22 de Maio de 2000 - Comércio do Porto

Enquanto outros países europeus renovam a população

Portugal está velho

Quem nos vai pagar a reforma? - a questão já virou cliché quando o assunto é o envelhecimento da população. E a chatice é que tem todo o fundamento: Portugal está velho e não mostra vontade de renovar-se. Enquanto os países desenvolvidos da Europa lutam pela renovação geracional, por cá a inércia é quase total. As perspectivas são desanimadoras. O número de habitantes - nove milhões e novecentos mil - não deve crescer até 2025. “A sensação é que estamos a bater no fundo”, lamenta o presidente do Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade (CEPES).

Segundo Fernando de Sousa, cabe ao Governo contrariar esta situação “verdadeiramente dramática”, mediante a criação de incentivos e instrumentos que permitam a renovação da sociedade. Mas o problema não é novo; “há uma ausência de políticas de Estado dos sucessivos governos relativamente a esta matéria”.

Portugal regista no âmbito europeu “os níveis mais baixos de fecundidade e natalidade. Hoje não substituímos as gerações e temos menos população do que há dez anos”. Já os países nórdicos da Europa - onde contrariar o envelhecimento constitui uma prioridade - “estão a conhecer um ligeiro processo de recuperação. Ou seja, começaram a fazer uma retoma da natalidade”.

Fernando de Sousa adjectiva de dramático o fenómeno de envelhecimento populacional no nosso país “pela rapidez e intensidade” com que se declarou nas duas últimas décadas. Até 1970, a nossa taxa de natalidade era elevada, caindo depois drasticamente.

Na origem da queda brusca e para já irreversível estão questões culturais e sócio-económicas. Com o advento da democracia (acrescido do fluxo emigratório) mudaram as mentalidades. A mulher entrou finalmente no mercado de trabalho e desenha como meta pessoal o sucesso profissional. Prova disso é o seu acesso, sem precedentes, à universidade: “em todos os cursos, a população é maioritariamente composta por jovens do sexo feminino”.

A este factor aliou-se a “redução da religiosidade. Mesmo sendo católica, a maioria das pessoas recusa-se a aceitar as directrizes da Igreja no que diz respeito à natalidade”, observa Fernando de Sousa.

A nova mulher e a nova forma de viver a religião levaram à generalização das práticas contraceptivas e a “uma mentalidade restritiva do número de filhos” - sustenta o presidente do CEPES, que explica ainda o fenómeno pelo desenvolvimento cultural das pessoas e pelo crescente individualismo. Ou seja, tem-se nenhum, um ou no máximo dois filhos em nome de um futuro economicamente estável, o que passa também por uma sobrevalorização da carreira profissional, tida amiúde como a única chave do triunfo pessoal.

Desenvolver uma política de família (ver texto principal) é, na óptica de Fernando de Sousa, a única forma de contrariar o Portugal velho. Algo que tem de passar, sustenta, em primeira e última análise por quem comanda o país.

Caso contrário, estaremos em breve num beco sem saída. A população activa tem vindo a diminuir e a idosa a aumentar. Quem pagará, enfim, as pensões de reforma dos que hoje estão a trabalhar ou estudar? Uma questão sem resposta aprazada e, ainda por cima, envolvida num paradoxo - como refere Fernando de Sousa, “estamos a descontar valores altíssimos, comparativamente com outros países europeus, para a Segurança Social, que está na bancarrota”.

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