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22 de Maio de 2000
Comércio do Porto
Famílias sem Governo
Virgínia Capôto
Em Portugal não há uma política para a família, e muito menos
para as famílias numerosas - a declaração parte de um ex-deputado
do PS, Fernando de Sousa, que critica duramente o Governo. Falando ao
COMÉRCIO na qualidade de presidente do Centro de Estudos da
População, Economia e Sociedade (CEPES), este professor catedrático
da Universidade do Porto que, durante 11 anos, representou o Partido
Socialista nas bancadas da Assembleia da República, lamenta que haja um
Ministério da Igualdade sem haver, no mínimo, uma Secretaria de
Estado da Família.
O discurso pessimista vai ao encontro da Associação Portuguesa das
Famílias Numerosas (APFN), que está a realizar uma série de
conferências no intuito de sensibilizar os responsáveis pelo país e a
sociedade em geral para os problemas que enfrentam os agregados com
três ou mais filhos. A próxima conferência, a realizar no dia 1 de
Junho em Lisboa, põe em causa o actual sistema de IRS e a forma
injusta com que os impostos são estipulados.
Segundo Fernando Castro, presidente da APFN, as famílias numerosas
são desprezadas em Portugal, ao contrário do que se passa noutros
países europeus. Enfrentam dificuldades que poderiam facilmente ser
ultrapassadas, com alguma vontade política, enquanto assistem ao
dramático envelhecimento da população.
Acompanhar o passo da Europa
O que se pede, afirma, são medidas já instaladas em vários
países da Europa, que atempadamente acordaram para a necessidade
de incentivar-se os casais a ter filhos. Através de instrumentos de
simples implantação, ajudava-se as famílias e incentivava-se,
paralelamente, a renovação da população. A APFN luta,
nomeadamente, por uma melhor quadro fiscal e de apoio social, um melhor
sistema de educação e descontos nos serviços públicos para famílias
com três ou mais filhos.
Para Fernando Castro, que toma a Europa desenvolvida como exemplo,
só Portugal ainda não despertou para essa questão urgente que é
ajudar as famílias e contrariar o envelhecimento. Devido à falta de
incentivos, a nossa taxa de natalidade é muito baixa - nascem menos 50
mil crianças por ano do que seria necessário para a renovação de
gerações.
O presidente da APFN salienta que todos os partidos políticos
são culpados por esta situação. Basta ver que a Lei de Bases da
Família está arrumada numa gaveta. Curiosamente, em 1984 Fernando
de Sousa e o então seu companheiro de partido Eurico Figueiredo
levantaram esta questão. Não obtivemos condições políticas
dentro do PS para avançar com uma Lei de Bases. No PS, este assunto ou
é tabu ou não é falado por ignorância - lamenta Fernando de
Sousa, frisando ainda que 95 por centos dos deputados na
Assembleia da República não tem opinião própria sobre esta
matéria.
Passávamos bem sem
Ministério da Igualdade
Por tudo isto, Fernando de Sousa não compreende a existência do
Ministério da Igualdade. O país, afirma, passava bem sem ele. Muito
mais importante seria que existisse uma Secretaria de Estado da Família
e, a substituir a pasta tutelada por Maria de Belém, uma
Direcção-Geral para a Igualdade.
A maior parte dos países europeus tem uma política de família,
inexistente em Portugal. Isso é muito grave - considera o presidente
do CEFES, para quem a referida Secretaria de Estado deveria levantar
os problemas existentes e apresentar soluções. Um organismo
governamental que teria, por consequência, um papel fundamental para o
bem-estar das famílias numerosas, na grande maioria a viver em
situação precária. É preciso criar, por exemplo, um apoio social que
permita aos pais ter os filhos a estudar com as condições mínimas
para terem sucesso. Cabe ao Governo actuar com medidas concertadas que
permitam atenuar as carências das famílias com menores rendimentos.
Na óptica de Fernando de Sousa, tudo torna-se quase risível se
tivermos em conta que o primeiro-ministro é católico, tal como a
maioria do país, cuja base da sociedade continua a ser a família. E,
no entanto, não há uma política que a defenda.
A seu ver, António Guterres está consciente desta realidade, mas
a tradição laica do Estado português tem impedido que se desenvolvam
políticas de família no país. Por norma, este assunto é visto como
sendo da esfera dos partidos de Direita; há a ideia de que a Esquerda
não se deve preocupar com isto, o que é totalmente errado. O problema
é tão grave que não faz sentido atribuir determinadas preocupações
apenas à Direita.
Segundo este professor catedrático, a diferença entre Portugal e
outros países europeus com uma estratégia familiar está, em
primeiro lugar, no nível cultural dos nossos políticos e a
sensibilização deles para os problemas que afectam as suas sociedades.
Em segundo lugar, o próprio nível cultural da comunidade portuguesa.
Reivindicar com legitimidade
São muitas as medidas por que reivindica a Associação Portuguesa
de Famílias Numerosas. Comecemos pelo Cartão Famílias Numerosas
(CFN), para cuja criação já foi sensibilizada a ministra da
Igualdade, Maria de Belém Roseira. Pensado nos termos dos cartões
Jovem ou da Terceira Idade, o CFN permitiria descontos em vários
serviços públicos e privados. Teriam acesso a ele todos os casais
com três ou mais filhos, independentemente de pertencerem à
associação, realça Fernando Castro.
O cartão está já instituído em vários países da UE, onde
também existe, por exemplo, descontos enormes nos transportes,
nomeadamente em comboios.
No que toca à educação, pedimos que se acabe com o escândalo
da negociata dos livros escolares, que são permanentemente alterados.
Muitos mantêm-se iguais, mas existe o cuidado de neles inserirem-se
fichas de exercícios. O objectivo é um só: forçar a inutilização
do livro - lamenta o presidente da APFN, que neste campo apresenta
outras reivindicações.
Part-time nas creches
Uma delas prende-se com a criação do regime de part-time nas
creches e jardins de infância. Se os pais quiserem optar por pôr a
criança na escola apenas de manhã - o que é excelente para o seu
desenvolvimento - pagam pelo dia inteiro, o que é manifestamente
injusto.
Mais elaborado é o conceito do Cheque-Educação, que passa por
deixar nas mãos dos pais a opção pela escola que desejar. Sabemos
quanto custa uma criança no ensino público. Portando, dêem-nos esse
valor e nós decidimos onde colocar os nossos filhos, advoga Fernando
Castro, argumentando que assim o ensino endireitava num instante: se
a escola é má, os professores medíocres, os pais podem optar por
outra.
Entrava-se, em suma, na lei do mercado, em que o ensino tinha de
ser forçosamente bom ou acabava. O Cheque-Educação punha fim,
também, ao problema da insegurança - aliás, por esta razão o sistema
foi implantado em vários estados norte-americanos.
Pôr ordem nas escolas, entretanto, poderia já passar pela
obrigatoriedade da publicação das classificações dos alunos ao longo
do ano, outra das medidas que a APFN desejava ver em vigor. O
objectivo é acabar com a taxa de inflação das notas. Em muitas
escolas, os alunos têm classificações excelentes e, nos exames
nacionais, conhecem um terrível fracasso.
Lutar, em suma, por uma melhor educação é uma das tarefas
assumidas pela APFN, a par de tantas outras que dizem respeito não só
a quem tem filhos, mas à sociedade em geral.
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