Jornal de Negócios online -
04 Jun
08
Allons enfants de la Patrie*
Rui Cerdeira Branco
A demografia é como um navio porta-contentores
carregado. Se nos limitamos a desacelerar quando o
objectivo é parar, corremos o risco de levar meia
cidade pela proa. Se, por outro lado, o que se
pretende é inverter a marcha, a coisa só lá vai com
os motores em marcha à ré e com o auxílio empenhado
dos melhores rebocadores do porto.
É por isso que, mesmo estando a taxa de natalidade
em queda a nível planetário, ainda teremos de
conviver provavelmente com mais de meio século de
crescimento populacional, em termos absolutos.
À nossa escala nacional temos outros problemas
demográficos, mas o fenómeno é o mesmo: estamos
também a lidar com um porta-contentores carregado.
Não fora ainda conseguirmos captar mais imigrantes
do que os emigrantes que continuamos a enviar por
esse mundo fora e, no ano passado, fruto de um
número de óbitos superior ao de nascimentos, o nosso
cantinho teria mesmo ficado mais espaçoso.
Confesso desde já que não tenho grandes ansiedades
quanto a um decréscimo populacional por si só, tal
como não exultei quando atingimos o “número mágico”
dos 10 milhões há alguns anos, mas perante a
confirmação de um cenário de queda pronunciada da
natalidade e perante a falta de preparação que há na
sociedade portuguesa para acomodar, integrar e
conviver com os idosos que tem já hoje tenho sérios
motivos para estar preocupado com o que se avizinha.
Comecemos pelo que não devemos fazer. Devemos evitar
simplificar o problema a culpados fáceis como sejam
o egoísmo, a cultura do prazer, o individualismo e o
consumismo. Também não devemos resumir o problema ao
terror. Seja ele o terror das pensões se esgotarem,
ou o de só termos lugar neste mundo enquanto formos
úteis numa lógica económica, ou ainda o de estarmos
em vias de extinção enquanto nação e cultura.
Convidar à procriação tendo por base a culpa e o
medo, parece-me algo disparatado, ainda que seja um
artifício político ancestral e ainda muito em voga
por estes dias.
O que fazer então? O objectivo mais realista
parece-me ser o de evitar cair na situação mais
extrema. Obviamente que um complemento migratório
poderá ser relevante neste propósito, mas julgo ser
desejável apostar fundamentalmente em duas
vertentes. Por um lado, procurar minimizar o ritmo
do envelhecimento demográfico e, por outro,
acomodá-lo, preparando a sociedade para encarar os
idosos como uma parte integrante e valiosa.
A palavra-chave no meio de tudo isto é Família. Sem
nos enredarmos em concepções religiosas ou a priori
ideológicos, temos de encarar a Família – todas as
famílias – como o vértice em torno do qual se
organiza a sociedade. O seu papel deverá ser o de
fulcro protegido e não o de respaldo criado para
aguentar todas as vicissitudes próprias da
desorganização e inconstância política e económica
de um país.
Atentemos na natalidade: o caminho mais rápido para
o seu incremento passa pelo alinhamento entre os
desejos do coração e as capacidades do torrão em que
se vive. Os desejos do coração são conhecidos: em
Portugal, como pela Europa fora, vivem milhões de
famílias frustradas por quererem ter mais filhos do
que os que acabam tendo – falo de um dado
estatístico, note-se. Quanto às capacidades do
torrão, eu diria que estamos perante um ciclo
vicioso onde se parece acreditar piamente que a
natalidade é um obstáculo ao trabalho e um empecilho
à produtividade. Um sentimento que tem por cá um
inusitado fervor, só justificável pelo fraco
conhecimento da natureza humana e do encadeamento de
acontecimentos fulcrais que dependem da sã
sobrevivência das famílias.
Por último, atentemos nos idosos: chegar a velho,
será tanto mais dramático quanto menos nos ocuparmos
de pensar esse período das nossas vidas, individual
e colectivamente. Notem que o que está em causa não
é a eficiência económica, nem apenas promover a
previdência financeira: mais do que orientá-los para
a produção, o que julgo merecer preocupação é
conseguir orientá-los para a vida, para a nossa
vida. Eles somos nós.
Concluindo, temos de encarar de forma integrada e
transversal as condições quotidianas que permitimos
e oferecemos às famílias. Ignorar uma reflexão
profunda da nossa organização social e económica,
presente e futura, partir com ligeireza para pacotes
de medidas avulsas e, por vezes, contraditórias, é
garantidamente disparar ao lado e é um comportamento
irresponsável que pagaremos muito caro, se perdurar.
Tentemos ser felizes, será um bom princípio.
* A França é hoje um caso de estudo internacional
para muitas outras nações, devido ao sucesso da sua
longa e militante política pró-natalista.