Rádio Renascença -
04 Jun
08
A fome na abundância
Graça Franco
E se de repente meio mundo com fome passar a comer?
Excelente!
Foi isso que pensámos. Foi isso que dissemos. Até
ser verdade.
Quando finalmente aconteceu percebemos que só
tínhamos previsto metade das consequências.
Se por absurdo os chineses duplicarem o respectivo
consumo de carne continuarão a consumir cerca de 30
por cento menos do que um americano mas isso
significará que no mundo surgirão compradores para
mais 60 milhões de toneladas de “bifes por ano”.
Isso significa produzir mais 240 milhões de vacas,
600 milhões de porcos ou mais simplesmente 24 mil
milhões de galinhas lembrava o jornal britânico “The
Guardian”.
E para alimentar a dita bicharada precisaremos de
quê? De 50 mil milhões de novas rações para galinhas
ou quase 200 mil milhões de quilos de ração para
bovinos.
Para o conseguir resta produzir muito mais cereais
do que estamos a fazer ou desviar do consumo de
humanos uma boa parte do stock produzido. Resultado:
enquanto uns começam finalmente a poder comer carne
e leite outros deixam de se poder alimentar a pão e
água.
Não chega a terra para que todos comam? Tinha razão
Malthus para nos alertar para o risco da
sobrepovoação do planeta? Falso.
Que se passa então? Temos terra, temos tecnologias,
temos meios para conseguir alimentar toda a
humanidade na abundância. Porque não o fazemos?
Simplesmente porque todos esperamos demasiado do
mercado e esquecemos que o livre comércio não
dispensa nem a regulação nem o valor da compaixão.