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Diário de Notícias, 22 de Maio
Cedência ou opção fundamental?
Xavier Pintado
A decisão do primeiro-ministro de abandonar a proposta de Lei da
Bases da Família, do seu próprio partido,
substituindo-a pela do CDS/PP, foi vista por
muitos como uma "cedência aos católicos". E, depois de ter
deixado passar outras propostas de lei que a
contradizem, sobre aquilo que pode considerar-se
como tentativas de "mimetização" da família, essa interpretação
não é desprovida de lógica. Mas não seria a minha.
Pressupondo ou assumindo a sua boa-fé, teria, para mim, que
"cedências" teriam sido a aceitação e
a passagem de outras propostas que a contradizem e manifestamente
se lhe opõem, como a das uniões de facto de homossexuais, e que esta
sua decisão consistiu numa opção de fundo pelo essencial da família
e do homem.
Duas das expressões mais admirativas e de respeito pelas posições
do actual Pontífice da Igreja Católica, João Paulo II, que tenho
encontrado provêm, surpreendentemente, de não crentes.
Uma foi a do comentador da encíclica Centesimus Annus, no Financial
Times, que dizia expressamente "não sou crente, mas para mim esta
encíclica e este homem que se chama João Paulo II, se não existissem,
seria preciso inventá-los. E isto por causa do homem e do sentido da
suprema dignidade do homem que encerram". E, de facto, tanto a
Centesimus Annus como a sua Carta às Famílias reflectem de modo
inequívoco esse sentido de profundo respeito pela dignidade do homem.
O outro testemunho, de alguém que também se confessava "não
crente", era o de que, se há algo de manifesto, e que não deixa
dúvidas no actual Papa, é a sua convicção profunda de que o
cristianismo possui uma resposta para o homem de hoje. Para acrescentar:
"Se os seus crentes possuíssem essa mesma convicção, talvez
também a nós nos convencessem!"
Para mim, como crente, seria difícil encontrar outro tema, como o da
família, em que esta afirmação seja mais justa. E a experiência de
uma vida longa tornou-mo patente com uma multiplicidade de casos, alguns
dramáticos, com os quais me confrontei, ou se desenrolaram a meu lado,
mostrando-me a extensão do sofrimento e de degradação do homem
resultantes da degradação da família e dos falsos conceitos de
família.
A primeira lembrança que me veio à memória, entre as muitas coisas
retidas através dos anos de uma vida longa, foi a história de uma
senhora francesa, mãe de três filhos, que um dia decidiu pôr termo a
uma vida profissional de sucesso quando a mais pequenina delas - de
três anos - a enterneceu com um agradecimento inesperado e para o qual
não encontrou, de imediato, objecto:
"Merci, maman" ("obrigado, mamã").
"Obrigado de quê?", perguntou. "Parce que tu es
lá!" ("Porque estás aqui"), foi a resposta. Foi um dia
em que tinha feito congé - ficado em casa -, não tendo ido ao trabalho
por razões perfeitamente alheias às preocupações do seu bebé. O
emprego para ela não era essencial como ganha-pão ou sustentação da
família e confiava suficientemente na estabilidade desta, o que já
então não sucedia com muitas outras.
E com esta, a expressão "órfãos de pais vivos",
utilizada na Carta às Famílias, imediatamente despoletou do acervo das
minhas lembranças todo um conjunto de factos ou acontecimentos, na
maioria dolorosos, que não tinha associado de modo tão claro à
carência que os filhos experimentam da presença amorosa de uma mãe ou
de um pai.
A mais traumática remonta a quatro décadas, quando a família não
conhecia ainda o movimento de dissolução de que hoje sofre, e envolve
o último condenado à morte no Reino Unido, que por puro acaso ou
acidente vi com os meus próprios olhos partir para a cadeira eléctrica
que lhe devia pôr termo à vida.
Foi no início dos anos 60, quando, fazendo o meu caminho habitual
para a Universidade de Edimburgo, me deparei com uma multidão de
pessoas, numa praça habitualmente deserta,
voltadas para o edifício do Comando-Geral da Polícia, junto de cuja
saída se encontrava um carro celular de portas abertas.
Parei também, sem a menor ideia do que se passava, tendo então
visto conduzir para o carro, por dois agentes de polícia, um jovem
algemado. O carro partiu e eu segui o meu caminho, não sem alguma
emoção, pensando que os noticiários do dia seguinte deveriam dizer
algo sobre o acontecimento. E, de facto, o mesmo viria a constituir tema
de primeira página de toda a imprensa escocesa do dia seguinte.
Tratava-se de um jovem que, de modo pensado e premeditadamente,
assassinara um homem idoso para lhe roubar 80 libras! E todos os jornais
relataram a confissão dramática e confrangedora da mãe dizendo:
"A culpa foi minha, que o abandonei quando ele tinha 14 anos para
partir com outro homem..." Aos 18 anos tornara-se embarcadiço e
depois quase lhe perdera o rasto, para o reencontrar finalmente na
prisão após o crime. Logo a seguir a pena de morte foi abolida no
Reino Unido.
Foi o caso mais trágico que conheci. Mas outros se sucederam, em bom
número, que a memória reteve, associados à realidade, sempre
dolorosa, dos "órfãos de pais vivos".
Foram os números de Childcare - uma associação britânica exemplar
que cuidava de crianças abandonadas e de filhos de famílias
destruídas, que, por mais que fizesse, não conseguia que as crianças
que por lá passavam, uma vez adultas, não registassem uma taxa de
criminalidade inferior ao triplo das dos filhos de "famílias
normais". Ou o da senhora que, uma vez convertida, tinha
dificuldade em rezar o pai-nosso, pela quase inibição em pronunciar a
frase "como nós perdoamos aos que nos têm ofendido",
pensando no pai que a abandonara também a ela e à mãe, em condições
de desespero.
Foram autênticos "infernos em vida" que conheci, que
afectaram toda a existência de filhos inocentes de pais e mães
irresponsáveis. De situações que levaram tantos a um insucesso
escolar completo, à droga, à criminalidade e mesmo ao suicídio.
E casos de destruição da vida de um dos cônjuges, e de um casal
que, unido por uma paixão fulminante, se separa ao fim de alguns meses
apenas, depois de ter gerado um filho de que não conhecia nem o sexo
nem o rosto ou o nome! E, como estes, há milhões de outros casos, não
apenas naqueles estados norte-americanos em que a família
"estatisticamente normal" é já uma família
"anormal", mas em Inglaterra, em França, em Espanha e em
Portugal...
Muitos deles fazem certamente parte dos mais de 400 milhões de seres
humanos que hoje sofrem de doenças mentais e neurológicas e que acabam
de levar, no começo deste novo século, a Organização Mundial de
Saúde a declarar a depressão como a epidemia do século XXI.
A família mudou; o homem e a mulher mudaram, porque perderam
valores. E com eles o sentido da responsabilidade que assumem ao unir-se
e gerarem filhos, entregues depois à condição sempre dolorosa de
"órfãos de pais vivos", quase nos levando a crer na verdade
do dito de que hoje "o homem e a mulher são seres que não podem
viver um sem o outro, mas não conseguem viver um com o outro!".
Não se pretende que a Lei de Bases da Família seja exclusivamente
orientada para a defesa da família cristã, porque essa só a fé ou um
sentido muito profundo da riqueza da união matrimonial podem dar.
Mas que seja uma lei que proteja e promova o desenvolvimento de
famílias "normais". Normais no sentido pleno do termo e não
daquilo que já é hoje a família estatisticamente normal em alguns
Estados e países, mas que na realidade é uma família
"anormal". De uma família criadora de vida - de vidas de que
tanto precisamos - e não destruidora de vidas...
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