Público
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21 Jun
08
Economia abranda para o ritmo mais baixo desde
2003
Sérgio Aníbal
Indicadores mostram nova degradação da situação
económica. Consumo das famílias em Maio voltou a
diminuir
Sete meses consecutivos de queda colocaram, em Maio,
o ritmo da actividade económica em Portugal ao nível
mais baixo desde 2003, período em que o país se
encontrava em recessão.
De acordo com os dados ontem publicados pelo Banco
de Portugal, o indicador coincidente da actividade -
que procura medir, com os indicadores sectoriais
disponíveis a tendência de crescimento da economia
portuguesa - registou em Maio uma variação face a
igual período do ano anterior de 0,4 por cento, uma
quebra face aos 0,8 por cento de Abril.
Depois de atingir em Agosto do ano passado um pico
de 2,4 por cento, a economia portuguesa,
influenciada pela crise financeira que então chegou
aos mercados internacionais, começou a fraquejar. E
desde Novembro tem registado, de forma consecutiva e
acentuada, uma redução da variação homóloga do
indicador coincidente da actividade.
De tal forma que já ultrapassou o mínimo verificado
em Dezembro de 2005, sendo agora necessário recuar
até Novembro de 2003 para encontrar um valor mais
baixo. O ano de 2003 foi de recessão profunda em
Portugal, com o PIB a registar uma variação negativa
de 0,8 por cento.
Crise internacional
O cenário que se verifica na economia mundial desde
que, em Julho de 2007, deflagrou a denominada crise
do subprime tem desempenhado um papel decisivo no
abrandamento que agora se verifica em Portugal.
As taxas de juro praticadas no mercado de crédito
internacional subiram rapidamente, a procura externa
diminuiu, nomeadamente em Espanha, e o preço do
petróleo e a cotação do euro continuaram em alta. O
resultado foi uma perda acentuada do poder de compra
das famílias, uma menor possibilidade de recurso ao
crédito para financiar o consumo e o investimento e
uma redução das expectativas de crescimento para a
generalidade das empresas exportadoras.
Os números ontem revelados pelo Banco de Portugal
confirmam que estas dificuldades continuaram a
produzir efeitos no passado mês de Maio. O indicador
coincidente do consumo privado voltou a cair,
passando de 0,8 por cento em Abril para 0,5 por
cento em Maio. Ao nível do investimento, é notória a
quebra registada em indicadores como a venda de
veículos automóveis comerciais ou de cimento. Em
relação às exportações, não há ainda dados
disponíveis para Maio, depois da recuperação
conseguida em Abril, mas os responsáveis das
empresas exportadoras estão já a anunciar uma quebra
nas encomendas provenientes do exterior.
Previsões revistas em baixa
O mesmo tipo de tendência, embora de forma mais
moderada, foi também ontem revelada pelo Instituto
Nacional de Estatística (INE) através dos seus
indicadores de conjuntura.
O indicador de clima - que agrega as expectativas
reveladas pelos empresários do comércio a retalho,
indústria, construção e serviços - voltou a cair em
Maio, passando de uma variação de um para 0,9 por
cento e eliminando os ganhos que tinham sido
conseguidos em Abril. O indicador de actividade
ainda só está disponível para Abril, período em que,
de acordo com o INE, se verificou uma melhoria, que
pode ter sido influenciada pelo facto de esse mês,
em relação ao ano passado, ter contado em 2008 com
mais dias úteis.
Até agora, os dados efectivos de crescimento da
economia portuguesa - dados pelo valor do PIB
calculado pelo INE - são apenas referentes ao
primeiro trimestre deste ano e revelam,
efectivamente, um abrandamento acentuado da economia
durante esse período. O PIB registou uma redução de
0,2 por cento face ao quarto trimestre do ano
passado e um crescimento de 0,9 por cento em relação
ao período homólogo. O abrandamento deveu-se,
principalmente à quebra do investimento em
construção, mas também se registaram resultados mais
negativos ao nível das exportações e do consumo de
bens duradouros por parte de particulares.
Por isso, e tendo em conta que a nível internacional
se espera uma segunda metade do ano com a economia a
abrandar, os preços a subirem e os bancos centrais a
serem forçados a aplicar uma política monetária
restritiva, é natural que as previsões de
crescimento que são realizadas para a economia
portuguesa em 2008 estejam a ser revistas em baixa.
O próprio Governo passou, no mês passado, de uma
estimativa de variação do PIB de 2,2 para 1,5 por
cento, aproximando-se do Fundo Monetário
Internacional que até agora a organização mais
pessimista com uma projecção para a taxa de
crescimento de 1,3 por cento. No início de Julho,
será a vez do Banco de Portugal efectuar a sua
própria revisão de perspectivas.
A conjuntura económica internacional vai piorar,
admitiu ontem o ministro da Economia, Manuel Pinho,
sublinhando que a situação actual é mais grave que a
vivida durante os últimos três anos. "Em 2002
tínhamos a taxa de juro Euribor a seis meses nos 2,2
por cento, que passou para os cinco por cento. O
preço do barril de petróleo era de 20 dólares e está
agora nos 135 e as matérias--primas continuam a
aumentar. Este tem sido o cenário dos últimos três
anos". "Infelizmente, o que nos espera agora é ainda
pior", acrescentou.