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Diário de Notícias - 25 de Maio
Lucro "ameaça" jornalismo
A visão economicista das empresas de media é a grande ameaça à
independência do jornalismo, diz académico americano
Susete Francisco
DN-Eduardo Tomé
"AMEAÇA". Actualmente, o mais sério problema do
jornalismo "está no interior das próprias organizações
jornalísticas", defendeu ontem Christopher Daly
A procura exacerbada do lucro, por parte das empresas de
comunicação social é, actualmente, a grande ameaça que se levanta à
prática jornalística.
Segundo Christopher Daly, professor de jornalismo da Universidade de
Boston, nos Estados Unidos, a excessiva visão economicista dos grupos
de media traduz-se numa política de "corte de custos em todo o
lado onde isso seja possível", o que se reflecte na qualidade do
produto jornalístico. Com uma carreira que passou pelo jornal
Washington Post e pela agência Associated Press (AP), Christopher Daly
esteve em Portugal a convite da Fundação Luso-Americana para o
Desenvolvimento (FLAD). Em conferência proferida ontem, no CENJOR
(Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas), em
Lisboa, Daly afirmou que a "vontade das empresas jornalísticas em
atingir hiper-lucros" é uma "ameaça real, sistemática e
muito séria" a um jornalismo independente. Um problema nos EUA,
mas que acredita "ser geral". Segundo o ex-jornalista e
académico, "o Governo, a Igreja ou os militares não têm poder
para dar ordens aos jornalistas. Mas os responsáveis das empresas
jornalísticas têm". E como a prioridade destas passa pelo
objectivo de "fazer dinheiro", as consequências têm vindo a
traduzir-se no fim do apoio à formação dos jornalistas - "as
empresas empurraram isso para o exterior" -, numa "forte
pressão para fechar delegações" e numa "maior
pressão" sobre o trabalho jornalístico, com a exigência de que
este seja, "não melhor, mas mais rápido". Ilustrando a sua
opinião, Christopher Daly deixou o exemplo de um jornal
norte-americano, ao qual a administração impôs como objectivo um
"aumento de 20 por cento nos lucros". A inversão de uma
conjuntura económica antes favorável tornou impossível a
concretização desta meta, apesar disso mantida pela administração, o
que levou à demissão do director do jornal. "Este caso está a
ser seguido com muita atenção", afirmou Daly, acrescentando que
foi "a primeira vez que alguém disse não", em nome da
qualidade do jornalismo.
Defendendo a especificidade da comunicação social, Christopher Daly
diz que "maximizar o lucro" não deveria ser o critério
fundamental das empresas de media, mas afirma não ver solução, a
curto prazo, para este panorama. E deu um exemplo do que podem ser as
consequências de uma situação em que as empresas jornalísticas
estão inseridas em grupos económicos com variados interesses. Segundo
o académico, uma jornalista da ABC News (estação televisiva
norte-americana pertencente à ABC Corporation, propriedade da Disney),
descobriu que um dos parques da Disney "estava a contratar, como
seguranças, ex-reclusos condenados por abuso de menores. Os
responsáveis da estação não a deixaram publicar a história. A ordem
nem sequer veio de cima.
Estavam só a antecipá-la". Questão levantada na Europa, a
eleição do magnata dos media Silvio Berlusconi como primeiro-ministro
de Itália é "preocupante", mas dificilmente aconteceria nos
Estados Unidos. "Haveria uma enorme pressão para que
vendesse" as suas empresas de comunicação social, defendeu Daly.
Para o académico, os problemas mais apontados ao jornalismo americano
referem-se a conteúdos "disparatados" - como o caso Monica
Lewinsky - ou alguma desatenção às questões exteriores aos EUA. São
"críticas justas", afirma, mas bem menos preocupantes que as
consequências da caça ao lucro.
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