Expresso - 13 de Maio de 2000

Portugal a definhar

«Não sendo crível que as populações regressem aos campos, que as mulheres deixem de trabalhar e de ter ambições profissionais, que os métodos anticoncepcionais caiam em desuso, que os casais deixem de fazer contas e se disponham generosamente a ter mais filhos - então é necessário que o Estado crie incentivos à natalidade.»

«EM 1960, Portugal tinha a mais alta natalidade da Europa. Em 1999, está abaixo da média e é um dos sete países com menor natalidade. Em 1960, cada mulher portuguesa tinha, em média, 3,2 filhos. Hoje tem 1,5. Em 1960, Portugal tinha, com a Irlanda, a mais alta fecundidade da Europa. Em 1999, está entre os países abaixo da média europeia».

Esta citação é de uma crónica de António Barreto, que utiliza dados do INE.

E o que daqui resulta é altamente preocupante.

Porque significa que o país está a definhar.

As causas são várias.

Com o êxodo dos campos para as cidades, o espaço de habitação reduziu-se; as casas tornaram-se mais pequenas e passaram a constituir um obstáculo ao crescimento da família.

As mulheres começaram a trabalhar fora de casa, tendo de deixar os filhos em creches e infantários, que são muitíssimo dispendiosos.

Um número cada vez maior de mulheres passou a ter ambições profissionais, para as quais a gravidez e os filhos se tornaram um obstáculo.

O uso da pílula (e de outros métodos anticoncepcionais, como o preservativo) generalizou-se.

O avanço do pensamento materialista levou as famílias a pensar em termos de deve-e-haver e a fazer contas antes de se decidirem a ter um novo filho, concluindo muitas vezes pela negativa.

Os próprios princípios feministas tiveram algum efeito desmobilizador, ao combaterem a ideia da mulher «procriadora».

A sociedade mudou.

E, se muitas das causas apontadas podem ser vistas isoladamente como um «progresso», o seu resultado no que toca à natalidade foi péssimo.

Se um casal tem em média 1,5 filhos, isso quer dizer que, dos 10 milhões de habitantes existentes hoje, o país passará para os sete milhões e meio na próxima geração.

E, se tivermos em conta que muitos portugueses espalhados pelo mundo não vão regressar a Portugal e que os seus filhos já não terão em muitos casos a nacionalidade portuguesa, concluiremos que a Nação vai diminuir drasticamente.

O Estado tem, assim, de fazer alguma coisa.

Não sendo crível que as populações regressem aos campos, que as mulheres deixem de trabalhar e de ter ambições profissionais, que os métodos anticoncepcionais caiam em desuso, que os casais deixem de fazer contas e se disponham generosamente a ter mais filhos - então é necessário que o Estado crie incentivos à natalidade.

Apoie as famílias mais numerosas.

Estimule a existência de creches nos locais de trabalho, através, por exemplo, de benefícios fiscais às empresas que criem esses espaços.

Facilite a educação em todos os níveis de ensino.

E seja capaz de induzir a ideia de que os filhos não significam um empobrecimento da família.

É preciso que os casais portugueses pensem que os filhos não os vão tornar mais pobres: vão, pelo contrário, torná-los mais ricos.

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