Diário de  Notícias - 28 Jun 04

Sentido Cívico

João César das Neves

 

Portugal hasteou a bandeira. Graças à selecção nacional, as quinas esvoaçam com orgulho em pescoços, prédios e automóveis. O facto é tanto mais surpreendente quanto os portugueses não são muito dados a este tipo de brios e manifestações patrióticas. Desde os fervores revolucionários dos idos de 70 que não se via por cá nada assim.

Isso não só pode ajudar a cobrar ânimo após a dolorosa recessão mas, sobretudo, promove um espírito colectivo e empenho comum que nos têm faltado. Após os dois grandes projectos da construção democrática e integração europeia, que suscitaram vasta cooperação das forças nacionais, o País tem caído num clima de cobiças pequeninas e reivindicações míopes. Cada um defende o seu cantinho, perdendo de vista o bem comum e o interesse público. Inesperadamente, o sucesso do Euro 2004 fez renascer a identidade lusa e o sentimento de pertença.

Mas há excepções. Os transportes públicos da região de Lisboa (Carris, Rodoviária, Soflusa e Metro) não se lembraram de nada melhor do que declarar greve em pleno campeonato. Quando o País gastou milhões para organizar com dignidade um evento desta importância, quando tantos trabalham tanto para que a iniciativa corra bem, é vergonhoso que alguns grupinhos, cegos pela mesquinhez, manchem este projecto nacional com questiúnculas privadas. A atitude é tão escandalosa quanto a dos fura-greves nas velhas lutas operárias. No meio da euforia lusitana, ressurge a velha infâmia. É uma abjecção inqualificável!

É preciso estar muito obcecado pelo seu umbigo para não entender a baixeza da afronta!

Vale a pena dizer a esses senhores que nós, os utentes, vamos cá continuar todo o ano. Eles vão ter muitas oportunidades de nos estragar a vida por causa de zangas com patrões. Ao menos agora, quando todas as atenções mundiais estão centradas no nosso país, podiam moderar o egoísmo e cooperar com todos na promoção da nossa imagem. É da mais elementar civilidade.

Esta aleivosia merece severa punição. Mas como, se a lei lhes dá o legítimo direito? A forma adequada de castigo não é legal, mas social. Deve usar-se a mesma mobilização que encheu o País de bandeiras. Se os familiares desses grevistas, se os seus amigos, vizinhos ou simples passageiros lhes fizerem notar o desaforo do ultraje talvez eles percebam o que está em causa e se envergonhem da sua deslealdade.

Este é apenas um caso mais patético da decadência corporativa que hoje mina a sociedade portuguesa. A única forma de a combater é a promoção do sentido cívico de que Portugal tanto carece. A consciência de contribuinte, de utente, de consumidor, de cidadão é elemento precioso de civilização. A sua falta, pode dizer-se, é o que agora mais nos atrasa face aos parceiros europeus.

Boa parte dos nossos problemas actuais vem daqui. A degradação da educação, da saúde, da justiça, tal como a má qualidade de jornalistas, políticos e funcionários, provêm da passividade dos cidadãos que as suportam. A fraude fiscal resulta de os faltosos não sentirem o repúdio de amigos e conhecidos e não serem tratados como escroques que roubam os nossos impostos e enganam o bem comum. O poder dos grupos de pressão nasce da falta de sentido público que defenda a sociedade que eles atropelam com as suas manobras.

As bandeiras do Euro revelam uma saudável mobilização do orgulho nacional. Que ele possa florescer na renovação do sentido cívico.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

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