Diário de Notícias -
25 Jun 07
A realidade virtual do
mundo educativo
João César das Neves
A recente polémica à volta dos erros ortográficos e
aritméticos nas provas de aferição do 4.º e 6.º anos
mostrou algumas das origens da nossa catástrofe
educativa (porque, vale a pena lembrar, vivemos uma
catástrofe educativa). Em declarações à agência Lusa
(29/05/2007, 14.39), o responsável do ministério,
desmentindo "liminarmente" a acusação de não se
ligar aos erros, explicou: "Não faz sentido
penalizar a incorrecção ortográfica na primeira
parte, quando o que se pretende perceber é se o
aluno compreendeu ou não o texto."
Esta indignação é o elemento mais revelador do caso.
O ministério gasta um dinheirão num exame nacional a
fingir, pois as notas não contam para os alunos.
Depois, desperdiça a informação recolhida, omitindo
um aspecto quando avalia outro. Finalmente,
considera tudo isto como "técnica de avaliação".
Talvez daqui a anos, quando estes jovens escreverem
mal um relatório que mandam ao patrão, se
justifiquem dizendo que não é a sua ortografia que
está a ser avaliada.
Como é possível pessoas inteligentes dizerem tais
disparates? Este mistério conduz-nos a um dos
problemas mais sérios da essência da educação: a
relação com a realidade. Porque atitudes dos
responsáveis que parecem delirantes e alheias ao
senso comum resultam não de erros burocráticos
pontuais mas da própria natureza do sector.
Todas as actividade têm contactos contínuos com o
mundo concreto. As empresas confrontam-se com o
mercado, o sector da saúde depende do físico do
doente, a polícia, diplomacia, tribunais lidam com
problemas práticos. Até a política vive de eleições
e manifestações. A educação é uma das poucas áreas
que só dependem de si mesmas. A sala de aula é
autónoma face à realidade e o sucesso final
determina-se apenas pela pauta do próprio professor.
É verdade que a matéria a ensinar nasce do mundo
autêntico. Mas ele é filtrado pelo mestre, que
constrói descrições, explicações, elaborações ou
mitificações da realidade, com o propósito de
compreender o existente e assim formar o estudante.
As teorias são sempre abstracções e o estudo,
razoável ou mirabolante, brilhante ou bruto, nunca
deixa de ser limitado por si mesmo. Até quando
realiza uma visita à realidade, a aula cria uma
ficção pedagógica. A escola determina-se a si
própria.
Haverá no fim um teste real, a capacidade posterior
do graduado em enfrentar o mundo. Mas, em geral, é
difícil ligar isso à eficácia concreta do ensino e
do mestre, porque o estudante, mesmo aprovado, pode
ser burro. Até hoje, quando os sinais de falhanço na
formação dos nossos cidadãos e trabalhadores são
esmagadores, as escolas continuam impunes e sem
responsabilidades assacadas no descalabro. Pelo
contrário, até ganham mais meios para perpetuar a
situação.
Esta auto-suficiência conceptual da educação é a
principal chave para as causas da derrocada. O
ensino constitui um mundo isolado, com regras
próprias, onde se pode funcionar longamente sem
contacto ou relação com a realidade concreta.
Qualquer parvoíce pode surgir como "método
pedagógico" e, se abstrusa, até ganha excelência,
pois as teorias educacionais já justificaram tudo e
o seu contrário.
O Ministério da Educação português é um bom exemplo
de como um sistema autodeterminado pode disparar em
sentidos impenetráveis e incoerentes. A sucessão de
repetidas reformas, mesmo que justificadas
individualmente, criou um conjunto inconsistente e
delirante, que hoje até gasta fortunas em testes a
fingir, que avaliam aos bochechos.
A coisa só não é pior devido à única inelutável
realidade que se impõe na sala de aula: a cara do
aluno. Muitos profissionais competentes, sentindo-se
responsáveis perante a turma que enfrentam,
esforçam-se por ensinar alguma coisa às pobres
cobaias das reformas, muitas vezes contra as mesmas
reformas. Se não fosse isso, a catástrofe seria
definitiva. Mas o Ministério da Educação tem de ser
incluído entre os maiores inimigos do
desenvolvimento nacional. Uma potência estrangeira
que quisesse sabotar o nosso progresso dificilmente
faria pior.