A sociedade rasca
Vasco Graça Moura
Tudo começou pela chamada
"televisão da intimidade". Os participantes contavam
histórias da sua vida, ou pediam perdão a terceiros das ofensas que
lhes tinham feito, ou davam conta de sentimentos inconfessados.
Prestavam-se, expondo-se perante
milhões de pessoas, a revelações e exercícios públicos de
confissão e de contrição que nunca teriam ousado fazer fora daquelas
circunstâncias. Mas havia ainda uma ligação, ténue embora, ao
embrião de uma narrativa. Eles contavam uma história que podia ser
mais ou menos desenvolvida e carregada de pormenores: "Bati no meu
irmão", "abandonei a minha família", "passei a
detestar a minha mãe"... E, além disso, na maior parte dos casos,
eram supostas, ou esperadas, quer uma "redenção" da falta
quer uma solução do problema: "Peço perdão ao meu irmão",
"procuro ansiosamente a minha família", "espero que a
minha mãe me compreenda."
Fosse para se flagelarem em público ou
para se exibirem, fosse para darem nas vistas ao menos uma vez na vida,
fosse por qualquer outra razão, interessam menos os mecanismos
psicológicos que os levavam a essas atitudes do que a avidez das
plateias a vibrarem com o espectáculo que assim lhes era proporcionado.
Em todo o caso, repete-se, os espectadores eram confrontados com a
especificidade de uma história humana concreta, conquanto de interesse
muito variável, e não parece que a opinião pública constituída se
arvorasse em juiz dos actos revelados. Limitava-se a escrutinar a quase
invariável banalidade das situações e a reagir, aplaudindo, não
menos banalmente, o desfecho "feliz", devidamente agenciado
pela produção do programa. As grandes audiências alcançadas poderiam
então significar a vontade que muita gente tinha de assistir a uma
história que terminava "bem".
Com a apresentação de programas do
tipo "Big Brother", ou "Bar da TV", as coisas já
não se passam assim.
As audiências já não querem saber o
que aconteceu e cujo remate ocorreria na sua frente, mas, sim,
presenciar o que vai acontecendo.
Já não lhes interessam nem a
expiação pública nem o happy end possível, num sentido mais ou menos
tradicional. Pretendem assistir agora a uma espécie de história in
progress, sabendo que não há, propriamente, história à partida e que
grande parte do que vai sucedendo não tem o mínimo interesse
narrativo.
Nesse tecido ainda mais banal do
acontecer, em que a conversa é de chacha, o ritmo televisivo não
existe, os protagonistas consentiram previamente por escrito na
revelação de toda a sua intimidade e não há nenhum especial problema
humano, a não ser o da degradação de haver gente que se preste a agir
assim e de haver ainda mais gente que se disponha a olhar assiduamente,
o que as audiências esperam é um conjunto de conflitos e de
incidentes, da agressividade ao sexo, tal como podem surgir e
desenvolver-se num huis clos (o aspecto laboratorial de experimentação
com seres humanos, a que há poucos meses se referia José Pacheco
Pereira).
O que passou a interessar é o
eventualmente chocante ou o eventualmente picante, é a gratuitidade
fácil dos encontros eróticos, é a nudez feminina ou masculina
surpreendida na casa de banho, é a instalação da permissividade como
regra de vida, e também o improviso, a graçola, a grosseria, enfim, a
pantalha transformada num universal buraco de fechadura, porque não
parece mal dar uma espreitadela deleitada, e que permite ir derrubando
um a um os tabus da vida privada. Não só as audiências procuram esse
espectáculo como o colocam nos tops. E as comunidades a que pertencem
os intervenientes, a começar pela maior parte das famílias,
regozijam-se com o espectáculo, vibram com os incidentes como num jogo
de futebol, torcem pelos seus candidatos no grau zero do pudor,
legitimam o seu comportamento, qualquer que ele seja, e já não
estranham praticamente nada.
Se as televisões não tivessem tomado
a iniciativa, provavelmente a moda não teria pegado. Mas fizeram-no e
as audiometrias dão-lhes razão, em todos os países, do mesmo passo
que facultam uma medida bastante exacta da mediocridade de quem faz e da
mediocridade de quem vê. O panorama é ainda mais eloquente se
pensarmos que a maior audiência destes programas se situa nas chamadas
"classes A e B". Os mais pobres não perdem muito tempo com
essas coisas e os mais velhos, também não. São as classes mais
bem-instaladas na vida e mais na força dela que fornecem o maior
número de espectadores, e isto é um espelho da sua falta de
referências, de valores e de expectativas.
As televisões acabam por funcionar
como grandes "reveladoras" dessas características e, na
fogueira concorrencial e demencial da disputa de audiências, não se
sabe aonde é que irão parar. A cenas de pornografia hard-core? A
autópsias transmitidas em directo?
Quando uns poucos consentem, milhões
de outros aplaudem e ninguém encontra uma solução satisfatória, só
pode prever-se que a sociedade acabará por devorar os seus próprios
fundamentos, nesta espiral de estupidez e de vulgaridade indigna em que
ela se revê e sobretudo se compraz, todos os dias.