22 de Maio de 2000 - Comércio do Porto

Aires Pereira, apelido de uma imensa família

Lá em casa somos quinze

Numa primeira reacção o lábio descai de espanto, como se fosse uma coisa do outro mundo. Mas passa depressa a expressão de basbaque ao descobrir-se a coerência e a lucidez com que Umberto e Nina Aires Pereira fizeram a sua opção de vida. Este casal, residente no Porto, tem treze filhos.

Dez raparigas e três rapazes. Pode falar-se em golpe do destino, mas talvez seja mais adequado falar em planeamento familiar, ainda que numa escala rara. Quando casaram, Umberto, advogado, e Nina, médica, não pensavam numa prole tão numerosa. Tiveram a primeira filha há 18 anos e desde então foram aumentando a família conscientemente. O bebé da casa, com um ano, ensaia os primeiros passos.

“Não planeei nada, nem sequer sabia se queria ter um filho”, observa Nina, que cumpre um horário contínuo num centro de saúde para de tarde e à noite dedicar-se à família. Umberto frisa que “ter muitos filhos não foi um objectivo” delineado, e muito menos uma opção ditada pela religião - “não no nosso caso. Tem mais a ver com a vocação e com o facto da experiência ter sido óptima com os primeiros filhos”.

Para este casal trata-se antes de mais de uma aventura bem sucedida, feita com “uma boa dose de optimismo e confiança na vida”, sem medo de assumir “alguns riscos”.

Notório é, também, uma padrão de prioridades diferente do habitual. Preferiram os filhos “a um carro descapotável, uma casa fantástica ou 15 dias numa ilha paradisíaca”. Ou seja, “não se tem a sensação de prescindir”. Umberto lembra, a propósito, que de viagens conta uma ida a Paris “por razões de saúde de um filho”.

Os Aires Pereira, note-se, não são um casal com dificuldades económicas, simplesmente regem-se por ideais que talvez escapem à maioria das pessoas. Os filhos frequentam os colégios da Fomento, mas a família só tem um carro (“oficialmente dá para sete pessoas, mas cabemos os quinze”).

Como explicar o espírito que envolve esta doce aventura? Talvez afirmando que “a vida é feita de paradoxos. Um atleta corre até à exaustão por gosto. A felicidade não se consegue sem sacrifícios, mas não penosos - fazem-se com entusiasmo. Pessoas que optam pelo mais fácil para serem felizes normalmente não o são”, declara o pai.

Contar sempre com o imprevisto

Um filho adoece, outro tem um exame, outro um compromisso inadiável. Uma das primeiras coisas que se aprende numa família numerosa é que o calendário corre mesmo um dia de cada vez. É quase impossível programar-se o próximo fim-de-semana, muito menos as férias de Verão.

“Há sempre imprevistos”, dizem os Aires Pereira, acrescentando que a ideia de enfadonha rotina não entra nas suas vidas. Com tantos filhos, mais uma lição, ninguém boceja de aborrecimento.

Assumidos pais-galinha, Nina e Umberto não descuram qualquer aspecto da educação dos filhos. Estão atentos aos estudos, à sociabilidade e, fundamentalmente, ao desenvolvimento de uma personalidade que assente um pé na independência e outro no espírito de cooperação. Como afirmam, “uma tarefa para toda a vida”.

Nina resume tudo isto ao afirmar que é “muito exigente” e atenta a todos os pormenores. “Sou mãe de 13 como seria de um só. Não delego nos mais velhos o meu papel de mãe”.

Ao encontro da tal tarefa para toda a vida, mas também do dia-a-dia, na casa desta família existe uma tabela de distribuição de pequenos trabalhos diários - por exemplo, um filho levanta a mesa à segunda, terça e quarta, outro ajuda o pequeno Xavier a vestir-se, outro fica incumbido de comprar o pão. Nada rígido, naturalmente, porque como recorda Umberto “as regras não podem matar o espírito”.

Como seria de esperar, estas tarefas nem sempre são cumpridas, levantando amiúde as triviais discussões entre irmãos. Mas passa-se por cima, o importante é que na consciência de todos fique claro como água que a cooperação é uma condição de vida. “Eles não podem fazer as coisas na perpectiva de que estão a ajudar a mãe. Devem dar sem pensar em receber algo de troca. Tenho medo que meus filhos se habituem apenas a cumprir o dever”, começa por referir Nina. Umberto segue o discurso e realça que “a colaboração discreta é a ideal, aquela que é espontânea, que os outros não notam”.

E há o lado prático da questão. Nesta casa a multiplicação, não convém esquecer, faz-se por 15. Quinze lugares na mesa, quinze mudas de roupa para lavar. Toda a ajuda torna-se preciosa. “Faço pelo menos três máquinas de roupa por dia, aos fins-de-semana muitas mais...” - sustenta Nina. Na cozinha, dois frigoríficos são essenciais - “até porque não uso pré-cozinhados” - para esta grande família.

Como o atleta, corre-se por gosto. E aprende-se. Nina assegura que com o tempo ficou “mais tolerante. E tornei-me mais humilde. Quando tinha só um filho pensava que ele era o melhor em tudo. Depois vamos descobrindo que não é assim; todos são diferentes, uns são melhores num aspecto e outros noutros. Sou agora mais sensível à variação das pessoas e às suas diferenças”.

Os filhos, por seu turno, “têm uma visão mais abrangente da vida. Estão habituados a conviver, porque têm os irmãos, os tios, os amigos dos irmãos”. E sabem que têm sempre com quem contar.

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