Diário de Notícias - 8 Jun 04
Exemplo no Rock
Os portugueses já demonstraram variadíssimas vezes terem capacidade
organizadora em grandes eventos, apesar das constantes autocríticas
sobre o vício do improviso (que é também motivo de orgulho para
alguns), em grande parte fruto de adiamentos sistemáticos de tarefas
supostamente calendarizadas. Dizer que os portugueses deixam tudo
para a última da hora é já uma frase feita, que vale o que vale.
A forma como trabalham algumas empresas, e o sucesso das mesmas, bem
como a resposta francamente positiva na realização de alguns grandes
acontecimentos públicos provam que o «vício» português para o
adiamento não passará, frequentemente, de uma velha desculpa para
maus dirigentes, sejam eles políticos, chefias do aparelho do Estado
ou empresários. A fraca preparação de muitos deles impede-os de
impor e liderar organizações eficazes, com capacidade de responder
aos desafios do dia-a-dia.
O que se tem verificado nos últimos grandes projectos é que os
portugueses trabalham com sucesso - não apenas no estrangeiro, mas
também em Portugal -, quando a liderança dos mesmos tem qualidade.
Assim se passou nos últimos dois fins-de-semana com o festival Rock
in Rio-Lisboa, em que foi criada uma estrutura capaz de responder a
uma afluência e concentração de cerca de 70 mil pessoas/dia num
parque lisboeta. Da rede de transportes - com coordenação entre a
câmara, metro e Carris -, ao controlo de circulação e segurança -
com a participação de forças policiais -, até ao abastecimento
alimentar e serviços de limpeza, tudo funcionou de forma exemplar.
Salvaguardando as diferenças, o Rock in Rio-Lisboa terá sido um bom
teste à capacidade de coordenação de várias entidades também
chamadas ao Euro 2004. Mas para que esse rigor seja a norma na vida
portuguesa, é necessário impedir que o desleixo se repita
impunemente, como acontece, por exemplo, com os erros sistemáticos
na colocação de professores.
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