24 Horas - 21 de Maio de 2000

Retrato do quotidiano de uma família numerosa

Muitos, diferentes e felizes

Fernando Castro, empregado bancário, e Leonor, ex-professora, actualmente doméstica, têm uma dúzia de filhos. Dois já se casaram, um até já lhes deu um neto, mas 10 continuam a viver com eles, às suas custas, numa casa onde não falta a alegria, nem o engenho para conquistar o bem estar. Só em pão e leite, gastam-se 70 contos por mês.

Cristina Arvelos

Lourenço, dois anos de idade, chucha na boca e fralda na mão, está de birra. São 21h30 de um dia da semana e a sua irmã Filipa, 23 anos, que vai casar-se no Verão, afaga os caracóis alourados ao bebé da família Castro, o benjamim, mais novo um mês que o tio, filho do varão do clã, Miguel, 26 anos de idade. Dez minutos depois, a sala grande onde Lourenço e Filipa trocavam ternuras, já parece pequena. Da cozinha, onde decorria o jantar, chegam os oito filhos de Fernando e Leonor, todos muito bem dispostos.

Brincam os rapazes, que são a maioria: "Só as raparigas é que se desentendem. Estão sempre a discutir por causa das roupas".

Fernando, 48 anos de idade e Leonor, 46, conheceram-se ainda adolescentes, não muito longe da casa onde moram, em São Domingos de Rana, Parede, uma herança que o avô deixou a Fernando. Casaram-se quatro anos depois de namorarem e quando o fizeram já tinham um sonho: ter muitos filhos. Não sabiam quantos e ainda hoje não prometem que Lourenço, o benjamim, seja o último. Explica Fernando: "A Leonor ficou sem pais em pequena e foi criada com a madrinha numa família grande. Era a nona. E isso foi tão bom, que nos despertou essa vontade".

A partir do quarto 

Quando o Rodrigo, hoje com 22 anos, nasceu, Fernando e Leonor perceberam melhor como a sua família estava a crescer. Era o quarto, depois do Miguel, da Catarina e da Filipa, todos nascidos em apenas quatro anos. Mas isso não abrandou o ritmo de futuros nascimentos. Um ano depois do Rodrigo, nasceu logo o João, três anos depois a Madalena. A partir dela, nasceram ainda a Carmo, o Marcos, o David, o Bernardo, o Samuel e, há dois anos atrás, o Lourenço. Só quando nasceu Bernardo, o décimo filho, é que Leonor deixou de trabalhar. Até aí exerceu a sua profissão: professora. Por essa altura, também, Fernando deixou de ser oficial de marinha e arranjou trabalho num banco. Precisava de ganhar um pouco mais e de estar mais perto de casa.

"Pensamos que eles apenas dão trabalho em pequenos. Quando crescem, damos conta que não é assim, que é exactamente quando são maiores que precisam mais de nós", dizem.

À medida que a família foi crescendo, Fernando e Leonor foram também aumentando a casa. Cada vez que havia um dinheiro, lá se metiam em obras a arranjar o que era preciso. Em todas as que fizeram, tiveram sempre em conta a funcionalidade. Ainda bem que o fizeram, até porque hoje é Leonor que toma conta de todas as tarefas no lar: desde cozinhar, a limpar, a passar a ferro.

Imaginação e aproveitamento

A Leonor cabe também a função de ir às compras. Um trabalho que não é mesmo nada fácil. São muitos, apesar dos seus dois filhos mais velhos já se terem casado, e todos comem e bebem bem. Diariamente, por exemplo, bebem-se, no mínimo, oito litros de leite. O resto, Leonor já nem consegue contabilizar. Sabe apenas que compra nos sítios onde vão os fornecedores abastecer-se e que não dá bifes todos os dias aos seus filhos. Mas a imaginação é muita e há sempre um petisco bom: de croquetes, a pasteis de massa tenra, passando por empadões, guisados, até às mais variadas maneiras de bacalhau. O jantar, nesta noite, foi bacalhau assado no forno com molho branco e brócolos. "Estava uma maravilha", dizem os mais pequenos. A comida da mãe é, aliás, motivo para elogios rasgados de todos. Adoram até as suas sopas, quase tanto como os doces, sobretudo os gelados de leite condensado com pedaços de aftereight (um chocolate) ou de caramelo. Comenta Leonor: "Comem tudo. Os mais gulosos chegam a acabar, num instante, os bolos que ficam mais queimados porque me esqueci deles no forno por qualquer razão".

Um por todos, todos por um

Andam todos, excepção dos dois mais novos que ainda estão em casa, em escolas públicas. E quando contam aos amigos mais recentes que têm tantos irmãos, eles chegam a duvidar. Mas quando esses amigos confirmam que é verdade, ouvem deles que, à conta disso, "ainda vão ser famosos".

Na família Castro, cada um toma conta de si e todos tomam conta uns dos outros. Leonor e Fernando nunca se deitam, no entanto, sem ir ver se estão todos tranquilos. E a todos ensinam a viver bem, mas com conta, peso e medida. Há muitas roupas que passam dos mais velhos para os mais novos. Já os sapatos nunca se herdam. Leonor tem especial preocupação com o calçado, acha que os pés precisam de conforto. Defende até que "eles podem estar vestidos com um trapo, mas se estão bem calçados, ficam óptimos". Por isso, ironiza que "já chegou a comprar sapatos em leasing". Por outras palavras, tem sempre que comprar tantos pares, que criou uma relação especial numa sapataria, onde é cliente há anos.

Os filhos todos garantem que o pai tem mais pachorra para as crises dos mais velhos e a mãe mais paciência para as birras dos mais novos. De vez em quando prometem portar-se todos bem deixam os pais irem jantar fora "para namorar um bocadinho". Aos fins de semana aproveitam para darem passeios, que saiam em conta. "Está tudo muito caro", dizem com naturalidade os mais pequenos.

Festas diárias

O cinema, por exemplo, à conta de serem muitos e dos preços dos bilhetes, é um luxo. Apesar disso, não perderam "O Rei Leão" e "O Príncipe do Egipto". As férias foram durante muitos anos passadas em parques de campismo. O ano passado, Fernando empenhou-se mais um bocadinho e comprou uma autocaravana. Foi uma festa lá em casa, como no dia em que o pai presenteou a família com um computador, ou como todos os Natais, na abertura das prendas, depois da missa do galo. Ou até como nesta noite, em que não houve surpresas especiais, mas não deixou de haver a solidariedade e o carinho de todos os dias. São 23h00 e em casa de Fernando e Leonor, a algazarra acabou. Todos foram deitar-se de livre vontade. Apenas Lourenço, chucha na boca, fralda ao ombro e livro na mão pede à mãe e ao pai que lhe conte a história da fada azul.

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