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A Vida humana e os filhos na Família
Nota da Comissão Episcopal da Família para a Semana da Vida
21-28 de Maio de 2000.
D. António Monteiro
No coração da Primavera, neste Ano Jubilar e no contexto histórico
da beatificação em Fátima de duas crianças de uma das famílias
de Portugal, vamos viver mais uma vez neste ano a celebração
da Semana da Vida. O tema da Semana impõe-se naturalmente. Pensámos
neste contexto reflectir, celebrar e rezar, de olhos nos filhos
que nos vão oferecendo as nossas famílias, como a expressão
mais significativa da vida humana,
O Santo Padre João Paulo II, por seu lado, neste Ano Jubilar,
quer encontrar-se, pela terceira vez, no próximo mês de
Outubro, com as famílias do mundo inteiro para lhes falar
nomeadamente dos filhos no seio do lar. Filhos que ele vai
designar como Primavera da família e da sociedade. Poderá
também vir a falar-lhes dos filhos como Primavera da Igreja.
Sem os filhos na família, cairemos sempre mais no que já deu
em chamar-se o Inverno da família, da sociedade e da Igreja. A
ausência dos filhos é simplesmente recusa da vida. Os filhos a
saltar, a rir, a correr, a brincar são, dentro do lar, na
sociedade, na Igreja, o grande sinal do amor, da alegria, do
acolhimento à vida, da Primavera, da esperança, do futuro do
mundo.
Entretanto, para nós cristãos e para além de tudo isso, os
filhos, como também a própria vida, são sobretudo o grande
dom de Deus. Cada um dos filhos que aparece no seio da família,
na sua identidade, única e irrepetível, é uma palavra
singular que Deus nos quer dizer. Cada um deles é mais uma
prova, sempre actual, do amor que Deus nos tem, do amor com que
Ele ama o mundo. Enquanto encontrarmos berços nos lares, o
mundo terá sempre razões para viver. Na Bíblia os filhos
aparecem, logo de início, como expressão de uma benção de
Deus (Gen 1, 28).
Os filhos, como também a própria vida humana que neles se faz
pessoa, são isso mesmo. São uma benção. Como tais são eles
e devem ser a incarnação viva e histórica do amor que une pai
e a mãe. São eles também e muito especialmente a expressão
no mundo do amor à vida, do amor ao mundo, do amor à Primavera
e ainda mais a expressão do próprio amor de Deus. Sendo os
filhos essa maravilha, todos eles, sem excepção, têm direitos
fundamentais. Direitos que lhes assistem desde o seio da mãe,
mesmo no caso de virem à luz com alguma deficiência. Os filhos
têm, entre outros, o direito ao amor, ao respeito, ao
acolhimento, à contemplação, a serem, viverem e crescerem
sempre mais. O direito a serem ouvidos, a serem mensagem, a
darem pelo mistério que vai em cada um deles, a encontrarem no
horizonte uma vida que lhes sorria e valha a pena viver. O
direito inviolável a poderem descobrir a Deus Omnipotente e
fonte da Vida que está na sua origem. Toda esta dignidade e
direitos das crianças levam consigo o dever de sermos todos
contemplativos diante das nossas crianças, dentro e fora do
lar. Não deixemos nunca de nos perguntarmos de vez em quando
perante os nossos pequeninos: «Que virá a ser este menino?»
(Lc 1, 66). Há que dispor por isso de algum tempo no remanso
dos nossos lares para contemplar e rezar com os nossos
pequeninos. Uma outra exigência será sempre que o amor, desde
o seio materno, seja o clima natural que respiram todas as crianças.
Depois de fitarmos a Jacinta e o Francisco nos nossos altares, não
esqueça ninguém que podemos ter, temos e teremos santos também
entre os pequeninos dos nossos lares. A devoção aos pequeninos
seria uma grande perspectiva para o futuro da humanidade.
Lembremo-nos que a vida que lhes démos é mesmo a própria vida
de que vem de Deus. É uma vida divina.
António Monteiro. Bispo de Viseu e
Presidente da Comissão Episcopal da Família
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