Público -
19
Jun
08
Por um dia fui irlandês!
António Bagão Félix
A Europa do pensamento único não se pode queixar.
Tem o que merece
A Irlanda-modelo, sempre referenciada como uma via
de desenvolvimento a imitar, virou Irlanda-pesadelo.
Neste referendo, os irlandeses disseram "não" à
batota. Sim, porque é de sofisticada batota que se
trata, depois de tantos e variados expedientes ao
longo dos tempos.
Aquando do "não" dinamarquês a Maastricht e do "não"
da Irlanda a Nice, foi institucionalizada a prática
do referendo pós-referendo, de maneira a dar uma
nova e generosa oportunidade ao povo de se
penitenciar perante o directório europeu. Tudo isto
porque os eleitores do "não" (ao contrário dos do
"sim"...) nunca estão suficientemente esclarecidos e
por isso é necessário "educá-los" com mais
referendos.
Com a Constituição Europeia chumbada na Holanda e em
França, a táctica mudou. Já não eram a pequena
Dinamarca ou a Irlanda a bater o pé, mas a grande e
soberba França. Por isso, em vez de um novo e
punitivo referendo de resultado imprevisível, a
solução foi um "novo" tratado, com a garantia de não
se voltar a cometer a imprudência de dar voz aos
eleitores.
Por azar esqueceram-se não dos gauleses, mas dos
irlandeses que, coitados, teriam que votar por
obrigação constitucional. De início, a "Europa
Única" estava descansada perante tão confortável
margem das sondagens. Até se dizia, tranquilamente,
que não havia plano B para um improvável "não" (em
bom rigor, um plano C, pois que o B já se havia
esgotado na esperteza de um tratado travestido).
Finalmente, os irlandeses, que nunca foram
militantemente eurocépticos como os ingleses e já
haviam votado seis vezes antes sobre a Europa (cinco
vezes "sim" e uma vez "não") tiveram a ousadia de
rejeitar o tratado, numa consulta popular que
ultrapassou em afluência todos os anteriores actos
(cerca de 53%).
Não deixa de ser espantosa a reacção dos grandes
países e da Comissão. Dizer-se que o tratado não
está moribundo é, em primeiro lugar, desrespeitá-lo,
pois o que lá está escrito é que ou é assinado por
todos ou não avança. Dizer-se que menos de dois
milhões de eleitores não podem condicionar a vontade
dos europeus é uma falácia, pois os outros povos não
foram ouvidos e seria até provável que em alguns
países se viesse a chumbar o tratado. Sentenciar-se
que nestas consultas se vota mais a pensar na
política nacional que na Europa é o argumento
habitual para interpretar um "não", que todavia
jamais vi referido para interpretar um "sim". Aliás,
neste caso irlandês a quase totalidade das forças
políticas no governo ou oposição estavam do lado do
"sim" e nem se pode falar de um voto de protesto
quanto à política interna.
Inqualificável foi também a reacção de alguns
líderes europeus (a começar pelo hegemónico eixo
franco-alemão) ao repreender a Irlanda (recordam-se
de algum puxão de orelhas aos franceses por ocasião
do seu "não"?).
A verdade é esta: o Tratado de Lisboa não exprime,
ética e politicamente, um contrato envolvente,
transparente e responsabilizador com os cidadãos. O
tratado é uma charada quase indecifrável de
remissões, excepções, alterações e repristinações
que lhe retira um carácter desejavelmente comum e
amigável. É um rendilhado técnico que introduziu 356
emendas aos 413 artigos do Tratado da UE e do
Tratado sobre o funcionamento da UE, contém 13
Protocolos anexos com valor idêntico ao próprio
tratado, mais 65 Declarações de Estados-membros
relativas às disposições dos tratados! Uhf! Gostava
de saber quantos deputados em Portugal terão lido
tão vasta documentação aquando da ratificação
parlamentar...
Por tudo isto, a Europa do pensamento único não se
pode queixar. Tem o que merece. Um voto "sim" numa
consulta desta natureza implica uma explicação
cristalina, transparente, acessível do que vai
mudar. Na ausência de tudo isto, o "não" aparece
como legítimo e natural. Com a agravante, na
Irlanda, de ser perceptível que o Tratado de Lisboa
favorece os Estados mais populosos e retira
influência aos países mais pequenos.
Um pouco de sensatez e humildade ficaria agora bem à
ortodoxia europeia, de maneira a enxergar que afinal
o problema europeu não é irlandês. É europeu! E,
ironia das ironias, a Irlanda porta-estandarte do
projecto de progresso, paz e democracia na Europa é
agora quase convidada a uma separação. Tudo por
causa do... povo se pronunciar livremente sobre um
projecto de tratado que, no preâmbulo, refere a
necessidade de "uma União cada vez mais estreita com
os povos da Europa em que as decisões sejam tomadas
ao nível mais próximo possível dos cidadãos" e no
seu artigo nono que "a cidadania da União acresce à
cidadania nacional, não a substituindo".
Por medo, cobardia, apoplexia tecnocrática,
diletantismo ou atestado de inferioridade conferido
aos povos, o "gravy train" europeu não gosta
definitivamente de dar voz aos cidadãos! Em
Portugal, o Governo também mandou às malvas a sua
promessa de "referendo popular, amplamente informado
e participado"...
Por tudo isto, e independentemente da minha posição
de princípio pró-europeia, por um dia fui irlandês!
Ex-ministro das Finanças