Diário de Notícias -
16
Jun
08
A vergonha da autêntica crise social
João César das Neves
Portugal vive grave crise social. Toda a gente sabe
isto. Os jornais repetem diariamente os contornos do
drama, sucedem- -se manifestações e protestos, a
oposição orienta nesse sentido as críticas
crescentes. Ninguém tem dúvidas de que, em vez das
prometidas recuperação e prosperidade, caímos em
séria perturbação económica. Mas o que está mesmo a
acontecer de novo? Quais os factos concretos que
sustentam este clima depressivo? Onde está a tão
propalada crise social?
Quem pretender responder séria e serenamente a estas
questões encontra obstáculos inesperados. A economia
não está em recessão, nem sequer próxima; o
crescimento económico abrandou ligeiramente do nível
baixo que tem há anos. O desemprego não subiu, nem
se prevê que venha a subir muito para lá do nível
alto em que permanece há bastante tempo. Mesmo nos
preços, em que os rumores dos mercados do petróleo e
alimentos prometem terríveis desenvolvimentos, as
mudanças são mínimas: a inflação acelerou, mas para
níveis aceitáveis e, apesar dos esforços
jornalísticos, nunca mais se dá um efeito sério que
justifique tanto barulho. De facto, o cenário
económico que as instituições respeitáveis traçam
para o futuro próximo do nosso país não é
catastrófico. Pelo contrário, parece copiado da
situação que vivemos há algum tempo.
Nos indicadores sociais, pobreza e desigualdade, o
quadro disponível ainda se refere apenas a 2006.
Devido à superior complexidade do fenómeno, os
números andam atrasados e ninguém arrisca previsões
seguras. Mas também aí a situação parece ser de
continuidade. A taxa de pobreza em Portugal,
calculada segundo as regras da UE, há dez anos que
flutua à volta de 20% da população. O último valor
publicado, de 2006, até registou uma descida para
18%. Os desenvolvimentos posteriores assinalam uma
redução, não um aumento da indigência. Os pobres não
têm automóvel e não são muito afectados pelo preço
do petróleo. Além disso os empregos não
especializados têm grande procura e falta de
candidatos. Como entretanto a imigração abrandou e a
emigração aumentou, é provável que a referida
tendência de redução dos pobres continue após 2006.
Na desigualdade de rendimentos passa-se um fenómeno
paralelo, com a situação estável há mais de uma
década. Os jornais dão grande impacto à notícia de
que somos um dos países da Europa com maior
disparidade. Isso é verdade, e é há muito tempo. E
nem sequer diz grande coisa, dado que estamos a
comparar-nos com os países de menor desigualdade do
mundo. É verdade que o fosso entre ricos e pobres
subiu entre nós face ao que tínhamos antes da
democracia. Isso seria sempre inevitável, devido ao
desenvolvimento, agora agravado pela globalização. O
problema merece atenção cuidada, mas está longe de
ser a prioridade aflitiva que os propósitos
mediáticos afirmam.
Quer tudo isto dizer que não temos uma crise social?
Não. Quer dizer que a crise que sofremos é bastante
mais subtil e complexa do que as abordagens comuns
asseguram. Existem muitos sinais, não de um
agravamento do fundo da escala social, mas de sérias
dificuldades nos extractos imediatamente acima. A
nossa crise social está na classe média.
Uma parte importante da população portuguesa, que
tinha algumas posses e muitas ambições, acreditou
nos discursos que os governantes andam a produzir há
dez anos. Apostou na educação, comprou casa e carro,
endividou-se ao banco. Depois veio o desemprego,
doença, trabalho precário, prestações crescentes. Em
vez de subir, caiu em grandes dificuldades.
Normalmente ainda tem património, a casa hipotecada,
carro velho, mas não sabe o que porá no prato esta
noite. É uma pobreza envergonhada, desiludida,
revoltada. Este é o verdadeiro rosto da nossa crise
social.
As políticas contra a pobreza não vão aliviar as
dificuldades. Como os responsáveis, que criaram a
situação, ainda não a perceberam, conceberão medidas
complexas, mas ao lado dos sofrimentos. Alvoroçados,
não pelo problema, mas pelo ataque político,
proporão programas que calem os críticos, sem
resolver o drama.