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03 Jun
08
Inquérito sobre o uso dos media entre os 8 e os
18 anos
60 por cento das crianças e jovens têm televisão
no quarto
Isabel Leiria
Mais de 90 por cento das crianças e jovens têm pelo
menos duas televisões em casa e seis em cada dez têm
uma no quarto, tal como acontece com uma percentagem
semelhante de pais. Os aparelhos estão na sala, mas
também na cozinha e noutras divisões. Só que esta já
não é a "lareira electrónica" à volta da qual se
reúne a família.
"Há uma tendência para o uso independente dos
aparelhos de televisão que se afasta do paradigma do
seu uso familiar", dizem os autores do estudo "E-Generation:
Os Usos de Media pelas Crianças e Jovens em
Portugal", de 2007. Os investigadores do ISCTE Rita
Espanha e Tiago Lapa inquiriram uma amostra
representativa de miúdos entre os 8 e os 18 anos e
chegaram à conclusão que, apesar de continuar
"omnipresente" (em mais de metade dos lares existem
três ou mais aparelhos), a televisão perdeu o seu
lugar central, com os jovens a dividirem o seu tempo
e atenção com outros meios e tarefas, como o
computador, o leitor de MP3 ou o telemóvel.
A televisão pode até estar sempre ligada, com 91 por
cento dos inquiridos a dizer que assim é às horas
das refeições. Metade admite até que o aparelho está
a funcionar mesmo quando ninguém está a ver. O que
acontece é que, também muitas vezes, cada elemento
da família a utiliza no seu espaço, originando
"novas formas de organização familiar e modos de
organização geográfica das actividades familiares".
E se a vida dos jovens se está "a deslocar do
público para o privado", por causa do "declínio da
cultura de rua e do convívio familiar", uma vez em
casa é no quarto que os mais novos passam muito do
seu tempo. Os autores do estudo falam mesmo na
"emergência de uma cultura do 'quarto de dormir',
onde os jovens tendem a concentrar no seu reduto
mais privado os «media» que utilizam".
"Esta forma de estar, o isolamento dos jovens no seu
próprio quarto, já existia nas gerações anteriores.
Mas agora os jovens têm ao seu dispor vários meios
(televisão, telemóveis, internet) que lhes dão
entretenimento e lhes permitem também prolongar as
relações com outros jovens sem sair de casa",
comenta Rita Espanha.
Em relação ao que vêem na televisão, a TVI é o canal
favorito para mais de metade (a RTP 1 tem a
preferência de apenas 4,5 por cento) e gostam
sobretudo de filmes. Mas são as telenovelas que mais
tempo lhes roubam. Menos de metade assiste ao
telejornal.
A Internet é outro dos "media" que tem ganho uma
importância fundamental na vida dos jovens. Quase
três em cada quatro assume-se como utilizador, com a
maioria a iniciar-se aos 10,11 anos. A Web serve
para enviar "mails", consultar enciclopédias e
dicionários "online" ou procurar informação
relacionada com os estudos. Navegar "sem objectivos
concretos", jogar ou participar em "chats", combinar
saídas e contactar amigos quando se "está
desanimado" são outras utilizações recorrentes.
Concluem então os investigadores que o receio de que
as novas tecnologias provoquem o isolamento dos
jovens não parece confirmar-se, na medida em que a
rede é utilizada para interagir e comunicar. "Há um
prolongamento e uma intensificação da vida social,
especialmente através de uma muito maior utilização
da Internet", reforça Rita Espanha.
Mais de metade fica "muito ansioso" se não tiver
o telemóvel
Já se sabia que o telemóvel se tornou num acessório
quase imprescindível na vida de muita gente.
Praticamente todos os jovens entre os 16 e os 18
anos inquiridos no estudo do ISCTE têm um e metade
das crianças entre 8 e os 12 também. Em média, é aos
11,8 anos que se recebe o primeiro aparelho. O que
se verifica é que os níveis de "habituação
psicológica" ao telemóvel são também elevados nesta
faixa etária.
Entre os inquiridos do estudo "EGeneration: Os Usos
de Media pelas Crianças e Jovens em Portugal", 85
por cento concordam com a noção de que se sentem
muito mais tranquilos quando têm consigo o seu
telemóvel. E mais de metade admitem sentir-se "muito
ansioso/a" quando não o podem ter. Sendo certo que a
maioria das chamadas são para amigos e familiares,
mas que apenas três por cento dizem respeito a
conversas que têm como objectivo a "resolução de
problemas fundamentais da gestão doméstica e
familiar".
Resultado: 44 por cento garantem que não fariam a
maioria das chamadas que efectuam no telemóvel
através do telefone fixo, objecto que começa, aliás,
a ser cada vez menos comum em casa (existe em cerca
de metade dos lares dos inquiridos).
As mensagens escritas são a forma de utilização
preferida - a média de chamadas diárias é de 3,65,
enquanto a de SMS sobe para quase 26 - e substituem
em muitos casos a comunicação oral. Os votos de boas
festas e os parabéns a amigos e familiares já não
são maioritariamente dados com cartões ou
telefonemas, mas através de mensagens escritas. Que
também servem para namorar e combinar encontros
como, nalguns casos, para terminar uma relação
amorosa, com 15 por cento dos jovens a admitir tê-lo
feito dessa forma.
Por tudo isto, acaba por não ser surpreendente que
as crianças e os jovens assumam que têm dificuldades
em desligar o seu meio de contacto favorito. Cerca
de 40 por cento admitem que não o fazem quando estão
em aulas, conferências e palestras. Nem em momentos
fúnebres ou em celebrações religiosas em igrejas.
O telemóvel é também uma "companhia" a que se
recorre quando se está sozinho e se espera por
alguém. Sobretudo para as raparigas, que enviam SMS
e telefonam enquanto aguardam. Por mês, os jovens
gastam em média 18,5 euros.
Quanto a hábitos de leitura, o estudo indica que 60
por cento lêem livros e quase um em cada três lêem
jornais. Mas dedicam a esta actividade pouco mais de
meia hora semanal, contra as 15 que passam a ver
televisão ou as 10 que consomem a navegar na
Internet.
O cinema continua a ser uma das actividades
preferidas, com 60 por cento a ir habitualmente a
uma sala.