Público - 4 Jun 04
Quotas
Depois das quotas para mulheres, surgem pedidos de quotas para
homens. Para uns e outros não são solução
Sempre me manifestei contra as quotas para as mulheres. Entre outros
motivos porque condeno a engenharia social, que regra geral produz
resultados perversos; porque entendo que se deve garantir a
igualdade à partida e não construir a igualdade de cima para baixo,
garantindo-a artificialmente à chegada; porque considerava aviltante
para as próprias criar-se a dúvida se ocupava um cargo por mérito ou
por fazer parte de uma quota; e porque estava convicto que a rapidez
com que as mulheres estavam a entrar no mercado de trabalho, a sua
superioridade na universidade (dois terços à entrada, quase três
quartos entre os licenciados) haveria de fazer naturalmente com que
chegassem onde desejassem chegar. Este último argumento era mesmo,
para mim, o mais importante: via. Sentia, que o mundo estava mudar e
que bastava deixar que a evolução social e cultural fizessem o seu
caminho.
Muito mais cedo do que esperava, eis que surge a discussão ao
contrário: muitos médicos, incluindo o presidente da sua Ordem, e
muitos responsáveis de cursos de Medicina começam a pedir quotas
para... homens. Estão assustados com o número de mulheres nos cursos
e na profissão e chegam ao ponto, ridículo, de alegar que algumas
especialidades, como urologia, onde o chamado "toque rectal" é um
exame habitual, seriam pouco adequadas a mulheres (ficamos porém sem
saber se os homens podem continuar a dedicar-se à obstetrícia...).
A discussão nem deveria começar não fosse a projecção alguns dos
seus protagonistas e se não abrisse outros problemas. E não deveria
começar como não se discute, por exemplo, existirem muito mais
mulheres do que homens a ensinarem nas escolas do ensino básico e
secundário, ou de a profissão de engenheiro continuar a ser
sobretudo masculina. Não existindo barreiras à entrada que valorizem
ou desvalorizem qualquer dos sexos, existirem profissões mais
femininas e outras mais masculinas pode, e deve, decorrer unicamente
das escolhas feitas e das vocações demonstradas. Afinal, os sexos
não são diferentes apenas na sua morfologia externa.
Importa por isso saber se existem essas barreiras à entrada.
Barreiras que podem ser formais ou informais, legais ou culturais.
No caso concreto dos cursos de Medicina, tudo indica que não
existem: para as faculdades entram os alunos que têm as melhores
médias de acesso. É o melhor método? A meu ver, não, mas não por
descriminar os homens a favor das mulheres. Não é o melhor método
porque um aluno que consegue excelentes notas pode, pura e
simplesmente, não ter vocação para ser médico - e escreve alguém que
entrou num curso de Medicina e depois o abandonou.
Por outras palavras: o acesso aos cursos de Medicina (como a muitos
outros cursos superiores, senão a todos), deveria depender de provas
específicas que permitissem avaliar melhor os candidatos e
remetessem para as escolas a responsabilidade pela admissão dos
candidatos. Estou convencido que, não existindo manobras baixas, as
mulheres continuariam a dominar pura e simplesmente porque as
raparigas, desde que o ensino se democratizou, se revelam regra
geral alunas mais aplicadas do que os rapazes. Até porque, regra
geral, amadurecem, "crescem", mais depressa. Por isso, se existirem
estruturas, umas familiares, outras sociais, que lhes permitam
conciliar a maternidade com as carreiras profissionais, se
culturalmente os pais assumirem as suas responsabilidades, então as
quotas, em qualquer sentido, menos sentido ainda farão.
José Manuel Fernandes
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