do matrimónio; os catequistas e os pastores,
num clima sereno de diálogo, de amizade, de partilha e de
oração, ajudarão os jovens a descobrir as exigências do
compromisso matrimonial cristão, à luz da fé e do baptismo;
outras pessoas especializadas em várias áreas (medicina,
leis, psicologia, sexualidade), poderão ajudar os jovens a
preparar-se para enfrentar os desafios, as exigências e as
obrigações da vida matrimonial.
A preparação imediata
40. Aos casais que prevêem a celebração do seu compromisso
matrimonial num lapso de tempo relativamente curto, deve ser
proporcionada uma preparação específica. Tal preparação,
além de privilegiar o aprofundamento da doutrina cristã
sobre o matrimónio e a família, deve iniciar os noivos no
ritmo matrimonial.
Actualmente, é frequente que os noivos solicitem à Igreja o
sacramento do Matrimónio sem terem percorrido um itinerário
catequético conveniente e sem a adequada preparação, quer
próxima, quer remota. Nessas circunstâncias, é preciso
oferecer-lhes um esquema de formação que responda
adequadamente às carências que manifestam, quer no campo da
fé, quer no campo da preparação para assumir os compromissos
que o matrimónio cristão implica.
Os encontros específicos de preparação para o matrimónio são
um elemento fundamental neste processo. Não devem ser vistos
como uma simples formalidade, mas como uma oportunidade
privilegiada para “evangelizar o amor”. Os noivos não
deveriam ser dispensados desses encontros, a não ser por
motivos graves.
Além de aprofundar a doutrina cristã sobre o matrimónio e a
família no plano de Deus, a preparação imediata para o
sacramento do Matrimónio deverá ajudar os noivos a descobrir
que, enquanto baptizados em Cristo, assumem o compromisso de
viver a sua vocação matrimonial de forma coerente com a fé
recebida. A preparação imediata para o matrimónio deverá,
também, ajudar os nubentes a tomar parte consciente e activa
na celebração nupcial, de forma a que eles entendam o
significado dos gestos e dos textos litúrgicos que fazem
parte da celebração. Finalmente, a preparação deverá tornar
presente, para os noivos, a solicitude e o amor com que a
Igreja encara a comunidade familiar.
VI
A SOLICITUDE DA IGREJA TRADUZIDA EM ACÇÕES CONCRETAS
Aprofundamento da realidade familiar
41. Depois da celebração do seu compromisso matrimonial, o
casal cristão inicia a sua caminhada quotidiana. Nesse
caminho, pejado de desafios e de dificuldades de toda a
ordem, a família tem o direito de esperar da comunidade
eclesial a ajuda necessária para aprofundar a vivência do
seu matrimónio e dos valores que lhe são inerentes.
Assim, a Igreja procurará ter “para todas as famílias uma
palavra de verdade, de bondade, de compreensão, de
esperança, de participação viva nas suas dificuldades por
vezes dramáticas; a todas oferecerá ajuda desinteressada, a
fim de que possam aproximar-se do modelo de família que o
Criador quis desde o «princípio» e que Cristo renovou com a
graça redentora” (28).
42. Os meios normais da Graça - a Palavra e os sacramentos -
constituirão meios privilegiados através dos quais a Igreja
ajudará a comunidade familiar a aprofundar o seu compromisso
e a sua vocação. “Com o anúncio da Palavra de Deus, a Igreja
revela à família cristã a sua verdadeira identidade, o que
ela é e deve ser segundo o desígnio do Senhor; com a
celebração dos sacramentos, a Igreja enriquece e corrobora a
família cristã com a graça de Cristo em ordem à sua
santificação para a glória do Pai; com a proclamação
reiterada do mandamento novo da caridade, a Igreja anima e
guia a família cristã ao serviço do amor, a fim de que imite
e reviva o mesmo amor de doação e sacrifício, que o Senhor
Jesus nutre pela humanidade inteira” (29).
Movimentos associativos de famílias
43. As associações familiares têm um papel de relevo, quer
na ajuda ao desenvolvimento humano e espiritual das
famílias, quer na defesa dos valores da família.
Algumas destas associações têm como finalidade ajudar os
casais e as famílias a descobrirem o projecto de Deus sobre
a família; outras fomentam a união das famílias na defesa
dos seus direitos, ajudando-as a oporem-se aos poderes
públicos e privados que ferem a dignidade da instituição
familiar; outras colaboram com a escola na educação das
crianças e dos jovens; outras lutam pela justiça e pela
dignidade dos mais débeis e carenciados; outras, ainda,
promovem a defesa da vida humana, opondo-se a tudo aquilo
que promove a «cultura da morte». No seu conjunto, estas
associações constituem um importante suporte para que as
famílias possam viver na fidelidade à sua vocação essencial.
A pastoral familiar deve suscitar a criação de associações
que estejam ao serviço da família e incentivá-las na sua
meritória acção. Esforçar-se-á, também, por fomentar a
actuação coordenada e conjunta destas associações pelos
meios mais adequados, a fim de que os verdadeiros valores da
família sejam apresentados à nossa sociedade de forma
credível e consistente.
A missão específica dos bispos e dos presbíteros na
pastoral familiar
44. Toda a comunidade eclesial deve sentir a
responsabilidade de ajudar as famílias a viverem de forma
coerente a sua vocação matrimonial; no entanto, os bispos e
os presbíteros, como pastores do Povo de Deus, têm uma
especial responsabilidade na pastoral familiar.
O bispo é “o primeiro responsável da pastoral familiar na
diocese” e deve estar atento “de um modo particular a este
sector pastoral, sem dúvida prioritário” (30). Como pastor,
ele procurará apoiar pessoalmente as famílias, sobretudo
aquelas que enfrentam problemas graves e que necessitam de
se reencontrar no caminho da esperança. A atenção e a
solicitude do bispo para com a família traduzir-se-ão,
também, na disponibilização de pessoas e de recursos que
dêem corpo a uma pastoral familiar consequente. Compete-lhe,
ainda, apoiar pessoalmente todos aqueles que, integrados nas
diversas estruturas diocesanas ou nas associações de defesa
da família, se esforçam por levar às famílias o anúncio do
Evangelho da vida.
No âmbito da comunidade cristã, o bispo “não deixará de
encorajar a preparação dos noivos para o matrimónio, o
acompanhamento dos jovens casais e a formação de grupos de
famílias que apoiem a pastoral familiar e, não menos
importante, sejam capazes de ajudar as famílias em
dificuldade. A proximidade do bispo aos cônjuges e aos seus
filhos, inclusive através de iniciativas de vários géneros
com carácter diocesano, será para eles de seguro conforto”.
Pertence, também, ao bispo “fazer com que sejam sustentados
e defendidos os valores do matrimónio na sociedade civil,
através de justas decisões políticas e económicas”.
“Considerando as tarefas educativas da própria família
(...), é necessário que o bispo apoie e qualifique a obra
das escolas católicas, promovendo a sua aparição, onde não
existam, e solicitando, na medida que puder, as instituições
civis para que favoreçam uma efectiva liberdade de ensino no
país” (31).
45. A solicitude da Igreja para com a família também deve
estar bem presente no ministério dos presbíteros. É parte
fundamental da sua missão anunciar o Evangelho do amor e da
família, e “comportar-se constantemente, em relação às
famílias, como pai, irmão, pastor e mestre, ajudando-as com
os dons da graça e iluminando-as com a luz da verdade” (32).
A responsabilidade do presbítero, no campo da pastoral
familiar, não se limita ao ensino da recta doutrina ou ao
momento da celebração do compromisso matrimonial; mas deve
acompanhar as famílias na sua caminhada quotidiana,
sustentá-las no meio das dificuldades e sofrimentos, apoiar
solidariamente aqueles que têm dificuldade em avançar,
recordar a todos os valores do Evangelho, ser para os
membros da família um sinal do amor, da misericórdia e da
ternura de Deus.
Aos sacerdotes empenhados na pastoral paroquial compete,
também, velar para que as estruturas e os agentes pastorais
da sua comunidade ajudem as famílias a viver na fidelidade à
sua vocação. Compete-lhes, ainda, programar e animar as mais
diversas iniciativas no âmbito da pastoral familiar:
encontros e conferências sobre temas ligados à família,
grupos de casais, jornadas de sensibilização para os
problemas das famílias, tempos de reflexão e de oração que
envolvam as famílias, criação de equipas de apoio à formação
de noivos e de ajuda aos casais jovens).
A acção pastoral da Igreja em relação às famílias em
situação particularmente difícil
46. Os divorciados recasados - A crise da instituição
familiar encontra, no nosso tempo, a sua mais dramática
expressão na fragilidade do vínculo matrimonial. Muitos
casamentos, mesmo celebrados canonicamente entre fiéis
católicos, acabam no divórcio civil e dão frequentemente
origem a um segundo casamento por parte de ambos ou, pelo
menos, de um dos cônjuges divorciados. A extensão do
fenómeno e o facto de esse segundo casamento não poder ser
sacramental, colocando os crentes em ruptura de consciência
perante a Igreja como comunhão e caminho de fidelidade a
Jesus Cristo, está a transformar-se num problema de grandes
dimensões existenciais e, consequentemente, pastorais para a
própria Igreja. É por isso que o Papa, na Familiaris
consortio afirma que “este problema deve ser enfrentado com
urgência inadiável” (33).
É já abundante o ensinamento do Magistério, sobretudo
pontifício, a este respeito (34). A nós compete-nos, na
fidelidade a esse Magistério e na comunhão da Igreja
Universal, apresentar concretizações pastorais que levem a
essas famílias a esperança da salvação e a tranquilidade
possíveis em tais circunstâncias.
Partimos da afirmação clara da solicitude maternal da Igreja
por esses seus filhos a quem as dificuldades da vida,
aliadas à fraqueza humana, colocaram em situação difícil. A
Igreja não os abandona e esforçar-se-á infatigavelmente por
proporcionar-lhes os meios de salvação, porque “está
firmemente convencida de que, mesmo aqueles que se afastaram
do mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderão
obter de Deus a graça da conversão e da salvação” (35). Isto
mesmo lhes diz João Paulo II, em palavras repassadas de amor
pastoral: “Saibam estes homens e estas mulheres que a Igreja
os ama, não está longe deles e sofre pela sua situação”
(36). Esse deve ser o primeiro fruto da nossa solicitude
pastoral: fazer com que eles não se sintam abandonados ou
excluídos da Igreja.
As orientações pastorais, que ajudarão estes cristãos a
encontrarem o seu lugar na Igreja e o seu caminho peculiar
de salvação, deverão ter em conta os seguintes aspectos:
* A objectividade de uma situação existencial específica. Na
Igreja, os caminhos de salvação integram o realismo das
situações. Não seria um bom caminho procurar minimizar a
situação concreta, do ponto de vista humano e espiritual,
tentando considerar normal o que o não é, na perspectiva da
exigência cristã da salvação. É um caminho de confiança, mas
também de humildade, características de uma atitude
penitencial perante Cristo e a Sua Igreja. A verdade do
matrimónio indissolúvel, expressão da fidelidade cristã e da
total comunhão dos esposos – um com o outro e ambos com
Cristo e com a Sua Igreja – não pode ser ofuscada ou posta
em questão por uma compreensão pastoral de facilidade. A
principal concretização desta humildade exigente é a
privação da comunhão eucarística, principal expressão da
completa comunhão de vida com Cristo, na fidelidade às
exigências de santidade que brotam da Sua Páscoa. Devemos
ajudar esses irmãos a não considerarem tal privação como
expressão de uma marginalização ou exclusão da Igreja, mas
ajudá-los a vivê-la como expressão da santidade da
Eucaristia. O sofrimento que essa privação lhes provoca
poderá ajudá-los a aprofundar a sua fé e o seu amor à
eucaristia, traduzidos na adoração eucarística e na
purificação do desejo de participar, um dia, no banquete
definitivo da Jerusalém celeste.
* Em comunhão com toda a Igreja. A procura de soluções
pastorais para estas situações torna exigente a nossa
comunhão com toda a Igreja de Cristo. Elas não podem ser o
resultado de uma compreensão facilitante de um sacerdote, de
um Movimento, de uma circunstância. Essas soluções
facilitantes podem ser simpáticas e acolhedoras, mas não
exprimem a generosidade de quem quer estar em comunhão com
toda a Igreja, que é o caminho objectivo da salvação.
* A necessidade de um discernimento. Ele é exigido pela
situação de cada pessoa e de cada casal perante Deus e a
busca da fidelidade. O Magistério convida-nos a dar uma
atenção particular ao cônjuge inocente, isto é, aquele ou
aquela que não foi responsável, pela sua infidelidade, da
ruptura do vínculo matrimonial sacramental. Além do caminho
espiritual, específico para cada pessoa, pode fazer parte
deste discernimento o verificar se o matrimónio canónico,
rompido pelo matrimónio civil, esteve ferido de alguma causa
de nulidade. Sabemos que isso pode acontecer, devido à
complexidade da cultura ambiente ou a uma deficiente
preparação para o casamento. Esforçar-nos-emos, em conjunto,
por tornar os nossos Tribunais Eclesiásticos capazes de
responder atempadamente ao julgamento das causas de nulidade
matrimonial que lhes forem apresentadas.
* A valorização de todos os meios de salvação. Procurar os
caminhos da fidelidade cristã nesta situação difícil supõe o
cultivo de uma espiritualidade específica, em que se
valorize a meditação da Palavra de Deus e a oração. São
meios poderosos de encontro com Deus, de reconciliação e de
construção da paz interior, que desabrocham na vivência da
caridade. Para além da participação nas habituais
assembleias da comunidade cristã – de modo particular na
assembleia eucarística dominical – estes cristãos devem ser
ajudados a progredir na experiência da oração, com a
densidade e a confiança que lhes advêm da sua situação
concreta. Saudamos algumas experiências em curso de
constituir grupos de casais nestas situações, onde os
caminhos de uma especificidade espiritual podem ser
aprofundados.
* A participação criteriosa na missão da Igreja. Estes
nossos irmãos são chamados, como qualquer outro cristão, a
participar na vida da comunidade cristã e na missão da
Igreja, o que exige um discernimento criterioso das
circunstâncias, feito, sobretudo, pelos sacerdotes em
diálogo com o seu Bispo. Se as diversas formas da missão da
Igreja no mundo, na animação cristã da ordem temporal e na
prática organizada da caridade e do serviço dos irmãos não
apresentam dificuldades especiais, já a missão de educadores
da fé, sobretudo das crianças e dos jovens, exige um
discernimento mais cuidado, devido à importância que o
testemunho pessoal de vida tem nesses mesmos educadores.
Nenhuma forma de missão lhes é liminarmente negada, desde
que o discernimento das circunstâncias seja feito na
humildade e na verdade. Como em todas as circunstâncias,
qualquer forma de participação na missão da Igreja tem de
ser concebida como um serviço a Jesus Cristo e não como
busca de normalidade de uma situação irregular perante o
ideal da vida cristã.
Outras soluções mais aprofundadas para este problema da
Igreja do nosso tempo só podem ser procuradas pela Igreja
toda, sob a orientação dos Sucessores dos Apóstolos: o Santo
Padre e o Colégio Episcopal.
47. As famílias monoparentais - A realidade das famílias
monoparentais é uma realidade multifacetada. A pastoral
familiar deve tomar em consideração as diversas
circunstâncias de cada uma destas famílias e procurar, caso
a caso, a fórmula adequada para acompanhar e ajudar os seus
membros.
De modo particular, as instituições eclesiais de apoio que
lidam com crianças oriundas de famílias monoparentais devem
preocupar-se em minorar as lacunas que supõem, para a
educação da pessoa, a falta da imagem do pai ou da mãe.
Devem, igualmente, ter em conta, na sua acção, programação e
projectos, a frequente exiguidade dos recursos económicos
destas famílias, bem como a previsível dificuldade de
conciliação do horário laboral do chefe de família com o
cuidado dos filhos. As instituições eclesiais de apoio à
família que lidam com esta realidade podem e devem ser,
neste âmbito, o rosto visível do amor e da solicitude da
Igreja por estas famílias.
48. As famílias com filhos portadores de deficiência - No
seguimento do seu Fundador, que manifestou uma especial
predilecção por toda a espécie de doentes e deficientes a
quem acolhia com amor e curava dos seus males, a Igreja
dedica uma atenção especial e um olhar cheio de amor às
pessoas afectadas por qualquer tipo de deficiência. É missão
da Igreja fazer-lhes chegar a Boa Nova da libertação que vem
do Senhor Jesus e ajudar as famílias a lidar com os limites
que estão associados à deficiência.
A acção da Igreja junto das famílias com pessoas portadoras
de deficiência deverá consistir, antes de mais, em ajudá-las
a assumir a deficiência como uma participação na cruz de
Cristo: com o seu sofrimento, quer a pessoa portadora de
deficiência, quer a sua família completam na própria carne o
que falta à Paixão de Cristo, em favor de toda a humanidade
sofredora (cfr. Col 1,24). Além disso, a comunidade eclesial
procurará ajudar a família a ver, no esforço da educação da
pessoa portadora de deficiência, um esforço de dignificação
da pessoa humana, que nobiliza a família e a faz crescer no
amor conjugal e familiar. Será, ainda, missão da Igreja,
através das suas instituições de apoio social, ajudar a
família, quer na prestação de cuidados especiais à pessoa
portadora de deficiência, quer na sua promoção, integração e
dignificação.
As comunidades paroquiais, os movimentos e obras eclesiais
tenham em conta, ao organizarem as suas celebrações
litúrgicas e actividades pastorais, as situações especiais
das pessoas portadoras de deficiência. Elas devem ser vistas
como pessoas “que merecem especial carinho, precisam de
acolhimento apropriado e têm direito ao conforto que lhes
vem de Deus, através da participação activa nas celebrações
litúrgicas e da admissão aos sacramentos de iniciação
cristã, na medida das suas possibilidades e em conformidade
com as normas da Igreja” (37).
Os responsáveis nacionais e locais da pastoral catequética
devem cuidar da elaboração de materiais pedagógicos que
ajudem os pais e os catequistas a levarem a cabo a sua
responsabilidade na transmissão da fé às crianças portadoras
de deficiência.
A atenção particular da comunidade eclesial aos casais
jovens
49. Os primeiros anos que se seguem à celebração do
matrimónio têm uma importância fundamental na estruturação
da comunidade familiar; da forma como a família se organiza,
nessa fase, depende em grande parte o êxito nas etapas
posteriores.
Após o compromisso matrimonial, o projecto de amor do homem
e da mulher concretiza-se numa vida em comum, vivida dia a
dia no dom, na entrega e na partilha total. Trata-se de uma
importante mudança na vida dos esposos, que exige de cada um
deles uma grande capacidade de atenção ao outro, de
generosidade, de compreensão, de tolerância, de perdão e de
renúncia aos próprios esquemas pessoais. As novas
responsabilidades, o nascimento dos primeiros filhos, os
diversos problemas e desafios que diariamente se colocam à
vida familiar, irão exigir do casal uma grande capacidade de
adaptação e pôr à prova a maturidade do seu amor.
A comunidade eclesial deve, portanto, dedicar uma especial
atenção aos casais jovens, no sentido de os ajudar a
descobrir e a viver a sua vocação e missão. Essa ajuda,
sempre necessária, é ainda mais urgente se, como acontece
frequentemente, existem carências na vida cristã e na
formação dos novos casais.
50. Antes de mais, a comunidade paroquial deverá fazer um
esforço no sentido de inserir os casais jovens numa dinâmica
comunitária paroquial. A paróquia deverá, nesse sentido,
utilizar a sua imaginação e a sua criatividade para promover
estruturas de acolhimento, de acompanhamento e de inserção
apostólica dos casais jovens.
A ajuda da comunidade eclesial aos casais jovens deve
traduzir-se, em primeiro lugar, numa discreta presença
solidária, de forma a que eles não se sintam isolados ou
abandonados no seu esforço constante de superação das
dificuldades.
A comunidade eclesial deverá preocupar-se, também, com a
formação humana e espiritual dos esposos, a fim de que, ao
longo da sua caminhada de amor partilhado sejam capazes de
levar a cabo o seu projecto comum de existência matrimonial
e familiar como resposta ao dom de Deus. Para responder a
essa necessidade, a comunidade paroquial poderá programar
actividades diversas dirigidas à formação dos esposos nos
diversos âmbitos da sua missão: catequese familiar,
catequese de adultos, conferências, retiros, encontros de
formação. Considerando as novas situações que se deparam aos
casais novos, em particular a passagem da comunidade
conjugal à comunidade familiar com o nascimento dos filhos,
a comunidade paroquial procurará dar continuidade à formação
recebida na preparação do matrimónio com o tratamento dos
temas do amor conjugal, do serviço à vida e da educação dos
filhos.
Certos momentos-chave da vida das famílias - o baptismo, a
primeira comunhão, a confirmação ou a escolha de um estado
de vida dos filhos - deverão ser acompanhados de forma
especial pela Igreja e constituir oportunidades de
aproximação da família à comunidade e da comunidade à
família. Outras situações - o nascimento e a educação dos
filhos, o trabalho, a doença, a morte - exigem um
acompanhamento especial da comunidade eclesial, de forma a
que a família se sinta sempre apoiada nas suas alegrias e
tristezas, na sua vocação e missão.
51. As famílias que contam já com experiência do matrimónio
e da família, deverão procurar pôr ao serviço dos outros a
própria experiência humana. Para concretizar esse objectivo
deve impulsionar-se a formação de grupos de casais que
facilitem o diálogo e a comunicação de experiências, que
tenham os seus próprios esquemas de formação continuada, e
que desempenhem a missão de acolher e de acompanhar os
casais que se aproximam da paróquia por algum motivo
familiar.
VII
A PRESENÇA E A ACÇÃO DAS FAMÍLIAS CRISTÃS NA IGREJA E NO
MUNDO
Acção e missão da família na Igreja
52. A família, como “Igreja doméstica”, participa na missão
da Igreja e, portanto, está “ao serviço da edificação do
Reino de Deus na história” (38).
O “dom” especial que a família, fiel à sua vocação
essencial, oferece à Igreja e ao mundo, é o anúncio
quotidiano do Evangelho do amor e da vida.
Como comunidade de fé que encontra a sua raiz no baptismo e
no sacramento do matrimónio, a família é chamada à
santidade. Essa vocação à santidade concretiza-se por meio
da “caridade conjugal”, que é sinal e testemunho do amor de
Cristo pela sua Igreja. Ser, através do amor dos esposos,
“imagem viva e real daquela unidade singularíssima que torna
a Igreja o indivisível Corpo Místico do Senhor” (39), é a
primeira grande missão da família.
53. Para poder ser fiel a esta missão, a família cristã
deverá, cada dia, sustentar-se com os meios da graça que a
Igreja põe à sua disposição.
Através da escuta e do acolhimento da Palavra de Deus, a
família descobre permanentemente a beleza e a dignidade a
que Cristo elevou o matrimónio e a vida familiar,
constituindo-os sacramento da aliança entre Deus e a
humanidade, sinal visível do amor de Cristo pela Igreja;
através da Eucaristia, a família cristã celebra a comunhão
com Cristo, identifica-se com ele, compromete-se a segui-lo
numa entrega de amor sem limites; através do sacramento da
Reconciliação, a família cristã celebra o perdão de Deus e o
perdão mútuo, reconstrói e aperfeiçoa a aliança conjugal e a
comunhão familiar; através da oração, a família eleva a Deus
a sua vida, as suas alegrias e tristezas, esperanças e
fragilidades, experimentando a presença de Cristo que
prometeu estar com os que se reúnem em seu nome.
54. Os esposos cristãos são chamados a tornar o amor de Deus
presente, antes de mais, na própria realidade quotidiana da
vida familiar. A família é o espaço privilegiado de encontro
com o amor, o primeiro lugar onde os filhos aprendem e
interiorizam os valores perenes. É na família que eles,
confrontados com o amor fiel e comprometido dos pais,
descobrem o significado do dom generoso da própria vida, da
partilha, do serviço, do diálogo, do perdão, da tolerância,
da compreensão; é no ambiente familiar que eles, educados
pela sensibilidade dos pais, aprendem a escutar e a
interiorizar a Palavra de Deus e a responder com
generosidade aos desafios de Deus; é na “Igreja doméstica”
que eles, educados pela piedade dos pais, aprendem a
importância da oração e da confiança incondicional no amor
previdente de Deus; é no enquadramento familiar que eles,
despertados pela fé e pelo compromisso eclesial dos pais,
tomam consciência da sua fé, do seu baptismo, da sua
pertença à Igreja e da sua missão no mundo.
Faz igualmente parte da missão dos pais a educação dos
filhos para o amor, que engloba a afectividade e a
sexualidade. A educação da afectividade e da sexualidade
deve ser feita, em primeiro lugar, na família de forma
positiva e iluminada pelo Evangelho.
Os modos familiares de viver “podem alimentar as disposições
afectivas, que durante toda a vida permanecem como autêntico
preâmbulo e esteio de uma fé viva” (40).
55. A família, enquanto comunidade de fé e de vida, oferece
as condições favoráveis para o desabrochar das vocações. A
vida da fé, o seguimento de Jesus Cristo, a oração, a escuta
atenta de Deus e dos seus projectos, a partilha do amor, a
harmonia da vida familiar, a educação para o serviço e para
o dom da vida, a abertura aos outros, constituem o ambiente
adequado para a escuta do chamamento de Deus e para uma
resposta generosa aos seus apelos e desafios.
A família deve ser o primeiro e o melhor seminário da
vocação à vida de doação a Deus e aos irmãos. Os pais, no
cumprimento da sua missão, devem educar os filhos para
seguir o Senhor em qualquer dos possíveis caminhos
vocacionais, nomeadamente no da vocação consagrada. Não
devem sentir receio de que os seus filhos abram o coração à
radicalidade do chamamento de Deus; devem, pelo contrário,
sentir-se felizes pelas escolhas corajosas e generosas dos
seus filhos.
56. A família deverá ser, também, um sinal vivo e concreto
do amor e da salvação de Deus no seio da comunidade
paroquial. Com o seu testemunho de uma vida coerente com o
Evangelho, com o testemunho do amor conjugal e familiar, com
a transmissão responsável da vida e com a educação dos
filhos, a família desafia e ajuda a comunidade eclesial a
crescer, a ser sinal eficaz do amor de Deus, a viver de
forma mais fiel e coerente a sua missão no meio dos homens.
Faz também parte da missão da família colaborar com a
paróquia no acolhimento das pessoas e das outras famílias
que procuram, no encontro com a comunidade paroquial, fazer
a experiência do amor e da salvação de Deus. Hoje, com
frequência, o espaço geográfico da paróquia é uma área muito
populosa, habitado por famílias desenraizadas e sem
referências, muitas vezes marcadas por realidades de crise,
de ruptura, de solidão, de carência, de doença e de
sofrimento. A comunidade paroquial é, frequentemente,
interpelada por estas realidades e tem de saber ser um
espaço de acolhimento, onde todos possam encontrar ajuda e
solidariedade.
Ora, pelas suas características próprias, a família cristã
está vocacionada para desenvolver este apostolado no meio
das famílias, seja de modo espontâneo (laços de sangue,
vizinhança), seja de modo organizado (através das estruturas
paroquiais de apoio). Em qualquer caso, a família cristã é
chamada a colaborar com a comunidade paroquial no sentido de
anunciar, através de gestos concretos, o amor, a bondade, a
ternura, a misericórdia de Deus.
É tarefa das famílias cristãs iluminar os dramas humanos que
marcam a vida de tantas famílias com a luz da Palavra de
Deus; é tarefa das famílias cristãs ajudar as famílias em
dificuldade, acolher os abandonados e marginalizados,
partilhar com os necessitados, devolver a esperança aos que
vivem no desespero, construir a civilização do amor e da
vida.
Dentro da comunidade paroquial, a família deverá, ainda, ter
um importante papel no âmbito dos movimentos de apostolado
familiar, no desenvolvimento de uma verdadeira
espiritualidade familiar, no acolhimento e formação dos
noivos, no acompanhamento dos casais jovens, nas equipas de
casais, nos encontros de preparação para o matrimónio e para
o baptismo, nas equipas de apoio social às famílias
necessitadas. É um apostolado qualificado, que a família,
pelas suas características específicas, está vocacionada
para levar a cabo.
57. Há outros movimentos laicais de âmbito supra-paroquial
que colaboram activamente na tarefa evangelizadora da
Igreja. Alguns desses movimentos reúnem casais e até
famílias: são os movimentos de espiritualidade e apostolado
conjugal e familiar, que procuram ajudar as famílias a
descobrir a sua vocação e missão, a serem testemunhas e
arautos do projecto de Deus para a família.
O envolvimento das famílias cristãs nestes movimentos, com o
seu testemunho de vida, com os seus valores e com o seu
testemunho, possibilitará um dinamismo missionário e
apostólico que em muito contribuirá para o êxito de uma nova
evangelização.
Acção e missão da família cristã na sociedade
58. A família, chamada a testemunhar o amor de Deus no
mundo, não pode alhear-se da sua responsabilidade de
intervir nos vários níveis sociais onde se decide o destino
do homem. A sua acção deve concretizar-se no sentido de
tornar presente, na vida quotidiana, os dois valores
essenciais que estão inscritos na sua vocação: o amor e a
vida.
A intervenção da família na sociedade e na Igreja, sendo um
direito que lhe assiste em ordem a salvaguardar os seus
legítimos interesses, é sobretudo um dever indeclinável que
nasce da sua missão de “guardar, revelar e comunicar o amor”
(41).
59. A escola constitui hoje um espaço muito importante de
intervenção responsável das famílias, sobretudo através da
participação dos pais na elaboração do projecto educativo da
escola, da sua presença nos órgãos em que os pais têm
representação (assembleia de escola, ou de agrupamento de
escolas, e conselho pedagógico), do diálogo frequente com os
directores de turma e outros professores. A ausência de
muitos pais – nomeadamente cristãos – nas escolas permite
que minorias se apoderem dos instrumentos de participação
existentes e os utilizem para fins que não servem os
direitos e interesses da maioria das famílias.
Faz parte da função da escola ajudar os pais a descobrir e a
aprofundar a sua responsabilidade na educação dos filhos. É
de louvar e incentivar a criação de “escolas de pais”.
60. As famílias cristãs devem ter um papel importante no
apoio e na solidariedade às famílias em situação difícil. A
este nível, a intervenção das famílias cristãs deve ser
feita, não como serviço social nem como voluntariado
simplesmente humanitário, mas como manifestação da dimensão
diaconal da «Igreja doméstica», dentro da diaconia da
Igreja: com Cristo ao serviço dos que mais necessitam.
Esta diaconia exprime-se, antes de mais, no acolhimento e na
entreajuda com as famílias em situação irregular ou difícil;
mas exprime-se, também, na prevenção de situações
fracturantes, quer por uma cuidadosa preparação para o
matrimónio, quer por um quadro legislativo de apoio eficaz à
família, quer por um atendimento feito por mediadores
familiares, devidamente preparados e animados pelo espírito
do Evangelho.
61. Também faz parte da missão essencial da família cristã
na sociedade, defender e promover uma autêntica cultura da
vida. Isso inclui a formação para a paternidade responsável,
na fidelidade ao Magistério da Igreja. Inclui, também, a
formação dos filhos na afectividade e na sexualidade, de
modo que eles cheguem a alcançar uma recta consciência e
possam agir de acordo, não com modas ou influências
exteriores, mas com os valores aprendidos do Evangelho e dos
ensinamentos da Igreja. Inclui, ainda, a defesa da vida em
todas as circunstâncias, desde o nascimento até à morte. A
preocupação com a vida inclui a defesa da justiça social, do
direito ao trabalho justamente remunerado, do direito à
habitação condigna e ao acesso oportuno aos serviços de
saúde, do direito das pessoas portadoras de deficiência
serem inseridas na vida familiar, social e profissional, do
direito dos mais idosos serem integrados na comunidade
familiar e na sociedade.
O apoio à vida nascente, desde o momento da concepção, é uma
das formas de defesa e promoção da vida. Reconhecendo que
para algumas mães a maternidade não desejada constitui um
grave problema, as famílias cristãs devem, em associação,
antecipar-se ao dever do Estado em defender a vida humana e
oferecer respostas de ajuda às mães nessa situação, através
de diversos tipos de instituições e iniciativas.
Os direitos das famílias face ao Estado
62. As famílias cristãs, juntamente com todas as famílias
que se reconhecem unidas por um matrimónio fundado numa
aliança de amor fiel e fecundo entre um homem e uma mulher,
têm o direito e o dever de exigir da sociedade política e
juridicamente organizada a defesa e a promoção da dignidade
do matrimónio e da família, o respeito pelos seus direitos,
a liberdade da sua intervenção.
Este direito, que é também dever, fundamenta-se na origem e
na natureza da família como comunidade social original. O
Estado, no conjunto das suas instituições, está ao serviço
da família, pois esta é o bem mais precioso da sociedade
organizada e como tal deve ser protegida, apoiada e
promovida.
Como lembra João Paulo II, “a sociedade, e mais
especificamente o Estado, devem reconhecer que a família é
«uma sociedade que goza de direito próprio e primordial» e
portanto nas suas relações com a família são gravemente
obrigados ao respeito do princípio de subsidiariedade” (42).
A intervenção das famílias junto dos poderes públicos e das
instituições que mais directamente agem sobre a sua vida, os
seus direitos e deveres, deve exigir que seja não só
permitido, mas especialmente apoiado o associativismo – as
“Associações de Famílias”, as “Associações de Pais” –
considerando que é um bem para a sociedade a participação
activa e permanente das famílias na vida política, económica
e cultural da sociedade.
63. As famílias esperam que os poderes públicos desenvolvam
uma política familiar global, integrada e coerente que tenha
em vista revigorar a coesão comunitária da família e, por
ela, da sociedade.
Entre os direitos que a família justamente reclama perante o
Estado, salientamos os seguintes: que seja protegido o
reagrupamento familiar em situações de necessidade de
ausência prolongada de um dos cônjuges; que seja o mais
prolongada possível a permanência da mãe – e, em certos
casos, do pai – junto dos filhos ainda pequenos; que seja
praticada uma política de habitação que proporcione a cada
família um espaço condigno de residência adequado à sua boa
convivência e ao exercício da sua liberdade procriativa; que
não sejam legalmente aceites as limitações de emprego a
mulheres grávidas ou que desejam engravidar.
As famílias mais pobres e abandonadas, as que vivem em
situação precária de saúde, em situação de risco, as que têm
idosos, deficientes e outros dependentes a seu cargo, devem
ser privilegiadas pelas políticas e intervenções especiais
dos poderes públicos.
64. A legislação – sobretudo laboral, fiscal e da segurança
social – deve ser objecto de permanente e cuidadoso exame em
tudo aquilo que tenha algum reflexo na vida das famílias,
nos seus direitos e deveres, na sua estabilidade económica e
psicológica, na sua missão educativa, no serviço que presta
aos cidadãos na velhice, invalidez, viuvez e orfandade, em
situação de desemprego e de outras formas de precariedade de
recursos.
Constitui uma profunda injustiça e um desrespeito pela
família que certos cuidados prestados em instituições sejam
financeiramente mais apoiados do que aqueles que são
prestados na família.
65. Às famílias deve ser assegurado o direito de decidir,
responsavelmente, o número de filhos. As famílias numerosas
devem ser especialmente apoiadas, com políticas sociais,
fiscais, laborais e educativas apropriadas.
66. É necessário que os poderes públicos reconheçam o valor
social da família e da sua especial capacidade de educar as
novas gerações no amor e para o amor, no desenvolvimento da
afectividade, na gratuidade e no respeito pelo outro, na
dedicação ao bem comum. É necessário também que os poderes
públicos respeitem o direito que os pais têm de escolher a
escola e o projecto educativo de acordo com as opções
educativas, morais e religiosas que, em liberdade, decidiram
para os seus filhos. O respeito por este direito natural,
que também é reconhecido constitucionalmente no nosso País,
implica que sejam criadas situações de igualdade para todas
as opções e que nenhuma discriminação, nomeadamente ligada
ao financiamento, limite a liberdade dos pais.
Particular atenção deve ser dada à formação religiosa nas
escolas, garantindo que as escolhas dos pais neste campo
sejam respeitadas. As escolas públicas não podem impor
nenhuma orientação ideológica de qualquer natureza,
nomeadamente religiosa, mas têm o dever de, por um lado,
integrar nos seus currículos a realidade religiosa, a qual
faz parte da existência humana e da cultura dos povos; por
outro lado, devem garantir que conteúdos, comportamentos e
atitudes constantes dos currículos possam ser, para os
alunos cujos pais o peçam, leccionados e reflectidos à luz
das opções religiosas por eles assumidas. Tal é a finalidade
da disciplina de Educação Moral e Religiosa no seio das
outras disciplinas em meio escolar e que constitui um
instrumento a que os pais católicos e de outras confissões
religiosas têm o direito de recorrer.
67. Os pais são os primeiros responsáveis pela educação
afectivo-sexual dos filhos; contudo, é tarefa da escola
ajudar os pais na educação para a sexualidade responsável.
É importante que os pais, os professores e os outros agentes
da educação, em diálogo e parceria, se esforcem por dar aos
jovens, no que diz respeito à sexualidade, uma educação
completa e concertada, psicológica e sociologicamente
integrada, capaz de criar homens e mulheres equilibrados nos
seus afectos e sensibilidades.
Os pais, fiéis ao dever de acompanhar a formação integral
dos filhos, devem procurar conhecer o tipo de educação
sexual que a escola se propõe oferecer, bem como os
objectivos que os programas de educação sexual pretendem
atingir. Devem, também, ter o direito de recusar que a
escola dê aos seus filhos uma educação sexual que vá contra
os seus valores.
A família e os meios de comunicação social
68. A recente expansão do mercado das comunicações trouxe
oportunidades excepcionais para o enriquecimento da vida dos
indivíduos e das famílias. Numerosas famílias - mesmo de
recursos relativamente modestos - têm agora oportunidades
ilimitadas de acesso à informação e à educação, de expansão
cultural, de confronto com realidades e valores diversos, e
até mesmo de crescimento espiritual.
As imensas possibilidades que a nova realidade comporta
constituem, como diz o Papa, “um risco e uma riqueza”43 . Os
meios de comunicação social podem formar para os valores da
vida e da família e educar para o respeito pela dignidade da
pessoa humana; mas podem, também, contribuir para criar uma
visão deformada e negativa destas realidades, atentando
contra a estabilidade da família e prejudicando o
desenvolvimento harmónico dos indivíduos que compõem a
comunidade familiar.
Aos profissionais da comunicação social compete usar bem a
responsabilidade que lhes é confiada e promover os valores
que ajudem à consolidação da família como realidade
indispensável ao bem da sociedade. Às autoridades públicas
pede-se que, sem recorrer à censura, criem mecanismos de
regulação para garantir que os meios de comunicação não ajam
contra o bem da família.
Os pais, como primeiros responsáveis pela educação dos seus
filhos, devem estar atentos à repercussão que as propostas
apresentadas pelos meios de comunicação social têm na
formação dos mais jovens e “educar a consciência dos filhos
na expressão de juízos serenos e objectivos que depois guiem
na escolha e rejeição dos programas propostos” (44); devem,
também, regular o uso dos meios de comunicação em casa,
fazendo da diversão que eles proporcionam uma verdadeira
experiência familiar e não deixando que o seu uso imoderado
elimine o tempo para o convívio, para o encontro, para a
comunhão e para o diálogo familiar.
CONCLUSÃO
69. A família é um espaço privilegiado onde o amor de Deus
se manifesta e a partir do qual atinge o mundo e a vida dos
homens. Nela revela-se o mistério de comunhão que, desde o
início, está inscrito no projecto de Deus. Esse projecto
atinge a sua plenitude em Jesus Cristo, o Esposo que ama e
que se dá como Salvador da humanidade, unindo-a a Si como
seu corpo. Por isso, a família é “imagem e participação da
aliança de amor entre Cristo e a Igreja” (45). Com a sua
especificidade própria, ela é “uma reposição viva da
caridade de Deus” (46) na vida do mundo.
Inserida na comunhão da Igreja, a família enriquece a
comunidade eclesial com os seus próprios dinamismos de amor
e de comunhão. Os seus membros, cumprindo a sua vocação
baptismal e formados na escola do amor familiar, tornam a
Igreja, cada vez mais, uma comunidade de irmãos unida na fé
e no amor. A Igreja é, com a ajuda da família, uma
comunidade cimentada no amor, rosto vivo da bondade e da
ternura de Deus no meio dos homens.
70. Chamada a ser, no meio das realidades quotidianas,
testemunha desse projecto de amor e de vida que Cristo veio
oferecer ao mundo, a família colabora na missão da Igreja no
sentido de levar o Evangelho da salvação e da esperança a
todos os homens. Ela é o lugar onde o Evangelho, tornado
vida, alcança o mundo e transforma as relações humanas. Numa
sociedade frequentemente fracturada por esquemas de egoísmo,
de violência, de massificação e de despersonalização, a
família, comunidade de amor e de vida formada nos valores do
Evangelho, converte-se “na primeira e insubstituível escola
de sociabilidade, exemplo e estímulo para as relações
comunitárias mais amplas, num clima de respeito, justiça,
diálogo e amor. Deste modo, a família constitui o lugar
natural e o instrumento mais eficaz de humanização e de
personalização da sociedade” (47).
71. Aos crentes e a todos os homens de boa vontade, aos
responsáveis pelas estruturas do Estado, aos legisladores e
a todos aqueles que estão empenhados na construção de um
mundo mais fraterno e solidário, a Igreja pede que amem a
família e que promovam políticas de protecção da comunidade
familiar.
Amar a família “significa saber estimar os seus valores e
possibilidades, promovendo-os sempre. Amar a família
significa descobrir os perigos e males que a ameaçam, para
poder superá-los. Amar a família significa empenhar-se em
criar ambiente favorável ao seu desenvolvimento. Finalmente,
forma eminente de amor, é dar à família cristã actual,
muitas vezes tentada por desânimos e angustiada por
crescentes dificuldades, razões de confiança em si mesma,
nas próprias riquezas que lhe vêm da natureza e da graça, e
na missão que Deus lhe confiou” (48).
Os bispos portugueses, conscientes de que a família é a
esperança da Igreja e do mundo, exortam as famílias cristãs
a viverem na fidelidade à sua vocação e a serem, na Igreja e
no mundo, testemunhas do amor de Deus, sal e luz, fermento
que leveda a massa, testemunhas do Evangelho, sinal de
esperança e de vida nova.
Lisboa, 31 de Maio de 2004
Festa da Visitação de Nossa Senhora
-------------
Notas
(1) João Paulo II, Carta às Famílias Gratissimam sane, nº 2.
(2) João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia
in Europa, nº 90.
(3) João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia
in Europa, nº 90.
(4) CEP, Nota Pastoral Responsabilidade Solidária pelo Bem
Comum, nº 30.
(5) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 11.
(6) João Paulo II, Encíclica Redemptor hominis, nº 10.
(7) João Paulo II, Carta às Famílias Gratissimam sane, nº
11.
(8) João Paulo II, Homilia no Jubileu das Famílias (Outubro
de 2000), nº 5.
(9) João Paulo II, Homilia no Jubileu das Famílias, nº 5.
(10) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 21.
(11) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 21.
(12) João Paulo II, Carta às Famílias Gratissimam sane, nº
14.
(13) CEP, Instrução Pastoral O acompanhamento dos casais
novos (Novembro de 1992), nº 7.
(14) D. António Ribeiro, Carta Pastoral Algumas questões da
habitação e do urbanismo (Dezembro de 1984), nº 10.
(15) João Paulo II, Encíclica Laborem exercens, nº 18.
(16) João Paulo II, Encíclica Evangelium Vitae, nº 58.
(17) Comissão Episcopal da Família, Nota sobre as pessoas
idosas (Outubro de 2000), nº 4.
(18) João Paulo II, Homilia no Jubileu das Famílias (Outubro
de 2000), nº 4.
(19) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 1.
(20) Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen gentium, nº
11.
(21) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 55.
(22) João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte,
nº 43.
(23) Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Dies Domini, nº 11.
(24) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 13.
(25) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 66.
(26) Conselho Pontifício para a Família, Preparação para o
Sacramento do Matrimónio (Maio de 1996), nº 46.
(27) Conselho Pontifício para a Família, Preparação para o
Sacramento do Matrimónio (Maio de 1996), nº 45.
(28) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 65.
(29) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 49.
(30) João Paulo II, Exortação apostólica Familiaris
consortio, nº 73.
(31) Citações de João Paulo II, Exortação Apostólica
Pastores gregis (Outubro 2003), nº 52.
(32) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 73.
(33) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 84.
(34) Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 84; João Paulo II, A Família, Comunidade
insubstituível, Homilia no Santuário do Sameiro, em 15 de
Maio de 1982; João Paulo II, Exortação Apostólica
pós-sinodal Ecclesia in Europa, nº 93.
(35) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 84.
(36) João Paulo II, Discurso à XIII Assembleia Plenária do
Conselho Pontifício para a Família (Janeiro de 1997),
nº 2.
(37) CEP, Nota Pastoral As pessoas com deficiência, cidadãos
de pleno direito (Maio de 2003), nº 10.
(38) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
Consortio, nº 49.
(39) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
Consortio, nº 19.
(40) Catecismo da Igreja Católica, nº 2225.
(41) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 17.
(42) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 45.
(43) João Paulo II, Mensagem para o 38º Dia Mundial das
Comunicações Sociais, celebrado a 23 de Maio de 2004, nº 1.
(44) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, nº 76.
(45) Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, nº
48.
(46) João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal
Ecclesia in Europa, nº 94.
(47) Conselho Pontifício para a Família, Temas de reflexão e
de diálogo como preparação para o IV Encontro Mundial das
Famílias, A Família Cristã: uma Boa Nova para o Terceiro
Milénio, Tema IX, A Família, núcleo e fonte do bem social
(Janeiro de 2003).
(48) João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris
consortio, Conclusão.
|
[anterior] |
|