Diário de Notícias - 7 Jun 04

Seria bom ter ministro
João César das Neves   

O prof. David Justino daria um bom ministro da Educação, se existisse o cargo. Os seus estudos e discursos recentes mostram que ele desempenharia bem as funções. Mas Portugal não tem um ministro da Educação. É um posto que os governos não incluem. Há décadas que aquilo a que se chama «ministro da Educação» é na verdade um simples zelador da escola obrigatória.

O alegado «ministro» não trata de educar pessoas ou formar cidadãos, mas apenas de gerir a escola pública. Como os clientes estão cativos, forçados por lei a consumir o produto, os seus interesses são a última preocupação dos serviços. Como o sistema segue as velhas regras estalinistas, a eficácia e produtividade são a menor das inquietações.

O problema educativo deixou de ser social, económico ou até político, para se tornar apenas administrativo. Ou, pelo menos, era. Porque há uns 20 anos introduziu-se um novo dado que mudou a função do governante.

A forte queda demográfica do número de jovens, a multiplicação das escolas superiores de educação e vários erros do Ministério criaram um brutal excesso de professores acima das necessidades.

Esse passou a ser o obsessivo problema de sucessivos pseudoministros. A função deixou de ser «zelador da escola» para passar a «provedor dos docentes» junto do Orçamento. O único real papel do governante é o de delegado sindical da classe.

Temos no País largos milhares professores sem aulas. A resposta óbvia para qualquer verdadeiro ministro da Educação, ou mesmo para qualquer competente zelador escolar, seria a de dispensar esses profissionais. Se o País não precisa deles para ensinar, precisa muito deles para fazer o que antes ensinavam. Mas esta solução cristalina é tabu absoluto no discurso do Ministério. Os professores, úteis ou inúteis, têm direito sagrado a lugar e remuneração pública.

No censo, o peso dos jovens com menos de 15 anos caiu em Portugal de 26% da população em 1981 para 16% em 2001. Mas as despesas de educação no Orçamento de Estado aumentaram no mesmo período de 13,5% para 19,9%. O que mostra evidentemente que a finalidade não é a educação dos portugueses ou, sequer, o elementar equilíbrio das instituições. Isto é para pagar professores, não alunos.

O desespero é tal que os apertos financeiros levam agora o Ministério a eliminar contratos de associação com escolas privadas em locais onde há escolas públicas com falta de alunos. Mas a decisão não atende minimamente ao interesse dos jovens, à escolha dos pais ou à qualidade da escola que fecha. Isso são questões de interesse público, a que só um real ministro da Educação acudiria. Naturalmente, são irrelevantes para uma boa provedoria do funcionalismo. A prioridade absoluta é proteger os empregos dos professores do Estado.

Depois todos ficam chocados com os números que nos colocam em último lugar em aproveitamento escolar e qualidade do ensino na União Europeia. Mas isto é injusto. Se as comparações fossem na qualidade de vida dos professores (sobretudo considerando os que não dão aulas) ver-se-ia certamente que Portugal está muito bem classificado e a política educativa é um sucesso, mas para os verdadeiros beneficiados. Os alunos estão uma desgraça, mas os docentes prosperam.

Todos dizem que é preciso mudar esta situação. Uma das coisas mais úteis seria o País arranjar o cargo de ministro da Educação. O prof. Justino seria um bom nome.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

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