Diário de Notícias -
21 Jun
08
Só 3% dos abortos são feitos por razões médicas
João Paulo Mendes
Balanço. Segundo um estudo pedido pela
Direcção-Geral de Saúde à Episcience, de 15 de Julho
a 31 de Dezembro do ano passado, foram feitas 2687
interrupções da gravidez, das quais apenas 180
resultaram de actos médicos devido a malformações do
nascituro ou para evitar morte e lesões na mãe
Só 3% dos abortos são feitos por razões médicas
Apenas 2,86% não foram opção da mulher
Nos primeiros seis meses após a entrada em vigor da
actual lei da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG)
foram feitos 6287 abortos em estabelecimentos
autorizados, dos quais 6107 por opção da mulher. Ou
seja, só 2,86% resultaram de doença grave ou
malformação congénita do bebé, perigo de morte ou
lesão grave para a mãe e gravidez resultante de
violação, sendo que, neste último, o número é
praticamente residual - 12 casos, o que representa
apenas 0,2%.
Estes são dados de um estudo da Direcção-Geral de
Saúde (DGS), a que o DN teve acesso. No entanto, os
cerca de 3% indicados como sendo praticados como
acto médico para proteger a vida da grávida ou por
malformação do feto é considerado "subestimado" por
alguns especialistas. "Este número tem maior peso no
resto da Europa", disse ao DN o director do Serviço
de Obstetrícia e Pediatria do Hospital de S. João
(Porto), Nuno Montenegro. "A explicação pode estar
na falta de registo online por parte dos hospitais",
afirmou.
Segundo o estudo, no total, cerca de 69,46% das
intervenções para por fim à gravidez ocorreram em
hospitais públicos e 30,54% em privados. O documento
revela ainda que desde 15 de Julho até 31 de
Dezembro de 2007, das 6107 mulheres que abortaram a
pedido, 70% estavam entre a sétima e a nona semana
de gestação.
A região de Lisboa e Vale do Tejo registou o maior
número de intervenções para por fim a uma gravidez
indesejada, com 57,5%, ou seja 3614 abortos.
Segue-se, de longe, a região Norte, com 1224, o que
representa 19,5% do total. Em terceiro lugar surge a
região Centro, com 14,3%, seguida do Algarve e
Alentejo com 5,7 e 2,3%, respectivamente. Nos Açores
foram feitos 44 abortos (0,7% do total nacional),
enquanto na Madeira não houve qualquer registo.
Por idades, foram as mulheres entre os 30 e os 34
anos que mais recorreram ao aborto a pedido,
(22,4%), seguidas pelas da faixa entre os 25 e os 29
anos (22,1%) e da dos 20 aos 24 anos (21,2%). O
estudo revela também que naquele período foram
feitos 634 abortos em jovens com idades entre os 15
e os 19 anos (10,1%) e 28 em raparigas com menos de
15 anos, o que representa 0,4% das interrupções por
opção da mãe.
A maioria das mulheres recorreu à IVG por iniciativa
própria, excepto nos Açores, em que o encaminhamento
mais referido (54,5%) foi feito pelo hospital
público e no Alentejo em que foi feito pelo Centro
de Saúde (68%). De salientar que nesta região a
maioria das mulheres que abortaram - ao contrário do
resto do País - vive maritalmente (68,7%), sendo que
40,8% são casadas.
Quanto ao nível de instrução, o mais referido foi o
ensino secundário, excepto no Alentejo, onde o mais
representativo é o ensino básico, com 32,7%. Já a
percentagem de desempregadas e estudantes não varia
muito de região para região: uma média de 15% para
ambas as categorias.