Público -
21 Jun
08
Afinal havia um plano B!
Pedro da Rosa Ferro
O desprezo dos líderes europeus pelo "não" irlandês
acaba por matar uma certa ideia da Europa
1. O "não" irlandês ao
Tratado de Lisboa trouxe à superfície os piores
instintos da classe política da União Europeia. Não
bastava o embuste desse tratado ter sido apresentado
como algo trivial - dispensando por isso o recurso à
ratificação por referendo - quando todos sabiam que
era, no essencial, uma versão requentada do
malogrado Tratado Constitucional. Antes de 12 de
Junho, toda a "Europa" se encontrava suspensa da
decisão da Irlanda. Agora, com uma desfaçatez
indecorosa, dispõe-se a ignorar olimpicamente o
resultado desse referendo contra o Direito (uma vez
que, juridicamente, a recusa do tratado num dos
países-membros impede a sua entrada em vigor em
todos os outros) e contra o princípio da igualdade
entre Estados (visto que discrimina o povo irlandês
relativamente aos da França e Holanda, cujos "nãos"
liquidaram o tratado anterior).
O argumento de que não é razoável que uma ínfima
partícula da população europeia comprometa o
grandioso projecto europeu não é convincente.
Primeiro, porque as regras do jogo são essas e
iguais para todos os Estados. Depois, porque isso já
aconteceu antes. Por fim, porque isso se verificou,
agora, no único país cujo povo foi consultado: o
pacto secreto dos Governos para evitar os referendos
revela a suspeita fundada de que essa rejeição se
multiplicaria e, enfim, o propósito deliberado e
descarado de agir, se fosse preciso, contra a
vontade popular.
2. Ironicamente, a reacção da Comissão Europeia e do
eixo franco-alemão (em aliança táctica com um Gordon
Brown acossado) vem confirmar algumas das objecções
soberanistas ao Tratado de Lisboa, contidas nas
seguintes percepções ou receios: países como a
Irlanda, de geografia periférica e reduzida massa
crítica, tenderiam a ser considerados como porção
negligenciável; as novas regras de decisão tenderiam
a resvalar para o modelo de directório, em
detrimento dos pequenos Estados; a ausência de
transparência na governação da UE tenderia a
libertar impulsos centralizadores e autoritários.
3. Aliás, o desprezo rude dos líderes europeus pelo
"não" irlandês acaba por matar uma certa ideia da
Europa. O sucesso da UE tem radicado, entre outros
factores, no seu peculiar arranjo institucional que
(com alguns desvios) tem assentado na cooperação
voluntária e no consenso entre os Estados-membros,
gerando Direito sem coerção visível. O edifício
europeu em construção constituiria uma forma
política original e pós-moderna, visando transcender
a velha ordem westefaliana e a soberania do
Estado-Nação, bem como superar a dicotomia entre o
intergovernamentalismo e o federalismo tradicional.
É verdade que o processo de integração europeia foi
episodicamente manchado por atitudes de manipulação,
arrogância e ameaça. Agora, porém, ao tomar uma
posição de força arbitrária e extrema - culpando o
Estado irlandês por uma decisão legítima do seu
povo, considerando a hipótese de expulsar a Irlanda,
despachando para o Governo de Brian Cowen a solução
de um imbróglio de que não é responsável - a UE
parece ter transposto o limiar da decência e da
prudência políticas e atraiçoado o seu próprio
ideal.
4. O problema não é, de facto, do governo irlandês:
o problema é o tratado. "Expulsar" a Irlanda não faz
sentido: ela apenas decidiu ficar como está. Não
convém forçar a integração por submissão dos mais
fracos. Entre outros males, isso poderia gerar
forças centrífugas e convulsões sociais e minar a
União. E seria nefasto: a UE tem contribuído
efectivamente para o desenvolvimento e para a
estabilidade política em democracia. É preciso
voltar humildemente ao princípio. É verdade que isso
complica a carreira política de Sócrates, Durão
Barroso, Merkel, Brown ou Sarkorzy. Mas a Europa (e
a corajosa Irlanda) são demasiado importantes para
ficar dependentes do prejuízo político dos seus
dirigentes. Economista